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24/08/2017

Luta de classes?


O Brasil sem escola, sem esperança

Quando saímos da ditadura do Estado Novo, em 1945, a ideia básica dos intelectuais liberais e de esquerda era a de que a escola pública, obrigatória, laica, gratuita e de boa qualidade seria o elemento chave para a melhoria da equalização social. Até mesmo os liberais conservadores participavam dessa ideia, chegando ao extremo de defender uma escola única para todos. Pensar em pagar mal um professor do ensino médio era alguma coisa que ninguém imaginava que poderia ocorrer. Ninguém conseguia pensar em um Brasil melhor com o professor das crianças e jovens tendo menos prestígio social que o juiz, o prefeito, o padre e outras autoridades da cidade.

Quando saímos da ditadura do Regime Militar, em 1985, a ideia básica dos intelectuais liberais e de esquerda já não era mais a mesma. Os liberais falavam que um Brasil melhor ser faria pela educação. Os de esquerda diziam que sem distribuição de renda não se faria muita coisa. Chegou-se até a falar na educação como elemento de equalização social como um tipo de “ilusão liberal”.

Em geral, falava-se em recuperação salarial da categoria dos professores, mas muitos entendiam que o professorado havia se proletarizado e que as coisas, para melhorarem, iriam depender de luta sindical e política de um modo mais acirrado que no passado. No entanto, as esperanças na recuperação da escola pública, obrigatória, laica e de boa qualidade não estavam mortas. Mais cedo ou mais tarde teria de vir uma nova Constituinte e dela se tiraria uma Carta Magna e, para a educação, a proposta de uma nova LDBN.

Agora, beirando trinta anos do fim do Regime Militar, (quase) tudo que os intelectuais de esquerda pediram, se realizou. Há nova LDBN e já passamos por três governos democráticos, governados por pessoas da oposição ao Regime Militar de todo tipo: tivemos o intelectual uspiano por dois mandatos, tivemos o operário do ABC por dois mandatos e agora estamos vendo a guerrilheira, que talvez também passe para a história com dois mandatos.

Esses governos seguraram a inflação e diminuíram sensivelmente a pobreza. Um milagre? Sim, e nada parecido com o falso milagre de Delfim Neto e dos generais presidentes vindos do Golpe de 64. Todavia, estranhamente, há coisas que ocorrem no Brasil que às vezes parecem anular o que se obteve de bom.

Nenhum desses três últimos governos, que ao todo perfazem nada menos que vinte anos, conseguiu fazer com que o capitalismo não seguisse sua marcha inexorável de deterioração da escola pública e de achatamento salarial da categoria do magistério. Essa marcha se fez em todo o Ocidente, mas sempre mais ou menos segurada pela força das rédeas de governos social-democratas ou simplesmente liberais. No Brasil, não conseguimos isso.

filósofos 6Estamos agora colhendo os frutos – obviamente podres – dessa desgraça parcial. Temos mais pessoas aptas ao consumo e, ao mesmo tempo, distante da posse de instrumentos intelectuais que poderiam lhes dar condições para a atenuação de preconceitos de todo tipo. Escrevendo corretamente, lendo melhor, calculando eficazmente, com mais consciência de cidadania, os pobres que começaram a poder marcar rolezinhos, teriam por si mesmos capacidade de falar aos donos de shoppings: “olha, eu sou tão brasileiro quanto você, e agora tenho algum dinheiro, não precisa me empurrar para fora daqui, eu não sou um estúpido”. Ao mesmo tempo, uma boa parte da classe média tradicional, que agora já foi atingida pela baixa educacional, teria condições de entender esse discurso antes mesmo de pronunciado. Esse tipo de coisa ocorreu em outros países. Aqui não.

Aqui no Brasil o professor perdeu prestígio financeiro e, depois, moral. Agora, perde capacidade intelectual. Nossos últimos governantes vieram do campo da esquerda ou de centro-esquerda, mas eles não conseguiram nos dar de volta a esperança de 1945. Deveríamos então, quanto a isso, confiar no que dizem os intelectuais liberais conservadores? Piada de mau gosto. Estes, por sua vez, já também são fruto dessa deterioração educacional. Não vieram da escola pública que não funciona, mas passaram por uma escola particular que, sem concorrente, não conseguiu fazer o que a escola pública dos anos cinquenta e sessenta fez. A maioria está na condição dos proprietários ricos preconceituosos, os que chamam a polícia diante de rolezinhos. Alguns até sabem escrever, mas sabem pensar tão mal quanto os garotos que eles dizem odiar porque gostam de funk.

