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26/03/2017

Modernidade, pós-modernidade e pós-pós-modernidade.


“Pouco importa que a astúcia e o artifício sejam conhecidos de todos, se o sucesso está assegurado e o efeito é sempre irresistível” – Baudelaire, no “Elogio à maquiagem” (1)

A modernidade se define pela “sociedade do trabalho” e pela “subjetivação do mundo”. A pós-modernidade se define pelo “fim das energias utópicas da sociedade do trabalho” e pelo “fim do sujeito”. Nossa situação pós-pós-modernidade se apresenta como a “sociedade da leveza” e pelas tentativas de novas narrativas ontológicas.

Modernidade

A “sociedade do trabalho” tinha duas grandes características: o trabalho era o fato de condicionamento temporal e espacial do homem e, ao mesmo tempo, a instauração de uma nova ética, a da valorização do “trabalhador”. Quase toda a sociologia clássica se fez na análise desse tipo de modo de vida. Marx falou da força de trabalho como mercadoria – a única mercadoria do trabalhador. Durkheim falou da ética moderna como uma ética dada pela divisão social do trabalho – uma divisão que traria a “sociedade orgânica” como superior e superadora da “sociedade mecânica”. Weber falou de como o próprio trabalho se uniu a um tipo de religião para seu autoprivilegiar nos seus aspectos de empreendimento e risco, dentro de um quadro de racionalidade dada pelo “desencantamento do mundo”.

A “subjetivação do mundo” foi bem caracterizada por Heidegger, ao mostrar como que a época de Descartes e Kant puderam institucionalizar uma “metafísica da subjetividade”. O sujeito desprendeu-se da sua condição de base gramatical para se aglutinar ao homem e, então, assim tornou este o próprio “mundo”.  Tudo é subjetivado e humanizado e, então, o mundo deixa de ser mundo para ser uma “representação do mundo”, e o que é objetivo se faz efetivamente objetivo se considerado pelo homem. O humanismo é a doutrina chave dessa situação. Nesse âmbito, a verdade deixa de ser fruto do desvelar para se tornar algo do âmbito da certeza – ou seja, ela também se subjetiva. Repõem-se aí, então, os problemas do ceticismo.

Pós-modernidade

A pós-modernidade se instaura como o fim das filosofias políticas inspiradas no liberalismo, nazismo, comunismo e social democracia, ou seja, todas as doutrinas baseadas em alguma utopia da “sociedade do trabalho”. Ainda que o trabalho se mantenha como fato inerente à vida, ele não dá mais o horizonte de felicidade ou, mais modestamente, o que se precisa e se quer para ficar satisfeito. Nenhum regime político nele inspirado conquista as pessoas.

Por sua vez, na pós-modernidade as teses modernas de Darwin se mostram mais presentes, e os escolarizados tomam com naturalidade o elo entre não-consciência e consciência levado a cabo pela ideia de que somos parentes dos seres brutos. A consciência, então núcleo do sujeito, deixa de nos fazer próximos de deuses e nos devolve à Terra.  Marx e Freud dão bases para se falar em ideologia e inconsciente como que dominando o ego enquanto sujeito.  Nietzsche fala constra a falar a substancialização do sujeito, tanto quanto proprietário de pensamento quanto de vontade. Wittgenstein desconfia do eu à medida que desconfia da linguagem privada, no que é ajudado por Quine na sua tese conta o “mito do museu” e nas correspondentes assunções a respeito a inescrutabilidade da referência e intradutibilidade dos enunciados.  Assim, a própria “metafísica da subjetividade” se esvai e com ela o resto do Humanismo, a metanarrativa moderna par excellence. Surge uma porta aberta para o fim das metanarrativas, como ensina Lyotard. Ou seja: deixa de valer as grandes explicações ou as filosofias que dão legitimidade às narrativas das ciências, da política e dos parâmetros ético-morais. Instaura-se descrédito de todo e qualquer discurso que, do ponto de vista do Humanismo ou algo parecido, possa ainda desejar dar fundamentos últimos para narrativas do fazer cotidiano. A noção de verdade é desinflacionada de qualquer metafísica, especialmente a partir da escada de Ramsey. Davidson anuncia a noção de verdade como conceito primitivo, algo que não explicamos, mas que apenas utilizamos para que a linguagem funcione. O pragmatismo ganha força na explicação da linguagem e consciência.

