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25/07/2017

História, filosofia e Impeachment


Escrevi certa vez que a história traz a vida e a filosofia a morte. A história conta sobre nossa contingência, incertezas e efemeridade. A filosofia tenta de toda maneira apontar para o perene. A história vai para um lado, a filosofia para outro. Assim foi na Grécia Antiga. Ainda hoje esse quadro tem a ver com alguma verdade. Todavia, não é só isso.

Toda boa área de conhecimento traz a capacidade de dar trança pés em si mesma. Há um anjo torto em cada campo do saber, em cada esfera epistemológica. Isso não falta para a história. E o nosso caso do Impeachment de Dilma ilustra bem isso. Enquanto a história caminha, a historiografia se produz. E isso segundo um trote muito mais rápido e abrangente que antes. De modo que, diferente do que ocorria no passado, o historiador e seus patrocinadores podem já saber, quase de antemão, como que a historiografia irá se fixar e que tipo será ela. Sabe-se como ela fará do “juízo da história” algo com pretensão de perenidade. Ou seja, se olharmos para o que ocorre com o processo de Impeachment de Dilma, vamos notar que enquanto os documentos (TV, jornais, documentos legislativos e peças legais, entrevistas etc.) saem plurais, com riqueza histórica, a historiografia busca se encaminhar para uma tarefa filosófica de cristalização de uma versão única e empobrecida: Dilma é vítima de golpe. Busca de perenidade é coisa da filosofia, mesmo quando ela tenta fazer algo em favor da contingência. É sua virtude. Quando a história tenta roubar esse seu lugar no palco, faz péssimo serviço. Faz desserviço. Faz antes ideologia que narrativa informativa. “Dilma sofreu um golpe” é frase de combate ideológico, não história.

Há uma intelectualidade que perdeu há tempos o gosto pela desideologização. Fugiu do Iluminismo. É a intelectualidade que responde ao movimento ideológico do Escola Sem Partido com o que poderia ser o pior: “tudo é político e tudo é ideológico”. Essa intelectualidade se esqueceu completamente da noção de ideologia de Marx. Deixou de lado o célebre estudo de Nietzsche sobre as formas da historiografia. Tornou-se cínica, no sentido atual da palavra. Falam abertamente de suas intenções podres. Acreditam que tudo é ideológico e, portanto, ensinar nas escolas é um ato político e ideológico. Ora, assumindo isso, dizem: que se faça então uma indústria de ideologia e que esta receba o nome de história. Desse modo, o que importa é ganhar na narrativa historiográfica o que se perdeu na política efetiva. Assim pensa uma grande parte dos historiadores de esquerda, acompanhados de “artistas e intelectuais” que, ao agirem assim, alimentam a retórica de uma direita tosca e anti-cultura. Artista é artista, historiador é historiador, Wagner Moura é só e apenas Wagner Moura. Não pode tentar, com o que tem, ser historiador.  Não dá!

Na política efetiva Lula roubou ou, no mínimo, foi conivente com o roubo: mensalão, petrolão e desmandos em forma de “pedaladas” – isso não é pouca coisa, quebrou o país! O mesmo ocorreu com Dilma. E as tais “pedalada fiscais” no mínimo trazem a presidência para o campo da irresponsabilidade, que não serve de biombo para administrador nenhum. Em uma empresa privada uma resposta com a da Dilma, “outros já fizeram e não foram punidos” ou “eu não sabia de nada”, levaria o proprietário da empresa a tirar o executivo em questão na base da cintada nas nádegas. O Impeachment é a cintada do Brasil nas nádegas de Dilma, e para que ninguém seja acusado de machismo, uma mulher chamada Janaína Paschoal, professora da USP, tomou a cinta nas mãos. A lambada é forte. E que venha sim da USP, para que possamos ver a força do saber de uma universidade pública.

