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23/11/2017

Futebol é uma “caixinha de surpresas”?


O que é essa Copa que vivemos? Do que falamos quando falamos em “sete a um”? Será mesmo que ainda podemos aplicar a fórmula “pão e circo”? Não creio. Temos de pensar o desporto e o futebol noutras bases teóricas. Arrisco uma interpretação. 

Para o amigo professor José Henrique, da Ed. Física da UFRRJ

A história da educação física moderna é a história do fim da sociedade guerreira e a entrada na sociedade do espetáculo para, então, sem sair dessa última, se chegar à sociedade gincanizada. A base dos cursos de Educação Física no Brasil mostra bem esse movimento histórico do Ocidente.

A cadeira de Ginástica Geral, centro do curso de Educação Física durante anos, foi primeiro ocupada pelo “método francês” para, depois, chegar à absorção da “desportiva generalizada”, passando pelo “método austríaco” e “sueco” e outras práticas. O “método francês” nada era senão um conjunto de exercícios tirados do manual de preparação do exército francês. Durante anos ser professor de Educação Física era ser um aplicador desse método, único permitido e obrigatório nas escolas brasileiras. Quando o esporte passou a superar a ginástica em preferência popular, especialmente no Brasil, outros métodos foram introduzidos e, com eles, a “desportiva generalizada”, ou seja, o “método” que coloca a aula de Educação Física já inteiramente preenchida pelos esportes de quadra e, no campo, pelo futebol. Isso se deu após a Segunda Guerra, principalmente, quando a mentalidade militarista começou a ser substituída por práticas democráticas. Os ventos americanos impregnados pela mentalidade afinada com o fair play e com uma nova disciplina, a do esporte, entraram para valer no mundo todo, inclusive no Brasil.

Particularmente, no Brasil, essas coisas aconteceram em conjunto com a modificação do curso de Educação Física, transformado em curso superior e, em seguida, aberto à inovação por causa da  desoficialização do “método francês”. O professor de Educação Física foi um dos primeiros a ganhar liberdade de ação, antes mesmo dos outros, que tiveram tal liberdade consumada na LDBN de 1961. Ele ganhou o direito de escolher o conteúdo de sua aula a partir de vários métodos que aprendia, então na universidade, na cadeira de Ginástica Geral. Dentro dessa lógica, não demorou muito para que a desporto, e já nem mais o “método da desportiva generalizada”, se tornasse o centro da prática do magistério de Educação Física.

Nos anos setenta, no embalo da vitória do Brasil na “Copa de 70” e, ao mesmo tempo, nas demandas criadas pelo insucesso nas Olimpíadas, o governo da Ditadura Militar resolveu criar uma política de geração de atletas. Para tal, buscou os modelos de sucesso no exterior, em especial, nesse caso, o modelo americano e outros modelos europeus de países com êxito olímpico. A escola fundamental deveria fornecer aos alunos as bases do esporte olímpico, incluindo aí o futebol de campo. Esperava-se que daí surgisse uma massa enorme de praticantes, de onde se tiraria uma elite para o “esporte de alto nível”. Por isso o professor de Educação Física ganhou uma aula a mais na semana, que era a aula voltada para a “Turma de Treinamento” – era a escolinha de esporte, mas dentro da escola pública básica, não no clube. Os chamados “campeonatos colegiais” ganharam enorme destaque. Paralelamente a isso, o Governo Médici iniciou uma política de construção de ginásios de esportes pelo Brasil todo e também formas de apoio do tipo “adote um atleta”. Mesmo quando o fervor nacionalista dos militares já havia passado, essas políticas continuaram.

As coisas não saíram como a Ditadura Militar planejou. Primeiro porque a atividade clubística no Brasil se empresariou e absorveu toda a atividade esportiva que, por sua vez, passava do profissionalismo marrom para o profissionalismo explícito. Segundo porque a escola pública foi sendo esmagada por reformas pouco alvissareiras e pelo contínuo achatamento salarial dos professores – isso começou na Ditadura Militar e continuou após o seu término. Quando do período da democracia, após 1985, a educação física escolar foi negligenciada ao máximo, chegando mesmo, em um determinado período, a ser desoficializada como disciplina. Mas, de fato,  as aulas já pouco podiam fazer pela própria educação física e muito menos pelo esporte de alto nível.

Hoje em dia ninguém pratica esporte nenhum na escola, do mesmo modo que ninguém aprende inglês na escola, se é que alguém aprende alguma coisa em uma escola que paga nove reais a hora aula do professor. A prática da educação física foi para as academias e a prática do esporte foi para os clubes. O jogo e a mentalidade de competição do tipo gincana, democratizada pelos programas de TV e, em especial, pelo reality show, deu o tom do que entendemos ser esporte, ao lado do vídeo game – o resto é malhação, bombação ou, então, prática para se tornar jogador de futebol em escolinhas profissionais dos clubes.

