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20/09/2019

Le Goff e a ditadura militar brasileira


Será que não precisamos de um Jacques Le Goff para abordar o período entre 1964-1985, de modo a começarmos a traçar um panorama menos “politizado” e, portanto, mais rico a respeito dessa fase de nossa história?

A chamada História Nova não é hoje nem nova e nem mais um movimento específico ou uma escola historiográfica. Cresceu e dilui-se em si mesma. No Brasil dos anos oitenta, Caio Graco, na então poderosa Editora Brasiliense criou a coleção “Tudo é história” – sucesso editorial tão grande quanto o êxito de sua parente mais velha, a coleção “Primeiros Passos”. O termo era apropriadamente legofiano, ou seja, algo de Jacques Le Goff (1924-2014) e da História Nova, e que já apontava para o que ocorreria com essa escola historiográfica pouco tempo depois. O movimento da História Nova era o protagonista do estilo historiográfico capaz de ver a possibilidade de historicizar qualquer coisa. Era o começo do fim, e ao mesmo tempo um recomeço.

Isso é tão verdade que hoje não mais sabemos dizer se “História Nova” tem a ver com a tendência em picar a história e temas diversos e com infinitos objetos, ou se se trata de uma narrativa voltada para a produção da “história de longa duração”, em especial a “história das mentalidades”. A História Nova acabou fazendo as duas coisas. Le Goff foi mestre nisso, na alternância, na capacidade de trabalhar com mentalidades e também com pequenas monografias temáticas (centrando atenção na Idade Média).

Faltou ao Brasil termos um Le Goff da Ditadura Militar.

Nossos historiadores reduziram a história do Golpe de 1964 a algo que a História Nova, ao menos nos seus passos iniciais, não queria mais que fosse a história. A história da política não era a história mais interessante – diziam vários dos historiadores do movimento da História Nova, e Le Goff esteve entre os que levaram isso muito a sério. No Brasil, tudo é político. Há uma politização de tudo. Nossos intelectuais são muito políticos e gostam de ver “esquerda” e “direita” até para padronizar atos sexuais ou comer pastel. Essa politização atinge os historiadores, que não raro são jornalistas, por que eles já são por si mesmos animais excessivamente politizados. Nesse sentido, nunca tivemos sobre o “tempo de 64” o que hoje mais necessitamos: historiadores capazes do ofício de Le Goff. Homens capazes de narrar “64 & Cia” alternando dois prismas, o das mentalidades e o dos casos cotidianos.

A história de “64 & Cia” tem a ver com uma quase longa criação de uma mentalidade interventor-mandonista, que vem da forma de nossa colonização, do caráter do bandeirantismo paulista e das lutas de fronteira no sul gaúcho. Essa mentalidade de intervenção no sentido da escravização do mais fraco, de desrespeito à dignidade de adversários, ficou clara na nossa participação na Guerra do Paraguai a na maneira como o Duque de Caxias “pacificou o país”, unificando-o durante a Regência por meio da mais cruel eliminação de revoltosos. Desses passos para o “tenentismo positivista” o pulo não foi tão longo quanto deveria ser para consideramos que, aqui, cabe falar de “mentalidade”. Todavia, em um certo sentido, sim. Nasceu disso uma mentalidade a respeito do militarismo brasileiro: são heróis que unificam a pátria e a salvam, pela força, quando ela, ou seja, os ricos, precisam. Mentalidade não é ideário racional, é mitologia e doutrina popular enraizada, capaz de mobilizar os corpos sem que a alma acredite estar sendo tocada, ainda que esteja, de fato, sendo comandada.

Mas há, junto disso, uma outra necessidade historiográfica, complementar, que como já disse é a produção de monografias do cotidiano não inteiramente político. “64 & Cia” teve um cotidiano. Ou melhor, teve vários!

Há muita gente, inclusive bons historiadores acadêmicos, que acreditam que se pode contar a história de “64 & Cia” como sendo a definitiva, ou quase isso. Não percebem que a história é montada por inúmeras narrativas horizontais, que podem e devem ser continuadas mesmo quando todos os arquivos abertos já sejam aos olhos de todos uma grande carne de vaca.