No Brasil não temos luta de classes, temos imbecilização de classes.

© 2014 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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22 Responses “Luta de classes?”

  1. noNato
    23/01/2014 at 17:21

    Engraçado foi o bate-boca do Batman com o tiozinho no Leblon rsrs.

    Você acredita que possa estar havendo rixa(não luta propriamente dita) de classes dentro da própria classe média como um todo, professor? Por que o governo finge não vê os problemas resultantes de seus próprios atos?

    • 23/01/2014 at 18:53

      noNato, eu não trabalho com as noções de classes e luta de classes ou similares. Eu trabalho com o que acho apropriado ao momento. Falei sobre o assunto de “classes” no Hora da Coruja último, dos rolezinnhos, junto com a Esther.

  2. anderson bezerra
    22/01/2014 at 11:51

    Reflexivo seu artigo professor. Tenho esperança viva que vamos voltar a ter excelentes escolas públicas como nas décadas de 50/60. Não há outro caminho, é pela emancipação educacional que vamos superar todas as formas de exclusão. E a revolução do indivíduo será inevitável. E as classes imbecis que historicamente detém o poder econômico, serão obrigadas a (re)pensar sua posição frente ao avanço das camadas populares. Afinal, como diz ZIzek: ” não é que tudo se resuma a luta de classes, mas a luta de classes está presente em tudo.”

    • 22/01/2014 at 13:39

      Anderson Bezerra, luta de classes é uma teoria, como toda teoria, é uma ficção útil. Não é necessário se aferrar a ela dessa maneira.

  3. José Samuel
    21/01/2014 at 19:16

    Não vão pagar melhor o professor por uma razão bem simples: isso não da voto.

    • 22/01/2014 at 08:07

      Samuel, daria voto sim. As razões são outras: no momento que vivemos a sociedade brasileira não vê a educação como elemento importante.

  4. Caçambão
    21/01/2014 at 13:46

    Eu sou à favor do Ensino Integral e de uma política generalizada de Tolerância Zero dentro das escolas. E vc???

    • 21/01/2014 at 14:27

      Caçambão, eu sou a favor do salário para o professor de modo a torná-lo alguém de classe média. Com isso, essas duas medidas suas vão se mostrar o que são.

    • F. R.
      21/01/2014 at 16:08

      Eu sou a favor de um ensino de qualidade, onde não vomitem em nossas crianças ideologias Comunistas desde seus 12/13 anos.

    • 21/01/2014 at 16:48

      F.R. Você sempre vem aqui falar alguma tolice. Essa é mais uma. A ideologia vomitada nas crianças é mais fácil ser a sua, essa que acredita que há ideologização em crianças de 12 anos. É mais fácil você ver pais dando cartazes para as crianças irem contra casamento gay e outras propostas de minorias do que a favor de socialismo. Pais de direita adoram fazer lavagem cerebral com crianças. Pais de esquerda, por mais dogmáticos que sejam, fazem menos isso. Pode reparar como a direita se preocupa em tomar conta de cabeça de criança. Olha o seu caso mesmo.

  5. Mario Luis
    20/01/2014 at 22:34

    “Temos mais pessoas aptas ao consumo e, ao mesmo tempo, distante da posse de instrumentos intelectuais que poderiam lhes dar condições para a atenuação de preconceitos de todo tipo.” Essa foi uma assertiva bastante sensata e que corresponde bem à atualidade. Assevero também, como complemento, que é possível estabelecer um quadro elucidativo a partir de dados socioeconômicos os quais demonstram o descompasso mencionado, quando superpostos à lacuna no preenchimento de vagas de alta qualificação, o desequilíbrio entre mão-de-obra especializada e a demanda por profissionais tais como engenheiros civis, químicos, navais, de computação, bem como médicos e afins. Pertenço a uma época em que não havia tantas oportunidades no mercado de trabalho, e o país poderia ser descrito como o país das “frentes de trabalho”. Ciclos econômicos inteiros estão relacionados a essas frentes, as quais tinham, na verdade, um caráter transitório. Há uma profunda relação entre a qualidade da formação acadêmica e as relações de oferta e procura no mercado, mas o fenômeno atual demonstra que isso não é uma regra…

    • 21/01/2014 at 02:05

      Mario Luis, eu sempre trabalho com perspectiva filosófica. Nada de sociologia.

