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20/11/2017

Meninas, PUC, Jânio e Mário Sérgio Cortella – como tudo era gostoso!


Eram cinco meninas da PUC, uma mais lindinha que a outra. Brincos e balangandãs. Cabelos encaracolados e soltos adornando seios nascedouros sustentados por coxas salientes e à mostra. Não tinham tatuagens. Não precisam e não era ainda moda. Como todo mundo naquela época era hétero, inclusive os gays, elas faziam sucesso. E a missão naquele dia prometia demais: sair pela Monte Alegre entrevistando taxista, pipoqueiro e dono de bares e livrarias para saber se iriam votar em Jânio, FHC ou Suplicy para prefeito de São Paulo. Foi o ano de 1985. Disputava-se a eleição da capital como se fosse uma eleição para presidente da República.

Jânio queimava livro “comunista” e chamava o “professor Fernando Henrique” de candidato “maconheiro” e “melancia” – verde por fora e vermelho por dentro. FHC fazia o discurso como se fosse o Norberto Bobbio brasileiro. Posava de vencedor. O sempre meio atrapalhado Suplicy carregava o futuro nas costas – ele encarnava nitidamente o que estava por vir. Mas encantava as meninas que preenchiam floridamente o PT e, enfim, perdiam suas virgindades em convenções do partido que tinham pouca diferença das reuniões da UNE. Sim, não se espantem, naquela época a classe média católica e branca ainda perdia a virgindade na faculdade, não no ensino fundamental.

Elas, as cinco garotas, completaram a pesquisa também perguntando para algumas pessoas dentro da PUC, e não esqueceram de manter o “recorte” usado na parte exterior do prédio. Por isso, entrevistaram não só os do lado de fora do balcão, ou seja, nós, os professores e alunos. Foram também ver os que não tinham a nossa cor, do lado de dentro do balcão. Voltarem felizes para o curso de origem: História. Pesquisa pronta, Jânio derrotado por Suplicy. FHC num triste segundo lugar. O professor lhes deu 10. Eram um doce.

Após medir por mais de oito vezes as meninas da cabeça aos pés, para apreciar aquela paisagem de Deus, resolvi refazer o trajeto delas, conversando com algumas pessoas que notei que elas haviam entrevistado. Pipoqueiro janista, dono de bar janista, até livreiro janista e, então, taxistas, claro que eram todos janistas, do mesmo modo que sempre foram todos malufistas. Sentado no bar em frente à PUC, ali na Ministro de Godoy, pude conversar mais longamente com alguns que passaram pela enquete das garotas. Papo de homem. Eles confessaram abertamente: “você acha mesmo que eu iria dizer que voto no Jânio, para aquela piteuzinho?” Naquela época os conservadores tinham vergonha na cara. Para que tirar  o sorriso do rosto daquelas garotas com seios novinhos e tão generosos? Universitárias! O paraíso dos olhos de marmanjos.

A diferença entre 1985 e hoje é que um bolsonarista, se entrevistado, não só diz que é bolsonarista como pode agredir uma bela moça da PUC. Há um sabor de misoginia e homossexualidade enrustida, algo que transita entre o tosco e o homofóbico, algo que faz com que seja Frota, e não mais Boris Casoy, o adversário da menina de esquerda da PUC. Isso se não pegarmos hoje, na própria PUC, garotas bolsonaristas iguais aos taxistas de 1985.

Ser tosco e fracassado não causa mais vergonha. Querer matar homossexuais, pisar em mulheres e aplaudir os herdeiros dos invasores da PUC não causa mais nenhum constrangimento. O neofascismo saiu do bueiro para a Internet e desta voltou às ruas. A patuleia perdeu o comedimento à medida que conseguiu, pela Internet, acesso aos intelectuais, aos notáveis, aos de sucesso no mundo intelectual, e conseguiu por esse meio xingá-los e se fazer notar. Nenhum Caetano Veloso iria processar um Paulo Francis, no memorável embate que tiveram pelo jornal, que obrigou até o dono da Folha a entrar no meio. Mas agora, um Caetano Veloso, do alto de sua memorável obra, o maior poeta vivo do Brasil, precisa processar moleques do MBL e um completo Zé Ninguém chamado Frota. A direita tosca é capaz até de ter porta voz. Astrólogo repetente, mas que faz a direita achar que ela conseguirá, um dia, ler um livro. O neofascismo não tem mais vergonha de seu rosto. Ergue o título de fracassado, desempregado, desescolarizado, tudo com o aval dos desescolarizados que alcançaram a Internet para posarem de intelectuais, mesmo que jamais encontremos o curriculo Lattes deles.

