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27/06/2017

Na frente do cabelereiro, a história do PT


Passei na frente de um cabelereiro chamado “Thelma & Louise”, aqui entre o Jaguaré da classe média e o São Francisco dos ricos, em São Paulo. Não lembrei do filme, mas de um episódio que envolveu o filme. Eu conto.

Luíza Erundina era prefeita em São Paulo, Thelma de Souza era prefeita em Santos. Ambas do PT. Era segunda leva de prefeitos já fora do contexto próprio da Ditadura Militar. O partido tinha prestígio, e a administração delas enfrentava os problemas com uma seriedade jamais vista. Foram juntas ao cinema ver o filme Thelma e Louise. Foi um evento! Foram acompanhadas pela imprensa, que as entrevistou na saída do filme. Era uma época de esperança. Lula ainda iria amargar umas derrotas, mas construía tenazmente uma via política digna, generosa, social-democrata, contra a corrente conservadora que crescia no mundo todo. Era respeitado até pelos adversários mais conservadores.

Lula trabalhou incansavelmente para fazer algo grandioso que, depois, ele mesmo começou a destruir. Eleito presidente, deixou Zé Dirceu comandar o partido de modo estalinista, coisa que este já vinha fazendo antes. Deu guarida para o “mensalão”. Afirmou este como existente e punível, e depois disse que nunca ocorreu. Aproveitou-se eleitoralmente da corrupção na Petrobrás. Gerou um PT com um discurso radical à esquerda, dogmático, anti-americanista estúpido, tudo isso para a galerinha interna, cujos militante se transformaram em Nassifs da vida, jornalistas marrons e corruptos. Externamente, fez acordo de banditismo com os empresários e banqueiros, num regime de colaboração mútua e corrupção. Reinstaurou o populismo de Vargas e Jango, mas de modo mais sujo e mais atávico. Passou a governar desprezando a legalidade democrática. Gerou o lulismo como forma de atuação de grupos policiais de sonoridade fascista. Destruiu a plataforma de esquerda de 1989 para se por em uma plataforma populista que faria de Jânio e Brizola aprendizes!

Deu no que deu: hoje Lula está a um passo de Moro, um juiz da nova safra, tenaz, justo, arguto. Lula jogou as esquerdas num buraco, após ter feito tudo para levá-las à presidência, coisa jamais esperada no anos 80. Aliás, naquela época, Erundina e Thelma eleitas, já era um milagre.

Mas o mais interessante: toda a crítica que parte da direita faz hoje ao PT (os Pondé da vida e outros incultos), o próprio PT já fez, interna e externamente, com expurgos ou não. Weffort, Plinio, Bicudo, Dutra, Erundina, Ivan Valente … Tantos foram saindo. Tantos disseram: sem democracia interna isso vai descambar! O PT ficou mais burro, mais corrupto, mais lulista, mais desgraçado. Uniu-se então, definitivamente, ao restolho da Ditadura Militar, ao fisiologismo gerado por aquele tempo de política sem sem política, época do MDB, e que no deixou de herança esse lixo ao quadrado que é hoje o PMDB de Cunha e Temer. No que esse PMDB difere do PT? Será que a brincadeira de proibir “pílula do dia seguinte” é o que restou de diferença entre ambos? Bobagem, nem isso! O que sobrou é o farsante Haddad, vendendo patrimônio ecológico e criando multas de trânsito para benefício próprio. É o PT. O PT não consegue fazer nada mais que seja honesto, nem mesmo quando pode.

O que foi o partido mais querido do Brasil é hoje uma sigla que causa para muitos que apostaram na social democrática verdadeira no Brasil, apenas desejo de silêncio. Olham para a veja grasnando e nem ligam mais.

Última cena: o carro entra no ar do precipício.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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4 Responses “Na frente do cabelereiro, a história do PT”

  1. Jokas
    01/11/2015 at 10:10

    Apesar de tudo o PT ainda é um partido de massas, tem potencial para voltar a ser o que foi nos anos 80, um partido do povo.

    • 01/11/2015 at 12:49

      Jokas você disse bem: “massas”. Nem vendo o que o nome significa você acorda?

  2. luiz gonzaga teixeira
    01/11/2015 at 00:10

    visão extremamente discutível. Eu discordo totalmente da proposta metodológica do José Dirceu, que poderíamos chamar de maquiavelismo contábil. Mas não é bem isso. Consiste em garantir o sucesso no acesso ao poder para a esquerda, mesmo com concessões éticas. Eu não penso assim, mas respeito quem pense. O abandono da linha do José dirceu pela dilma pode colocar em perigo as conquistas sociais. Enfim, o que é mais importante, minhas comixões morais ou a fome de dezenas de milhões de pessoas que nada podem fazer si mesmas? Uma vez no poder Lula inaugura um novo capítulo metodológico, que agora poderíamos chamar de tapinha nas costas. Não concordo também, mas foi eficiente. E por fim aparece a Dilma, muito mais confiável. Eu preferia um socialismo mais contundente, mas, mais uma vez, sou obrigado que quem sabe os outros não estão mais certos do que eu? O grande erro disso tudo é ser pego. Mas, como a Dilma pretende meio que indiretamente como a grande presidente da investigação, tudo se corrige. O Brasil está mandando para a cadeia membros da elite, e isso graças à ação institucionalista da Dilma. Ela tem respeitado de forma irritante as instituições democráticas. Se o PT daqui pra frente souber enfrentar a elite assassina encastelada nas instituições, principalmente na justiça e na mídia, tudo acaba se justificando e tendo um final feliz. E mais um detalhe: assumir que os atuais governos são transições para o socialismo. Uma transição necessária que reconhece de forma madura o poder do adversário. Poderia forçar um pouco mais, afrontar mais, só que, se vai mais lentamente, tudo bem, vai indo. E assim aos poucos o brasil se torna institucionalmente um país mais sólido. E no poder o PT pode com segurança derrotar a elite e a direita para construir talvez a primeira experiência socialista no mundo de um novo tipo. Que tipo? Na minha opinião, o socialismo totalmente centrado na educação. Resumindo, se o caminho do PT não se desviar, tudo que foi feito até hoje pode se justificar e acabar sendo pro bem.

    • 01/11/2015 at 02:51

      “SE o caminho do PT não se desviar” – em que mundo você vive? Acorda!

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