Pós-pós-modernidade

Mas a nossa conversa não acaba aí, na pós-modernidade. Uma situação pós-pós-moderna há de ser considerada. Nela, vale a sociedade da abundância (Galbraith) ou, de modo filosófico, a “sociedade da leveza”, como nos mostra Peter Sloterdijk. Menor jornada de trabalho, desprendimento da mulher das relações com a natureza, juvenilização de toda a humanidade tornam o lúdico o elemento central da sociedade, em várias formas, inclusive a do consumo, a da prática da comunicação solta (Internet ), da transformação do trabalho em jogo e vice-versa.

Surge aí a “insustentável leveza do ser”. O mundo parece perder realidade por perder seriedade, então, práticas não sérias são tornadas sérias, a necessidade que desaparece diante da liberdade é reintroduzida a bel prazer como o que “seria o necessário”. A subjetividade então reaparece como um polo com algum contorno, mas agora dominada, por um lado, pela liberdade que não é mais possível de ser definida como “a consciência da necessidade”, como ensinaram Hegel e Marx, mas a possibilidade de decidir qual necessidade inventar. O sujeito, nesse afã, não deixa de ter uma autonomia estranha. Trata-se de uma autonomia que lhe rende a capacidade de escolher quem vai lhe enganar. Empobrecido pela ausência de uma Paideia ou Bildung, ele se vê obrigado a recorrer a consultores – estes, por sua vez, fingem ter formação suficiente para tornar os sujeitos em sujeitos, dando-lhes instrução e justificativa para ações a partir de manuais superficiais tirados da literatura de auto-ajuda, filósofos catastrofistas, contadores de piadas de mau gosto, personal trainings e lojas de cursinhos que aparentemente substituem a universidade. Por outro lado, há a reação a essa leveza:  surge a subjetividade dada por religiões fundamentalistas (e até terrorismo) que chamam de volta os Ícaros que querem voar longe; avisa-os da opção melhor, que é a de ficar no sério, obedecendo a gravidade e deixando a leveza de lado. No campo da verdade o perspectivismo se instaura nas melhores cabeças, nas piores tudo gira no falso conceito jornalístico de que a verdade tem dois lados ou, então, na contestação à leveza, que a verdade absoluta tem de voltar à praça.

Os teóricos enfrentam tudo isso por meio de uma noção saudável de relativismo, posta pela ironista perspectivista de Rorty, a historicização filosófica de Foucault, o desconstrucionismo dos textos de Derrida, na ironia máxima de Luhmann e, enfim, uma reontologização não pesada de Sloterdijk, que escapa da Internacional Miserabilista e recupera as noções de thymos para uma psicologia política. São caminhos do trânsito do pós-moderno para a situação nossa atual, na busca de fazer filosofia quando toda a filosofia acabou.

(1) Baudelaire, C. Sobre a modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011, p. 64.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, é filósofo e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. É diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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15 Responses “Modernidade, pós-modernidade e pós-pós-modernidade.”

  1. reynaldo carvalho
    18/01/2017 at 10:08

    Obrigado pela resposta. Vou priorizar as outras perguntas: há desenvolvimento teórico consistente sobre a pós-pós-modernidade? Sloterdijk e a “sociedade da leveza” são seus representantes mais icônicos? Quais as tentativas de novas narrativas ontológicas dessa época pós-pós-moderna dignas de menção?

    • 18/01/2017 at 12:26

      Poucos falam, hoje, em pós-modernismo. Usei esse termo, mas não ficou bom. Há inúmeras tendências hoje que tentam descrever nossa época contemporânea. A filosofia contemporânea não faz outra coisa: Foucault, Derrida, Sennett, Renault, Rorty, Derrida, Putnam, Davidson, Lipovetsky, Thomas Macho, Sloterdijk, e inúmero outros professores que não traduzimos.

  2. reynaldo carvalho
    17/01/2017 at 13:00

    Paulo, parabéns pelo texto. Um ano depois de sua última resposta, pergunto: houve desenvolvimento teórico consistente sobre a pós-pós-modernidade? Sloterdijk e a “sociedade da leveza” ainda são seus representantes mais icônicos? Quais as tentativas de novas narrativas ontológicas dessa época pós-pós dignas de menção? O golpe brasileiro e o incremento mundial do fascismo mudam algo em sua análise de 2015?