Um historiador atento aos documentos não conseguirá fazer uma versão dizendo que o Impeachment é um golpe. No máximo poderá dizer que Janaína acertou a hora de entrar com o Impeachment, que foi o momento em que os empresários caíram fora da aliança com Lula e insuflaram o PMDB para o rompimento com o PT. Isso é política, isso é legítimo, e mais legítimo ainda se essas forças, em suas divisões, recorrem a instrumentos legais corriqueiros. Todavia, não é isso que se está produzindo na historiografia afoita que já está sendo distribuída pelos intelectuais ideologizados – inclusive distribuída no exterior!

Já há até livro paradidático dizendo que 2016 foi ano de um golpe como o de 1964. Juro! Já há essa barbárie! Aliás, vimos um historiador da Unicamp (tá certo que não é bem historiador, mas midiagogo, o Karnal) dizendo, na TV, que dependendo do lado que se olha o Impeachment pode sim ser um golpe. Ou seja, ele olhou por todos os lados, menos o lado jurídico. Olhou por todos os lados, menos o lado dos documentos que servem de material primário para um historiador pesquisador.

O certo é que a historiografia que já está nas gráficas é uma via de mão única no reino da apologia ideológica: é golpe, dizem os livretos de professores acusados pela direita de “marxismo”, quando, na verdade, isso não deveria ser dito, pois Marx foi um desideologizador. Repete-se isso, de que o Impeachment é um golpe, e a cada momento ficamos sabendo a razão pela qual há professores que ou fazem provas ideológicas, cobrando idiossincrasias suas, ou dizem não saber fazer provas objetivas. Perderam a noção de que há sim conhecimento objetivo (a objetividade em ciências humanas tem sua peculiaridade, mas não é o lugar do samba que vira pagode), que é possível construir versões que podem ser consideradas intelectualmente e versões que podem ser mais criticáveis e até versões descartáveis. Essa gente quer de toda maneira convencer os não envolvidos diretamente com a vida política, do presente e do futuro, de que 2016 foi “ano do golpe”. É o mesmo povo que quis dizer para todos que o ano de 2005 não existiu (ano do mensalão); é gente que concordou em colocar Zé Dirceu no ostracismo e depois, quando Lula teve pico de aceitação, passou a dizer que não havia havido mensalão e que Zé Dirceu era herói (!). O estalinismo come solto na cabeça dessa gente. E o estalinismo foi o rei na tarefa de tornar perene uma historiografia dócil ao poder,. O estalinismo foi o responsável pela produção de narrativas históricas tão mentirosas que, depois de um tempo, se tornaram piadas. Aliás, por razão dessa historiografia soviética ter se tornado piada, Animal Farm, uma caricatura da história do socialismo na URSS, passou a ser uma versão verdadeira. Para ganhar de uma caricatura mal intencionada a ficção fez uma caricatura despretensiosa que, enfim, acabou se tornando verdade. Todos hoje seguem Animal Farm para contar a história do estalinismo.

Vamos precisar de uma geração de historiadores bem formados e descompromissados com a tarefa ideológica de uma esquerda com pouca honestidade, que domina bem vários departamentos de ciências humanas de nossa universidade. É uma minoria essa esquerda mais emburrecida, mas domina exatamente por conta de que pode contar com a estupidez da direita e também com a capacidade de convencer os jovens de que tudo é político e que fazer história é um ato de guerra, uma luta sofística que não pode apresentar a verdade, dado que esta não existiria.

Cada aluno do futuro que encontrar seu professor dizendo que o Impeachment foi um golpe deve aprender a questionar no seguinte sentido: por que a golpeada participou do processo de Impeachment se defendendo até o final, e falando e falando e levando mil testemunhas, tudo dentro da lei, por que não saiu do governo e convocou suas forças políticas? Golpe branco? Ah, tem dó né! Golpe branco com um ano de duração? E o engodo eleitoral, não fez essa mesma presidente perder a força? E o Lula envolvido em escânda-los, não levou seu eleitorado a querer o Impeachment? E a sua tentativa de obstrução da Lava Jato, gravada, não foi ao ar e deixou todo mundo pasmo e revoltado contra o reizinho do Brasil? Essas perguntas não vão aparecer na ideia petista de “A história me absolverá”.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 29/08/2016

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14 Responses “História, filosofia e Impeachment”

  1. Cauim
    02/09/2016 at 07:22

    Janaína é sua heroína professor? Mas que péssimo gosto!