  6. Ruy Mendes
    20/01/2014 at 18:00

    O mandato da “guerrilheira” termina esse ano, acho que dificilmente ela vai se reeleger pela grande insatisfação popular, aquela que levou o povo as ruas. As pessoas querem mudanças, não dá para um só partido ficar quase 20 anos no poder. Caso ela seja reeleita eles vão ficar lá quase o tempo de todos os governos do famigerado regime militar.

    Também acho que o capitalismo não pode ser culpado por tudo. Em outros países capitalistas a sociedade se mobiliza mais, a sociedade tem uma preocupação maior com a cultura, com a educação. O Brasil, mesmo antes do capitalismo ter esse vigor todo, já não valorizava a educação. O governo brasileiro arrecada muito, quase 1/3 do Pib da economia capitalista. Em outros países com muito menos os governos fazem muito mais. Existe um problema brasileiro no plano da cultura que impede certos avanços coletivos.

    • 20/01/2014 at 18:30

      Ruy, você não lê jornal mesmo heim? A Dilma é primeira no ibope contra QUALQUER CANDIDATO. Ela só perde se houver manifestação de rua na semana da eleição. Ou se um fato novo aparecer. Nessa toada, ela se elege. Ruy, Ruy …

    • Ruy Mendes
      20/01/2014 at 19:01

      Eu acho que vai ser mais difícil, de todo modo não temos mais oposição política forte no país. Então as pessoas mesmo insatisfeitas acabam escolhendo o mais do mesmo por comodismo, por falta de opções. etc.

      A Dilma também tem a máquina do Estado nas mãos, vc sabe que é difícil vencer alguém assim. Muito dinheiro dos capitalistas que estão nadando de braçadas no governo do PT, etc.

      Mas como eu acho que a insatisfação popular é grande, penso que pode surgir alguma surpresa e ela perder.

    • MARCELO CIOTI
      21/01/2014 at 15:47

      Também acho,Pedro,que a Dilma vai
      vencer em outubro.Mas,não será no
      primeiro turno,não.Ela não venceu
      na primeira vez em SP,no Sul e no
      Centro-Oeste.

  7. pedro
    20/01/2014 at 17:55

    nunca li tanta merda

    • 20/01/2014 at 18:33

      Não há merda aqui Pedro. É que você não sabe história da educação. Mas você leu sim muita merda, pois acho que você já pegou sua Certidão de Nascimento.

  8. Valdério
    20/01/2014 at 17:43

    Este texto, traduz a sensação que tive em algumas discussões via facebook com alguns colegas dos tempos de faculdade e com as notícias sobre os rolezinhos no Shopping. Não tive o privilégio de uma boa escola pública no ensino fundamental e médio (embora a escola atual seja ainda mais grotesca), mas tentei ao menos tirar a diferença o quanto pude. Conversar sobre qualquer assunto com pessoas que lembram integrantes de torcida organizada, seja pelo péssimo português, falta de conhecimento básico ou pelo posicionamento dogmático, irrita muito.

    • 20/01/2014 at 18:34

      Valdério, tirar a diferença individualmente é uma possível solução. Serve para alguns, não para todos. Não pode virar política educacional. Mas para quem serve, é sempre um ato de coragem.

    • Ruy Mendes
      21/01/2014 at 13:10

      Alguns tiram a diferença estudando sozinhos, temos vários exemplos de autoditadas. Entretanto, a pessoa tem que ter uma inteligência acima da média.

    • 21/01/2014 at 14:27

      Ruy, não existe autodidatismo em nada. Autodidatismo é fábrica de burro e louco.

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