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22/09/2017

“Medíocres do mundo, univos”


O Nacional Socialismo queria uma sociedade hierarquizada, meritocrática e de forte tônus nacionalista. A ideia de democracia na Alemanha era jovem demais. A falta de experiência histórica da prática liberal democrática era um fato, e a bancarrota moral e econômica mais que um fato. Não foi difícil, nessa situação, ver muitas pessoas razoáveis cedendo ao nazismo, tomando-o como algo bom.  Mas haviam outros componentes um tanto sorumbáticos na doutrina.

A questão das minorias! As coisas foram de mal a pior nesse quesito. Falava-se em “raça pura”. Judeus, homossexuais, ciganos, aleijados foram postos para escanteio. Depois foram as pessoas que “cultivavam a decadência”, e nisso músicos, pintores, atores, intelectuais de toda ordem também foram banidos. Enfim, o gosto por uma ciência “desinteressada” ou “interessada demais”, nesse segundo caso, “os comunistas”, vieram a ser transformados em “inimigos da pátria”. Assim, os cientistas foram também declarados culpados de algum pecado original. Favoreciam o velho regime, a decadência e o … capitalismo dos ricos! O capitalismo tinha de ser do Estado. Não demorou para Hitler já não ter muita gente inteligente ao seu redor.

A situação se tornou tão ridícula que o Estado passou a selecionar moças para atividade da prostituição. Era necessária uma raça ariana de prostitutas! Instaurou-se em várias cidades uma triagem nazista sobre a atividade imoral!

Não podendo recrutar quadros para o partido e para o estado em todos os grupos que até então davam para a Alemanha seu esplendor, Hitler e sua trupe recrutaram pessoas iguais a eles, os medíocres do mundo. Em pouco tempo a ideia de “hierarquia do mérito” perdeu o sentido, pois o mérito virou aquilo que todos, exceto Hitler e asseclas, chamariam de demérito. A ordem verticalizante de instituiu, sim, mas por meio de um hierarquia da bajulação, ressentimento e capacidade de não discutir. Mandavam os que Hitler mandava mandar, e obedeciam os que estavam na hierarquia, e com discernimento cada vez menor. O restante era “desobediente”, e logo afastado e no limite, eliminado fisicamente. O clima de terror e de delação para subir na hierarquia se disseminou junto da decadência moral que logo assenhorou as ditas “tropas de elite” e mesmo a cúpula mais próxima de Hitler. A ideia de juventude capaz de agir primeiro e pensar depois, virou a regra. Juízes, professores e generais foram substituídos. Instaurou-se uma espécie de justiça realmente cega. Cega em relação à razão. A mágoa pessoal de Hitler e de seus asseclas se espraiou como um vírus fácil pela Alemanha toda.

Já nos primeiros anos no poder, o Partido Nazista não tardou em, cada vez mais, se transformar no maior imã europeu da mediocridade. O sucesso inicial na Guerra escondeu isso. Mas quem tomou nota, naquela época, do tipo de gente que estava ganhando lugares chaves na hierarquia partidária, que então se confundia com a burocracia estatal à medida que o pluripartidarismo havia sido eliminado, deixou para a história uma impressão avassaladora: era como se Hitler houvesse declarado “medíocres do mundo, uni-vos”. O arremedo de socialismo podia dizer isso – efetivamente isso! Pessoas que viveram no enfrentamento dessa situação – bem exemplificada no filme Uma mulher contra Hitler -, e que tomaram nota de tudo, não se espantaram quando, bem mais tarde, diante de Eichmann, Hannah Arendt viu no grande criminoso apenas um funcionário estúpido afeito a clichés, incapaz de ser proprietário de uma consciência moral. As pessoas que enfrentaram os tribunais de juízes já alinhados ao regime hitlerista, toparam com magistrados sem qualquer autonomia,  e tais observadores deixaram notas para a história a respeito de situações que poderiam ser vistas como engraçadas, caso a burrice ali presente não tivesse sendo a estupidez da porta do inferno, e sim apenas um teatro.

Hitler caminhou da ideia de “socialização” articulada ao mérito para a ideia da estatização-nacionalização articulada ao demérito. Nisso, ficou no lado oposto dos ideais de socialismo e de liberalismo. Criou um novo elemento da política, a chamada extrema-direita. Tudo isso estava associada a uma concepção da história simplória, a do apogeu e declínio de impérios. Por isso, quando provocou a Guerra Mundial, Hitler não esperava vencer, mas sim instaurar o combate permanente, até que tudo funcionasse num auge de vitórias e em seguida, com a paz ou não, viesse o declínio. A ideia básica de uma legião como a Romana, em constante movimento, era o que entendia como paz. Assim se fez, ainda que num prazo bem mais curto do que aquele que ele esperava. Foram cinco anos de destruição do mundo, e então uma família teve de trocar de nome, a família Hitler, pois não havia mais espaço na Terra para os inventores do Mal, para os que consagraram a subserviência e a estupidez mental como regra.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 07/12/2016

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3 Responses ““Medíocres do mundo, univos””

  1. Eduardo Rocha
    09/05/2017 at 01:45

    Muito esclarecedor. Youtubers discordarão. Você já leu Maus: a historia de um sobrevivente de Art Spiegelman? Apesar dos traços bem simples vale à pena.

  2. Luciano
    07/12/2016 at 14:24

    Ótimo texto, Paulo. Eu gostaria de entender porque Olavo de Carvalho diz que o nazismo era de esquerda. Hitler sempre odiou a social-democracia e o comunismo. Nunca teve simpatia nenhuma por movimentos de esquerda, muito pelo contrário, era alinhado com grupos de direita nacionalistas e virou o principal discursador deles nas cervejarias de Munique até se tornar o grande líder. E com discursos sempre cheios de ódio contra os judeus e soviéticos.

    • 07/12/2016 at 16:42

      Olavo fez só a terceira série, não conseguiu terminar o ensino fundamental, troca tudo que vê e lê. Ele é visto como de extrema direita, então, inventou uma desculpa para não ser tomado como hitleriano. É um bobo.

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