Mas o que são essas escolinhas? São escolas? São internatos. Sai o internato da religião, entra o internato dos pobres que irão receber a hóstia do deus FIFA. Eles, os meninos ali recolhidos, serão criados para serem pequenos gladiadores, que na verdade são bobos da corte. Mas não são os bobos dos clubes, e sim dos empresários que, enfim, descobriram o mapa da mina: pode-se fazer jogador nos países pobres e então vendê-los para a Europa, Japão e países árabes. A gincanização e o espetáculo padronizado tipo Copa FIFA absorvem tudo isso elevando tais práticas ao que é o correto no mundo, afinal, tais escolinhas salvam os pobres e pretos da “rua” e a gincanização de tudo pode sempre revestir-se de ideais nobres “contra o racismo”, “pela igualdade etc.”, como nos eventos do tipo Criança Esperança ou qualquer prática de gincana do Futebol Internacional. Não é a paródia do ideal, é já o pastiche do falso ideal.

É exatamente sob esse clima que, de vez em quando, o que é heroico e correto não funciona e mostra ter pés de barro, revelando todo esse desdobramento histórico. Os “sete a um” tomado pelo time do Brasil diante da Alemanha nessa Copa de 2014 reflete isso. A Alemanha pode participar do desporto internacional, dentro desses padrões orwelianos já citados, porque o estofo cultural da Alemanha, principalmente sua escola básica, dá uma tal condição. Ela está pronta para aquilo que o diabo gosta. O Brasil não está. O Brasil tem de participar nessas condições, que são não as de quem segue ordens do demônio, mas de quem se humilha ao tinhoso espontaneamente, naturalmente!

Não há um time de futebol no Brasil que não jogue para que seus jogadores continuem o percurso criado pelas “escolinhas”: o jogador é bobo da corte na Europa, e deve ganhar muito dinheiro e, então, aparecer posando com mulheres peladas nas festinhas do Bernusconi, regadas por drogas que só os russos conhecem, além, é claro, da cocaína banal. Casa-se aí a criação no seminário do futebol com uma juventude vivida na máfia italiana e outras casas ilícitas. Nada mais saudável! Tudo isso regrado pela gincanização da sociedade e pelo culto do nada pelo nada, revelado pela exacerbação da referência a Deus nas entrevistas dos jogadores. A Copa é o momento em que há a tentativa de mostrar que tudo isso não é em vão, que há algo de humano nisso tudo, por exemplo, as nações e seus povos e bandeiras. Mas, no “sete a um” a verdade vem à tona: não existe pátria nenhuma, todos são os que são no campo, apenas marionetes de uma lógica implacável do desporto atual, que é um elemento da gincana enquanto prática única que se permite na era do capitalismo monopolista, onde só a falsa competição pode existir. No capitalismo monopolista os poucos patrões competem consigo mesmos.

Esperar que o esporte case-se com algo chamado educação humanista, nos termos atuais, é como esperar que uma bruxa com sete vassouras voadoras escolha com qual sair na sexta feira à noite.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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6 Responses “Futebol é uma “caixinha de surpresas”?”

  1. 23/05/2017 at 21:51

    Show.

  2. 10/12/2016 at 22:00

    Show.

  3. Guilherme Gouvêa
    12/07/2014 at 18:54

    Gostei particularmente de dois neologismos seus: “gincanização social” e “culto do nada pelo nada”. São ótimos catalisadores para aprofundarmos o pensamento.
    *
    Em tempo: Klose cedeu uma entrevista em Frankfurt, ao lado de Habermas, em que pediu desculpa pelos 7 gols, mas justificou a humilhação: “é um último aviso para esses brasileiros que insistem em usar o conceito de indústria cultural para qualquer coisa nas escolas. Já basta!”, teria dito, com o dedo em riste.

  4. alexandre vivacqua
    11/07/2014 at 10:20

    Fina flor de comentário!

    Paulo, é isso: “falar sempre das mesmas coisas” para que elas superem a nossa “crônica desatenção” com o importante que passa despercebido no mais prosaico.

    1X7, um ótimo passo para o Pensar.

    Abraços,

    Alex de BH.

    • 11/07/2014 at 11:41

      Alex, que bom que escreveu! Que tal participar mais, lá no HOra da Coruja? Abração.

    • alexandre vivacqua
      11/07/2014 at 21:47

      Sim, farei.
      Estava colocando a vida em dia.
      Bom sempre falar com você, companheiro de “copo e cruz”.
      Estou sempre acompanhando suas postagens e vídeos.
      Mais uma vez: com seu modo próprio de filosofar e com sua incessante produtividade intelectual, você presta uma grande ajuda a todos nós.
      Vamos em frente: “Breve é a vida, longa a jornada”.
      Abraços,
      Alex.

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