Bete Mendes em filme, Eles não usam Black Tie - A atriz foi torturada como subversiva, na vida real

Bete Mendes em filme, Eles não usam Black Tie – A atriz foi torturada como subversiva, na vida real

Entre 1964 e 1985 há a história da dona Maricota que ficou sabendo que houve um “regime militar” só depois que ela passou por todos os seus vinte e um anos, chegando então a 1985. Com a agonia de Tancredo, ela ouviu falar que estava se encerando um ciclo. Pois o que ocorreu é que ela não morava em capital, não viu passeata nenhuma, não leu jornal, e continuou exercendo o direito de voto para prefeito sua vida toda. Há também a história do diretor de escola que teve de fechar o grêmio, que ele achava útil até para o próprio regime militar. Há também a história do índio que escondeu um guerrilheiro e foi torturado e morto. Há a história do militante democrata que foi tomado como comunista e do comunista que era contra a “luta armada”, ambos morreram como qualquer um que estava na “luta armada”. Há a história dos que foram para o exílio. Há a história dos que nunca ficaram sabendo que houve exílio. Há a história dos que se esqueceram da história. Há a história do Maluf e a há a história de JK. Há a história das estripulias de Delfim Neto. Existe também a história do homossexual que sumiu, e que não foi por política, mas que o momento fez com que ninguém o procurasse. Temos a história do negro que foi punido enquanto negro, não por ser politizado, ao mesmo tempo em que o regime se curvava diante de Pelé. Há a história dos jogadores da “Seleção de 70” que pegaram os fuscas dado por Maluf, muitos ingenuamente. Há a história da mãe que viu seu filho bebê ser torturado. Há a história da família do militar que perdeu tudo porque não quis torturar. Há a história do cara que nunca fez nada contra a ditadura, nem sequer perdeu o emprego, e, terminada a ditadura, ganhou indenização. Há a história do roqueirinho que cismou de dizer que foi perseguido na ditadura, apenas para posar de “intelectual” de modo a transar com alguém da banda do Chico Buarque ou do Caetano ou algum baiano desse tipo.

Tudo isso são histórias da História do Período Militar. Infelizmente, historiadores politizados não sabem como agir diante disso, pois precisam contar essas pequenas histórias não como casos do cotidiano, mas como parte de uma história política em que todos estão vivendo “64 & Cia” como militantes, como gente envolvida com “manter o regime” ou “subverte-lo”. Le Goff ensinaria a não se fazer isso.

No dia em que a História Nova chegar a abordar nossa ditadura militar, que nem mesmo o cinema conseguiu fazer ainda, pois também politiza tudo e retira todas as pessoas do seu cotidiano comum, então poderemos começar a pensar na primeira compreensão sobre “64 & Cia”. Por enquanto temos apenas uivos e latidos no céu noturno. Cães e lobos podem produzir filosofia – isso é outra coisa. Mas esses uivos aí, não são nem de historiadores ou de filósofos. São uivos como aqueles da risada gravada na TV, a que nos diz quando é que é engraçado e quando é que devemos rir.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo, autor do recente A filosofia como crítica da Cultura (São Paulo: Editora Cortez, 2014

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20 Responses “Le Goff e a ditadura militar brasileira”

  1. José Silva
    12/09/2017 at 01:30

    Sempre leio seu blog e por acaso cai neste texto antigo. É delicioso ler textos não politizados, abertos para o pensar.
    Eu pesquiso a área da história da nossa música popular deste período, mais precisamente do período do AI – 5. Neste campo há muita politização, a memória musical acadêmica lembra dos grandes Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e afins, mais por sua afronta ao Regime do que a pelo valor das obras dentro da nossa música e do imaginário popular.
    Caetano Veloso, dentre os mais exaltados pela academia, sempre tem parte de sua obra que não é politizada, sendo abarcada a revelia para os movimentos políticos.
    Mas no campo historiográfico de nossa música popular há passos sendo dados para sairmos desta camisa de força. O historiador Paulo César de Araújo em 2002 lançou um livro sobre o movimento dos cantores cafonas, que estavam a margem de toda a movimentação política da época. No início do livro, o historiador questiona alguns cantores cafonas sobre onde estavam, ou o que lembravam sobre a decretação do AI – 5. Waldik Soriano confunde o AI – 5 com a tomada de poder pelos Militares, Odair José e Agnaldo Timóteo dizem que não se lembram, alegam que “não tinham tempo pra essas coisas de política, precisavam trabalhar”.
    Como vimos, a questão política ainda está enraigada, mesmo nesta obra que aborda o cafona, mas acho que é um passo, dentro de um tema da nossa história, para sair desta camisa de força.
    Abraços

  2. Victor Barbosa
    17/03/2015 at 03:01

    Olá Paulo Ghiraldelli, grande prazer estar formulando algumas dúvidas depois da leitura do seu texto.
    Bom…
    José Murilo de Carvalho em entrevista ao Roda Viva, disse temer o estudo da ditadura miliar por historiadores, pois seria uma especie de história do tempo presente. Ele não concorda com esse tipo de narrativa que diga-se de passagem é um procedimento que ganhou forma principalmente nos livros organizado por Le Goff e Pierre Nora.
    José Murilo de Carvalho faz uma analise interessante dizendo que há uma diferença entre história e memória. Memória como é óbvio é carregada de emoção. Seria então, Paulo essa memória afetada por esse julgamento do tudo é politico? E é por isso que não seria possível se construir uma historiografia do tempo presente? Gostaria de saber Paulo Ghiraldelli. Como o senhor ver essa questão da memória e história nova? Parece então que essa história nova lida de modos diferentes com a memória..
    Enfim agradeço desde já por sua atenção.

    p.s. A entrevista é encontrada facilmente no youtube.

    • 17/03/2015 at 09:46

      Vitor excelente questionamento. Às vezes eu uso historiografia para abarcar também a memória, e a separo da história. Mas o melhor é fazer a distinção “história”, “historiografia” e “memória”. Não há como não fazer história do tempo presente por meio também dos historiadores. Deixar a crônica para o jornalista e outros e se omitir seria um crime para com o historiador do futuro. Além disso, toda história é “afetada”. Quem faz a história são homens, não crocodilos e, portanto, lágrimas de crocodilo são difíceis de saírem de historiadores. O que o historiador profissional faz para se garantir contra a afetação excessiva é ser um historiador profissional, com algum tipo de posivitismo na mão, o que sempre é bom se o historiador teve boa formação.

  3. Lino
    07/04/2014 at 11:49

    Bom dia Paulo,
    não estou falando do Jango, do Paulo Freire, por causa do tempo e espaço não fui claro, mas do que li da época vejo muita radicalização por parte dos estudantes por exemplo, mas necessário um aprofundamento por parte da esquerda.

    • 07/04/2014 at 14:23

      Lino, não, não justifica sua frase. A prática da luta armada se dá bem após a ditadura, e como resistência. A esquerda brasileira antes de 64 não estava com práticas anti-democráticas para além do que a nossa sociedade permitia. Era o comum. Além disso, o PCB já estava fora da jogada, já havia sido cassado, portanto, a nossa democracia já havia sido discriminatória.

    • Lino
      09/04/2014 at 16:22

      Boa tarde Paulo,
      você tem razão quando diz que a nossa democracia havia sido discriminatória com o PCB, apesar de conhecer a história. Outro ponto, aí eu levar mais tempo para compreender, é a valorização da luta armada no peródo da ditadura, eu sempre achei que é cutucar a onça com a vara curta, um vem com tanque, canhão, metralhadora, dinheiro, intendencia, sistema, o outro vem com revolver, e a logística? Nunca consegiu entender essa opção.

    • 09/04/2014 at 18:13

      Lino, a luta armada foi uma reação!

  4. Lino
    07/04/2014 at 11:17

    Bom dia Paulo,
    1 ótimo texto;
    2. A participação da imprensa, patrão e empregado, é fundamental no período antes de 1964 e depois de 1964; estes nunca vão fazer autocrítica; não foram e não são democráticos e nem mesmo liberais;
    3. O fim do ciclo 1964 a 1985 foi devido aos que acreditaram na democracia, foi pelo voto; os que optaram pela luta armada perderam, os que optaram pelo voto venceram, vitória da democracia; o voto para vereador, deputado, senador e em algumas ciades para prefeito, nós democratas participamos das eleições e vencemos;
    4. Quando vejo estudantes impedindo professor defender a tomada do poder e o período 1964-1985, mostra que eles não são democráticos e não sabem debater idéias contrárias;
    5. A participação da esquerda no período que antecede ao golpe não foi democrático e nem mesmo liberal.

    • 07/04/2014 at 11:25

      Lino, sua última frase não tem base histórica. Jango era uma homem de esquerda, ele atuava democraticamente, dentro dos padrões do populismo da época. Nunca quis dar golpe algum. A esquerda em outros lugares tinha pessoas comprometidas com democracia sim. Você não pode acusar um Paulo Freire, por exemplo, uma homem de democracia e de igreja, de ter usado de ligas camponesas para qualquer golpe de esquerda.

    • Lino
      09/04/2014 at 16:28

      Boa tarde Paul,
      você tem razão, mais uma vez, um livro que mais me impressionou no tempo da abertura foi “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler” projeto de alfabetização no Rio Grande do Norte, recomendo leitura.

  5. Afonso
    05/04/2014 at 22:57
  6. Bruno
    03/04/2014 at 20:00

    Ghiraldelli, indica alguma obra para estudo que aborda o período entre 1964-1985, que se aproxime pelo menos um pouco da visão apontada no seu texto?

