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20/11/2017

A escravidão no Brasil – “tem de manter isso, viu?”


Os negros nus e com diarreia viram seu sofrimento acabar. Com golfadas de água salgada pela boca, foram tragados pelo mar. Seus corpos já ensanguentados serviram de alimento aos tubarões, velhos companheiros tanto de capitães dos navios negreiros quanto dos almirantes ingleses, destinados a policiar os mares para evitar o trânsito dessas embarcações. Como presumimos, tubarões não costumam escrever e, por isso mesmo, talvez, tenhamos poucos relatos sobre quem afundou quem, nesse parque marítimo de assassinatos, as águas entre a África e o Brasil no século XIX.

O “Bill Alberdeen” foi a criação dos britânicos para se colocarem capazes de policiar os mares, proibindo o tráfico escravocrata. O Brasil ficou sob a mira desse ato, dado a insistência do Império de Pedro II em não acompanhar a capitalismo mundial na sua inexorável suavização das relações de exploração – coisa bem notada, entre tantos, por Foucault. Há desconfianças de que portugueses, uma vez na mira de serem apreendidos pelos britânicos, afundaram seus próprios navios, colocando os negros para os peixes. Há desconfianças de que os ingleses, em determinados momentos, não se preocuparam muito com a carga humana no porões, e abriram fogo contra os navios negreiros, também contribuindo para com a flora e fauna marítima. Seja como for, os negros sempre levaram a pior. Os que se salvaram, também. Até hoje. Sim, até hoje.

Desde quando o capitalismo apareceu, só alguns não perceberam que ele veio para ficar. É interessante que, em determinado momento, até mesmo aqueles que notaram a capacidade do capitalismo de ser o senhor do fim da história enquanto “rei do processo civilizatório” (Karl Marx à frente), não depositaram fé necessária nessa sua missão. Mas o fim da história chegou.  Só os tolos que não entenderam Fukuyama (muitos citaram e não leram!) acreditam na “volta da história”. Ninguém hoje imagina a possibilidade da civilização continuar sem a vigência da sociedade de mercado e de seus derivados culturais, em especial o apogeu do mimo atrelado à mercadorização, como respectivamente Sloterdijk e Debord explicaram. Desse modo, é preciso olhar para certos flatos governamentais brasileiros exatamente como flatos. A “bancada ruralista” é como o neofacismo urbano da patuleia interneteira, às vezes preferencialmente de barriga verde: nada além de barulho somado ao odor desagradável. Fede um pouco no seu movimento anticapitalista, mas passa.

“Tem que manter isso, viu?” – Essa é a frase que comanda o governo brasileiro atual, apoiado pelo gestor/feitor que dá sua ração para pobres com fotinho pecaminosa da Nossa Senhora Aparecida. Um faz a volta da senzala, criando a impunidade para a manutenção do trabalho escravo no Brasil, outro prepara a sua mistureba como farinha, que visa dar força e vômito aos herdeiros dos porões do navio negreiro. O Brasil tropeça na sua demora em se desfazer da Casa Grande, ou seja, dos elementos que não conseguem se adequar ao desdobramento do capitalismo. Mas devemos entender que a “força civilizatória do capital” é muito mais decidida, e é sem dúvida progressista. Assim, do mesmo modo que a Inglaterra se arvorou em protetora moral da humanidade, com o Bill Aberdeen, agora os organismos internacionais, todos sob o comando das nações mais industrializadas, irão continuar condenando a emissão de gases no planeta e, aqui e ali, irão também condenar ilhas retrógradas como o Brasil, para que este mantenha a abolição do trabalho escravo vigente e para que dê antes comida que lavagem para os pobres. Lavagem deve continuar para os porcos, somente.

Essa pressão internacional, que até pouco tempo não contava com a China, agora também passa a contar. A China começa a ultrapassar o nível do capitalismo meramente predatório, e agora tratou de ocupar o espaço aberto pelos americanos na UNESCO. Se sob o regime Trump os americanos não querem mais substituir os ingleses como sustentáculos morais do mundo, a China diz que quer. Ela passou a ampliar seu dinheiro para a UNESCO. Mais cedo ou mais tarde a China irá incorporar também a democracia representativa. Nós veremos. O Brasil não, aqui sempre oscilaremos em um passo para frente e, junto, dois atrás. Mas, tropeçando, continuaremos. Sempre seremos os mais vagarosos, os retardatários, os capazes da corrupção mais sofisticada do mundo e do pior ensino. Mas isso não significa que estaremos não tentando, em alguns momentos, a escapar dessa maldição de “país do futuro”, jogada em nós por Stefan Zweig.

Seremos sempre um país de terceira, com algumas pessoas de primeira.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 21/10/2017

Paulo Ghiraldelli. Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Foto acima: Gravura do interior de um navio negreiro, publicada em 1860 no livro Revelations of a Slave Smuggler, de Richard Drake.

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4 Responses “A escravidão no Brasil – “tem de manter isso, viu?””

  1. Luma
    01/11/2017 at 22:08

    Seus textos já estão entrando no limite entre a Filosofia e a Arte. Parabéns, Paulo. Belo texto.

  2. Guilherme Pícolo
    21/10/2017 at 19:30

    Quando se compara o empresariado brasileiro com o americano, também se nota uma diferença gritante: enquanto o segundo incorpora, em geral, os valores da livre iniciativa, do empreendedorismo e da filantropia, o primeiro ainda sente imensa dificuldade de se desligar do pensamento da Casa Grande, agindo como chefetes déspotas ávidos por restaurar um sistema de servidão como um mundinho para premiar a sua avareza e falta de visão de bem coletivo

  3. Eduardo Rocha
    21/10/2017 at 18:20

    Paulo, gostaria de saber como a “ética protestante” se aglutinou ao capitalismo como um “motor espiritual”? Sempre achei que o capitalismo tivesse se deslanchado pela burguesia ao patrocinar diversos empreendimentos no séc. XVIII. Houve então uma racionalização da técnica ao se criar uma”ética do trabalho”: riqueza, sistema de produção, fortuna, etc? Para só depois a burguesia ampliar isso? Mas como isso se liga com a religião? Teríamos então um ascetismo religioso por meio de “apóstolos” ou homens da religião que seriam mini treinadores? A cosmovisão protestante seria voltada para a ação-prática?

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