    • 18/01/2017 at 08:26

      Carvalho “golpe brasileiro”? Não vai me dizer que lendo meus textos ainda é da turminha do “é gópi”?

  3. Cléberton Luiz
    29/11/2015 at 19:29

    Ótimo texto! Tenho pensado nisso a um tempo. Será que estamos evaporando? Isso é, depois de conceitos como “modernidade líquida” de Bauman, a leveza do “pós-pós” parece indicar o fim da liquidez e, talvez, uma metáfora do ar? Da solidez moderna à leveza contemporânea, o que virá a seguir?

    • 29/11/2015 at 21:46

      Cléberton Luiz! Nada a ver o que eu teorizo com Baumann. Ele é o cliché do cliché. Sociedade da leveza, eu indico bem o que é no meu texto, e sua derivação é Sloterdijk/Luhmann. Sociologia barata do Baumann, que nem é sociologia, apenas ideologia barata – tô fora.

    • Cléberton Luiz
      29/11/2015 at 22:33

      Li alguns textos seus sobre Sloterdjik e achei muito interessantes, sobre o homem como designer de interiores, mas nunca li nada propriamente dele. Se for pertinente gostaria de pedir alguma indicação para uma leitura inicial dele – vi algo sobre o “Crítica da razão cínica” , mas não sei se seria indicado para iniciantes. Desde já agradeço – e quanto a Bauman, deixemos ele de lado então!

    • 29/11/2015 at 22:36

      Cléberton nós temos o CEFA, participe do encontro de 21-24 de janeiro. Fale com a FRan, é sobre Sloterdijk. No momento temos tido hangouts todo domingo 19 horas usando o VSEE. Depois, entre nessa comunidade para ver o que estamos lendo: https://www.facebook.com/groups/cefa.ghiraldelli/

    • Cléberton Luiz
      29/11/2015 at 23:02

      Valeu! Obrigado.

  4. Vinicius
    29/11/2015 at 19:07

    Achei o uso da palavra “sociedade da leveza” bem interessante. É o que tenho percebido ao meio jovem em que vivo, em que uma há certa dinamização nas relações sociais, linguagem corporal e falada solta e desprendida, e muitas vezes com certo espírito empreendedor e criativo. É uma geração tecnológica, também. Ela pode não ter a melhor a formação humanística, o que muitas vezes falta esse complemento, mas para soluções práticas e imediatas, ela é esperta. Pelos menos essa é a observação que eu faço do meio na qual eu convivo. Em relação à critica da sociedade atual, como a massificação do consumo, e afins, elas também não perdem a sua validade e suas implicações, e são assuntos pelo menos relacionados a temas atuais. Alguns textos de revista de filosofia usam até um certo tom de dramaticidade, mas é uma outra perspectiva de enxergar o contexto. O interessante é gerar o debate, e por que não reaver os conceitos, experimentar novos pensamentos. Nessa parte, vc consegue explorar bem.

    • 29/11/2015 at 19:12

      Vinícius o termo é de Sloterdijk, e inclui no conjunto do movimento antigravitacional como um todo, desde o começo dos lançamentos de balões.

  5. Eduardo
    29/11/2015 at 17:16

    Paulo, mais uma vez um texto excelente, uma reflexão de alto nível. Gostaria de perguntar o que você acha do conceito de hipermodernidade do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Muito do que ele escreve também se encaixa no que você comentou sobre a pós-pós-modernidade.

    Outra questão que gostaria de colocar é sua visão sobre Bauman. Já vi você criticá-lo bastante no facebook e aproveitando o tema do texto gostaria de entender o porquê. Sei que você parte da análise filosófica, então a minha questão é: a partir dessa ótica da Filosofia o que torna Bauman tão condenável?

    • 29/11/2015 at 17:28

      Eduardo, o Lipo não faz um quadro que me agrade, prefiro o meu. Sobre o Baumann ele é fraco, é só jargão e cliché. E pior, agora virou cópia de si mesmo.

    • Victor Hugo
      05/12/2015 at 22:53

      Paulo, e a aqueles marxistas que não acreditam na existência da pós-modernidade, o que vc diria para rebatê-los?

    • 05/12/2015 at 23:15

      Hugo, “pós-modernidade” pode ser descrita como modernidade tardia. As descrições são variadas. Agora, marxista ou não marxista, quando não consegue fazer descrições variadas sobre o que se está vivendo, aí a questão é de burrice mesmo, não tem como lidar com gente assim.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo