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24/06/2017

Mujica no Brasil e a saudade do futuro


No final dos anos setenta para a entrada dos nos oitenta a esquerda brasileira criou um futuro. Mas, em meados dos anos noventa, nem mesmo o presidente do PT, Francisco Weffort, tinha para ele o PT como construtor daquele futuro. Pediu licença e saiu da presidência do partido para ser ministro de FHC.

Vieram os governos Lula e Dilma e o projeto deixado pelo PSDB foi complementado por ações sociais que FHC não conseguiu fazer. Mas, do mesmo modo que o PMDB e o PSDB, que chegaram a abrigar parte de uma esquerda não autoritária, o PT seguiu logo o mesmo caminho, se corrompendo em todos os sentidos. Então, agora em agosto de 2015, Mujica vem do Uruguai e abre espaço na UERJ para dizer: “vamos sonhar outra vez?” “Vamos marcar essa nossa data agora, para que tenhamos nostalgia dela mais tarde, como uma época em que voltamos a sonhar?”. Lindo né?

Parece simples, mas não é. Por uma razão: uma boa parte dos jovens que foi ver e aplaudir Mujica não quer se olhar no espelho e dizer que o que ele fala em favor do Lula, de Dirceu, de Dilma e do PT é da boca para fora, não vale. Caso valha, então Mujica é um tonto. Nenhuma das lideranças do PT quer andar de fusca e morar numa chácara sem luxo. Há uma sanha de ostentação no Brasil que é diferente do que corre na veia do povo uruguaio – sempre foi assim, e isso é uma verdade histórica desde o tempo que o Uruguai pertenceu era parte do Brasil. Isso que estou falando não tem nada a ver com aquela bobagem de uma direita ressentida e inculta, que diz que socialista tem que ser pobre. Nada disso. O que estou dizendo é o seguinte: o PT não consegue mais se livrar do dinheiro antes como um elemento corruptor que como um instrumento do bem viver. O PT foi engolido pela corrupção, de um modo que Mujica não foi, porque o projeto do PT de ficar no poder por mais tempo do que seria o “natural” ultrapassou tudo que se poderia desejar. A máquina de corrupção montada entre o PT e os “burgueses” (Odebrecht à frente), adornada por gente do PMDB, PP e também do PSDB, ultrapassou em muito a aliança entre setores sociais que vemos em todas as análises boas de Bresser Pereira.

Assim, o jovem que foi à UERJ para aplaudir Mujica não consegue dizer para si mesmo duas verdades chatas: “Mujica não é corrupto e o PT é corrupto”, e também, “o PSOL tem uma forma de agir que imita em tudo o PT na sua fase de ‘vanguardismo’ no estilo quase bolchevique, e isso Mujica também deixou para trás”. Não há nada na cabeça da maioria dos jovens que foram lá gritar para que Mujica lhes devolvesse um momento de utopia, que seja diferente daquilo que havia na cabeça do próprio Zé Dirceu quando jovem. Aquilo que Luiz Eduardo Soares teve a coragem de falar contra o PT (Folha de S. Paulo), em plena eleição passada, esses jovens pró-sonho de Mujica não endossam. A coragem e a inteligência de um Luiz Eduardo não são para qualquer um.

Há uma letargia na esquerda brasileira que faz com que até os ignorantes que apontam o liberalismo do século XVII como uma coisa nova, possam se sobressair. Essa letargia foi criada por um subproduto da corrupção na qual o PT se meteu. Ela se chama “esquema Nassif”. Nesse esquema não participa só Luís Nassif, mas nele há mais dinheiro do que se imagina. A ideia desse esquema foi a de criar uma rede de jornalistas que, bem diferente dos cães de guarda da Veja e alguns na Folha e Estadão ou Jovem Pan, pudessem atuar soltos por aí como se ainda fossem analistas independentes. Posam de analistas, mas não são. Viraram militantes pagos da esquerda – pagos com o nosso dinheiro! Como Nassif, eles são todos instruídos para passar um bálsamo analítico sobre dados falsos e notícias falsas, além de disseminar uma série de jargões que impedem o petista de pensar. Uma tal manipulação foi tão grande que começou, logo depois do “mensalão”, a criar o auto-engano no PT. Até Lula chegou a engolir notícias criadas por essa máquina de propaganda disfarçada de jornalismo. O resultado máximo foi este agora, de Dilma dizer que não tinha noção do tamanho da crise, que demorou em percebê-la etc. Em boa parte isso que disse é verdade. Toda vez que recebia uma notícia de que as coisas iam mal, não procurava um Paul Singer, mas ficava requebrando entre o que diziam os opositores e o que diziam as notícias e análises do esquema Nassif.

O PT foi engolido pelo dinheiro. Em seguida, foi engolido pela máquina de propaganda própria. Caiu no auto-engano. Mujica não é tão diferente. A esquerda – exceto Obama – às vezes demorara em raciocinar quando está no governo. A sorte de Mujica é que o seu serviço foi o de administrar o pequeno Uruguai. Em uma administração maior, envolvida nas máquinas de propaganda e dinheiro da política atual, feita em escala gigante, Mujica poderia perder o pé. Eu creio que ele sabe bem disso. Propaganda a favor é um perigo maior que análise contrária. É difícil para nós lermos o que nos desagrada. E quando pagamos para pessoas escrever o que nos agrada, logo no convencemos que estamos pagando por boas análises isentas. A esquerda nossa cometeu esse erro. Funcionou como o General Médici, que impunha terrível censura à imprensa e, então, comentava o jornal da noite na TV dizendo algo próximo disso: “o mundo tem ódios, movimentos, greves, e fico feliz de ver o Brasil progredindo e em paz”.

Talvez a nossa esquerda tenha vivido muito tempo durante a ditadura e só aprendido a fazer política olhando os generais.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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11 Responses “Mujica no Brasil e a saudade do futuro”

  1. Matheus Kortz
    30/08/2015 at 14:38

    Santo deus, nao podem haver tantos leitores desse blog caindo nessas ondas de esquerda é isso direita é aquilo e ponto final. Ou podem?

  2. Pedro de Faria
    29/08/2015 at 23:16

    Há figuras interessantes neste mundo!

  3. José
    29/08/2015 at 20:21

    O PT fracassou na tentativa de implementar o comunismo com o Foro de São Paulo e agora não sabe bem para onde ir, está sem força.

    • 29/08/2015 at 22:13

      José quando a identidade aqui não é posta, em foto, então o próprio site reserva como identidade um burrinho, que é para casos como o seu, de olavete. Olavete jumentinha, o que é pleonasmo.

    • Patty Farias
      29/08/2015 at 23:23

      Nossa, q bug, Paulo, até eu estou aparecendo em forma de mulinha jajaja! Mas adorei a ideia!

    • Patty Farias
      29/08/2015 at 23:31

      Adorei a ideia, Paulo, mas tá bugado isso aqui!

    • 31/08/2015 at 13:06

      Patty, para mim não, você tá gostosa e não tá mula.

  4. Jorge
    28/08/2015 at 21:24

    Apesar de tudo, temos que ser otimista quanto ao Home, portanto, quanto ao futuro. Esquerda ou direita, a utopia de um mundo melhor continua!

  5. Jose Luiz Aguiari
    28/08/2015 at 13:27

    PT um governo que distribuiu miséria e pobreza com 12 anos de mentiras fazendo seu curral eleitoral…

    • 28/08/2015 at 16:48

      Não meu caro. Cresça, tente.

  6. Bruno Zoca
    28/08/2015 at 13:08

    A esquerda virou um negócio tão chato que esses jargões que eles repetem igual papagaio de três ou quatro palavras – Globo, PSDB, Imprensa Golpista, Alienado, acaba irritando qualquer tentativa de conversa sobre a atualidade política. Na verdade o PT já deu no que tinha que dar, foi só mais uma onda que se inflamou e a agora está passando e deixando o lixo trazido com ela, igual aos demais partidos.

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