A selvageria da direita se ampliou à medida que a esquerda foi decepcionando a todos. Em 1985 Lula se esforçava para falar corretamente. Hoje, Lula fala errado propositalmente, para se fazer próximo do povo. Em 1985 Lula era o homem mais honesto do Brasil para as meninas da PUC. Hoje ele diz que é o homem mais honesto do Brasil, mas nenhuma menina da PUC acredita, só algumas mulheres que, enfim, não tem mais nada no que acreditar. Essa deterioração da esquerda, feita de forma “lenta, gradual e segura”, nos trouxe até os dias hoje. Naquela época o Mario Sérgio Cortella, meu amigo, era pobre e professor. Hoje ele é um palestrante de sucesso, e rico. O único petista que enriqueceu honestamente. Serve como ícone para que não possamos xingar todos. O próprio sucesso do Mário Sérgio indica a mudança de tempos: sem dúvida ele tem méritos pessoais e nunca duvidamos de sua capacidade inaudita de falar publicamente, mas o fato dele ter ido para o mercado de trabalho que foi mostra o quanto tudo mudou, o quanto a cultura foi se mercadorizando nesses trinta anos, e o quanto a própria Livraria Cultura se transformou num shopping de criança. Essa democratização do saber não era a “socialização dos conteúdos escolares” que queríamos, na nossa ingenuidade própria de professores que, de certo modo, tinham a mesma cabecinha das garotas gostosas de 1985 da Universidade Católica de São Paulo.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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10 Responses “Meninas, PUC, Jânio e Mário Sérgio Cortella – como tudo era gostoso!”

  1. Mestine
    25/10/2017 at 19:04

    Ghiraldelli não se entregou a nada desde que o sigo. Por isso a maioria nao sabe se ele “é” direita ou esquerda. Mete o cacete pra tudo quanto eh lado quando precisa. Nao perdoa nem os amigos…. e é bonito de se ver que, mesmo quando isso se mostra necessario, sabe manter o respeito e o carinho por eles. E vejo a reciprocidade do nobre Cortella que sempre o cita com respeito e admiração.

    Parabéns Guiraldelli. E obrigado por continuar a ser sempre e apenas um filósofo.

  2. Thiago
    25/10/2017 at 16:46

    Paulo, qual é sua real visão sobre direita? Pergunto isso porque te acompanho desde 2008 e você sempre coloca a direita de forma negativa. Não há ponto positivo algum? Somente a esquerda tem méritos?

    • 25/10/2017 at 17:41
    • Matheus
      25/10/2017 at 17:43

      Acho que a questão não é quem tem mais méritos ou não, hj em dia, no BR não temos bons exemplos de lugar nenhum, mas na direita sempre será muito mais difícil de ter, isso pq como o Paulo já explicou em outros textos a direita defende hierarquias (de raça, gênero, linhagem, dinheiro ou de qlqr outra ordem) aí fica difícil defender a direita ou querer ser direita…

      Não à toa hj muitos “libertarios” não se dizem de direita, nem de centro, nem de esquerda (por razões óbvias) mas lá no fundo, msm que inconscientemente eles defendem a manutenção das hierarquias das grandes fortunas e heranças – nunca se dão ao trabalho de se quer querer desmentir isso. Tratam isso abertamente na caridade,então não, não resta ngm com “méritos” na direita, diria eu.

    • 25/10/2017 at 17:45

      Sim,Matheus, o problema da direita é que a hierarquia, vista como um bem por todos nós, na direita se transforma facilmente em hierarquia por raça, e aí a direita encaminha para o seu extremismo xenofóbico. Esse tem sido o maior problema da direita.

  3. LMC
    25/10/2017 at 15:51

    O Caetano não processou o Francis
    porque o Francis era pura perda de
    tempo.Além do Cortella,outro petista
    que enriqueceu honestamente é o
    Chico Buarque.

    • 25/10/2017 at 17:38

      LMC, acorda, Chico Buarque não é petista. Jamais foi. Chico é partidãO. E sempre foi rico.

  4. Rafa
    25/10/2017 at 09:45

    E a PUC continua uma belezinha de se passear

  5. Tony Bocão
    24/10/2017 at 15:46

    Acredito que o resultado eleitoral estabelece sobre duas bandas, pessoas que querem as coisas como estão, ou pessoas que querem a mudança, ganha quem capta isso. por isso que estou convencido que haverá uma expressividade de votos de Dória e Bolsonaro, por refletir uma combinação da histórica falta de escola e desejo de mudança “sem dor”, claro, eles prometem soluções fáceis, chumbo quente pra que deve, gestão empresarial, etc… Sendo assim, minha preocupação aumenta a cada dia, por perdermos qualquer possibilidade de diálogo. A escola trumpiana de fakenews, recém adotada pela prefeitura de sp é uma amostra assustadora deste efeito.

    • assis
      24/10/2017 at 20:01

      bate na madeira!!

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