    • 02/09/2016 at 08:30

      Cauim meus textos são só para gente inteligente e honesta, você não precisa lê-los. Eu procuro ter um grupo seleto de leitores. Mas, confesso, a nota de corte aqui não é tão diferente da do ENEM. Mas você está fora. Você não passa no ENEM.

  2. Demótenes
    31/08/2016 at 22:22

    Apenas uma facção tirou a outra.

    • 01/09/2016 at 07:02

      Demóstenes quando você ficar mais velho, aprende.

  3. Guilherme Picolo
    30/08/2016 at 07:42

    Quem esperava um discurso emocionado, enganou-se, pois a real estratégia da Dilma é bugar os nossos cérebros. Ontem, ela explicou que 30% não é 30%, mas 30% de 25% ou 30% de 30%, que pode ser 7,5% ou 12,5% ou um pouco mais. Veja aí:

    https://www.youtube.com/watch?v=jrRpuWk0TFs

  4. Epaminondas
    29/08/2016 at 23:15

    https://portaldafilosofiabrasileira.blogspot.com.br/

    Acessem esse projeto inédito que visa divulgar a produção filosófica nacional e tudo que diz respeito à Filosofia no Brasil. Grato se der uma olhada, Paulo. Você é citado na primeira postagem.

  5. Luciano
    29/08/2016 at 15:29

    Não foi golpe! Foi eleição indireta. O crime conta pouco. A motivação política é a força motriz do impeachment. É a motivação de um vice traidor aliado a um congresso amplamente conservador. O destino da Dilma está selado há muito tempo. Estão só cumprindo o protocolo.

    • 29/08/2016 at 17:30

      Não existe Impeachment como processo não político, Luciano. Os crimes jurídicos estão claros, e a política vem na cola. Não é difícil entender isso.

    • Luciano
      29/08/2016 at 22:24

      Eu sei disso, Paulo. Entendo bem. A motivação política tem sido bastante questionada. Muita gente, e gente influente, insuspeita de petismo é contra o impeachment por causa das circunstâncias da motivação política e por entender que a razão jurídica não é tão convincente assim.

    • 29/08/2016 at 23:44

      Luciano as pessoas contra o Impeachment são cripto petistas, às vezes sem saber. Pessoas de esquerda demoram para abrir mão de seus ídolos.

  6. Henrique
    29/08/2016 at 13:42

    O PT foi se misturar com a política tradicional brasileira e deu no que deu, o outrora partido da ética e da esperança do povo trabalhador sofrido infelizmente se perdeu e agora é retirado pelas próprias elites. Precisamos construir uma nova esquerda, por o povo no poder no país, e governar com o povo. Isso talvez demore muitas gerações, a democracia não vamos ter para amanhã ou para os próximos anos, viveremos muitos anos nas sombras.

    • 29/08/2016 at 17:32

      Henrique o PT há muito é a política tradicional

  7. Bruno
    29/08/2016 at 11:14

    Sei que seu texto fala da tarefa dos historiadores, mas não consigo deixar de lembrar quando, em 2002, fui à sede do PT em Nova Iguaçu, e, em conversa com militantes, eles me disseram que o projeto do PT era “realizar a democracia”, e que o regime de Fidel era uma “monarquia”. Bem irônico esse papel do Lula agora.

  8. vera bosco
    29/08/2016 at 11:10

    Como querem tudo histórico, a narrativa jornalística da Tv já usa a expressão NESTE MOMENTO HISTÓRICO.Putz!

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