    • 03/04/2014 at 23:00

      Não há. Tudo é visto politicamente no sentido tradicional de política. A maioria de nossos historiadores ainda estão politizados demais. Veja o prefácio que fiz para o livro Lições de Paulo Freire, é para aquilo que estou apontando, que deveria ser feito em diversas áreas.

  7. Estamos ideologizados demais… e politizados de menos! E é muito oportuna a homenagem do Ghiraldelli, aqui, ao Le Goff: homenagem destacando a importância do historiador e da História Nova sem, no entanto, fugir às críticas que podem, sim, serem feitas à historiografia pós anos 1970 (o tema da “História em Migalhas”, por exemplo).

    De qualquer forma: 1964-1985 é algo tão complexo, e tão cheio de CONTRADIÇÕES que é impossível reduzir a história deste período ao maniqueísmo que estamos vendo. No entanto, há que se tomar cuidado, igualmente para não perdermos a experiência dos sujeitos que participaram desta época – a multiplicidade de narrativas (tomada como fontes históricas, principalmente aquelas contadas pelos participantes do período) precisam ser historicizadas. Precisamos de mais estratégias narrativas de dêem conta de contar a história deste período. E, penso, umas boa forma de fugir da “hiper-ideologização” reinante é tomar a experiência dos depoentes.

    PS. o prof. Rodrigo Patto sá Motta acaba de publicar um belo livro sobre as relações entre as universidades e regime militar, tratando, exatamente, da ambiguidade com que as universidades foram tratadas neste período: terror sobre estudantes, por um lado, e incorporação de pautas da esquerda e aumento dos investimentos em educação superior, por outro.

    • 03/04/2014 at 15:39

      EStamos politizados demais, Renato. Politização deixou de ser algo benéfica faz tempo.

  8. Afonso
    02/04/2014 at 15:57

    Parece que não falta somente à (nossa) História um panorama menos “politizado”, pelo visto também faltou à imprensa (nesses dias de rememoração) que entre tantas análises sobre 64 deixou escapar (ou evitou) aspectos importantes, como ressaltou Luciano M. Costa no Observatório da Imprensa [http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_espirito_da_ditadura_esta_vivo] e Carlos Castilho [http://www.observatoriodaimprensa.com.br/posts/view/1964_faltou_exorcizar_os_fantasmas_do_autoritarismo]

  9. Valdério
    02/04/2014 at 14:45

    Paulo,

    Agora seu ponto ficou muito mais claro.
    Perdemos muito com essa politização da História. Porém, eu já tinha apontado que sofro o mesmo problema pra discutir políticas do governo. Parece icoerente (por ser política de governo), mas isso atrapalha muito. Se determinado governo faz algo adequado e você aponta, ou erra e você aponta, automaticamente é taxado de defensor de determinada linha de pensamento. É um saco.
    Neil Degrasse Tyson explicou uma vez porque não havia problemas entre cientistas teistas e ateus no seu laboratório. Lá eles produzem ciência. Logo, um bom cientista produzirá boa ciência. Discussões sobre suas convicções podem ser pertinentes, mas são deixadas de lado quando se trabalha, porque o trabalho tem suas próprias hipóteses para serem testadas, produz evidências frias, que não mudam de acordo com suas ideologias fora dele.
    Pelo que li no seu texto, não se condena ninguém por ter suas convicções políticas. Um bom historiador produz história e, como você exemplificou, há diversas abordagens que não são feitas e que reúnem em si a importância para seu estudo.
    Leitores e estudantes relinchantes passaram a pautar a produção de textos de acordo com seu perfil.
    Não adianta reclamar, eles são mais numerosos.

  10. Hugo Lopes de Oliveira
    02/04/2014 at 14:36

    O Rorty sempre defendeu isso: “a análise do caso a caso”. Estamos politizados demais. Le Goff teve no terreiro de casa a divisão entre esquerda e direita, da Revolução Francesa, e mesmo assim, se livrou disso. Nós temos todo um oceano entre nós e a Revolução, e não conseguimos nos livrar dessa dualidade.

    • Sur kim San
      02/04/2014 at 16:06

      O filme antes da revolução do Bertolucci trata um pouco disso, do problema de todo esse oceano entre o nós e a revolução.

  11. Sur kim San
    02/04/2014 at 13:36

    Talvez quem aproximou um pouco de Le Goff foi o Coutinho no cinema com o filme “Cabra Marcado para Morrer”. Me parece um dessas coisas mais voltadas ao cotidiano e ao particular de uma história familiar e sua relação com o período, mas dentro de uma narrativa mais descontinuada e aberta.

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