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14/12/2017

Em defesa da ingenuidade


Um cientista age corretamente quando diz: tenho uma hipótese sobre o que ocorre. Um religioso está no seu direito de dizer: tenho fé sobre o que conto. O artista às vezes fala: sei lá eu o que está ocorrendo! O filósofo, por sua vez, diz: o melhor seria que ocorresse o que nunca ocorreu. 

A ingenuidade é o cavalo do filósofo. Um cavalo alado. Afinal, um filósofo, se galopa, é montado em alguma coisa que existe tanto quanto Pégasus. Um filósofo “realista” pode apresentar o título de filósofo, mas não é filósofo – nem aqui, nem na China e em lugar algum. Talvez seja jornalista ou simplesmente um sabichão de “mídia”. Aliás, se um filósofo trabalha num jornal, ele deveria lembrar de Nietzsche, que disse que o jornal tem todos os dias o mesmo número de páginas e, no entanto, os fatos ocorridos não são sempre em mesmo número. Só isso já deveria dar o que pensar sobre a mídia nas mãos de empresários ou do estado.

O pessoal da mídia, dos quartéis e das empresas não podem ser ingênuos. A ingenuidade é prerrogativa dos filósofos. Os filósofos possuem uma enorme dificuldade de pensar diferente do que pensam esses garotos que estão aí falando para o governador Alckmin: não queremos ver nossas escolas fechadas. O filósofo faz afirmações tolas, perguntas malucas e age, não raro, de modo infantil. Sempre está pensando no impossível.

O filósofo não tem nada a ver com aquele dito que Sócrates nunca disse, o “só sei que nada sei”. O filósofo tem a ver com outros ditos. Por exemplo, Wittgenstein disse: do que não se pode falar, deve-se calar. Mas, sobre a mesma questão metafísica, Nietzsche havia dito antes: não deveria falar, mas sou um falante. Adorno saiu disso com a seguinte formulação: talvez o melhor seja falar no sentido de convencer o outro de que eu mesmo estou errado. O filósofo estuda lógica, mas gosta do paradoxo. O gosto pelo paradoxo consciente é próprio do filósofo. Pois faz parte da ingenuidade falar coisas que só loucos e crianças parecem poder compartilhar.

Veja só dois casos dessa loucura.

Caso 1. Os beagles estavam sofrendo num laboratório de São Roque, em São Paulo. Meninas foram lá, invadiram o laboratório, resgataram os beagles. Todo os “adultos” e até alguns com título de filósofo chamaram aquilo de ato irresponsável. Vieram com aquele papo tonto de que se há protetores de animais então estes deveriam também proteger baratas. Alguns disseram na imprensa que a ciência precisa do sofrimento dos animais para o nosso bem e blá-blá-blá. Mas as meninas tiraram os beagles de lá, fizeram pressão na sociedade e na justiça e, por fim, o laboratório foi fechado pela justiça do estado de S. Paulo. Ficou provado que o laboratório Royal estava fora da lei, que maltratava mesmo os animais, em ato criminoso. Acabou. Os sabichões e falsos filósofos enfiaram o rabinho entre as pernas, não tocaram mais no assunto. Os filósofos verdadeiros ficaram junto das meninas invasoras, na ingenuidade de quem protege animais.

escolas-ocupadas-e1447968013656Caso 2. Os estudantes paulistas começaram a ocupar escolas. Contra o governador que quer fechá-las, eles ocuparam suas escolas e inciaram protestos. Os “adultos”, os sabichões de sempre (não vi pseudo filósofo falando dessa vez, será que aprenderam a manter o rabinho entre as pernas?), disseram que os alunos não tinham condições de manter o movimento, que aquilo era bagunça. Mas eles limparam a escola, se acomodaram nela, desenvolveram atividades culturais e aulas livres, chamaram os ex-alunos para testemunhar e, enfim, estão conseguindo fazer o governador receber uma derrota política merecida. A utopia da autogestão, coisa de filósofo e coisa de criança e maluco, funcionou. Será uma experiência inesquecível para todos. Talvez tenham aprendido mais nesses dias de ocupação que em toda a vida. Os verdadeiros filósofos ficaram junto desses meninos e meninas da ocupação escolar paulista.

Nos dois casos, os sabichões, os que apelam para a “realidade”, chamaram a polícia para espancar, tantos os ativistas do passado quanto os alunos de agora. Pois é, os sabichões, apesar de terem espaço na maior parte da mídia e, então, poderem exercer a retórica do convencimento à vontade, não convencem muito e acabam sempre usando bomba de efeito moral, cacete e balas de borracha (isso quando não fazem coisa pior). Estranho não?

Como as resgadoras dos beagles, também esses alunos da ocupação das escolas paulistas logo estarão em camisetas estampadas, marcando a história nossa, dos ingênuos, dos sonhadores, dos que podem gostar da filosofia porque ela é a antítese do realismo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Foto:

capa da folha

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18 Responses “Em defesa da ingenuidade”

  1. wagner santos
    12/10/2016 at 11:15

    São jovens defendendo o seu início de vida. Seus laços afetivos, seus professores, seus cantinhos no pátio, nas escadas… Não admitem que carcomidos quebrem os seus laços e interfiram em suas vidas de modo tão frio e mesquinho. Eles estão certos! Que esses jovens continuem a defender suas vidas e que os carcomidos continuem digerindo o próprio estômago.

  2. Orivaldo
    05/12/2015 at 12:44

    Esse tal Arimanollo poderia muito bem assinar Olavo de Carvalho, o famoso velhinho boca suja, embora o problema do Olavo não seja ser velho nem boca suja. Ou assinar Reinaldo Azevedo, mais conhecido como o “Ratinho que leu um pouco”. Mas tanto faz se ele prefere assinar o nome do cara que de tanto combater o mi mi mi acabou se tornando o maio exemplo de mi mi mi da filosofia tupiniquim.

    • 05/12/2015 at 13:57

      Orivaldo de fato o Pondé é pior que os outros. Os outros não tem nada a ver com a filosofia. Pondé tem, mas fala do que não lê e realmente é um embuste da filosofia. Tornou-se uma falcatrua ambulante. É um desserviço à filosofia, hoje em dia.

    • LMC
      07/12/2015 at 15:22

      Orivaldo,não confunda Reinaldo
      Azevedo com Ratinho.O Ratinho
      tem o seu programa patrocinado
      pela Caixa.É da tchurma do Titio
      Nassif And Friends & Vassalos
      And Puxa-Sacos do Poder.

    • LMC
      08/12/2015 at 10:43

      Reinaldo Azevedo não é Ratinho.
      O Ratinho tem seu programa
      patrocinado pela Caixa.É da
      tchurminha do Titio Nassif,cara.

  3. Jose
    04/12/2015 at 16:30

    O que estes jovens estão fazendo é um aprendizado para toda vida, é sentir que a vida lhes pertence, é ousarem sair da caixinha. Sei que muitas das vezes eles mesmos no exercício de sua cidadania não tem ainda a consciência do que isto representa de forma mais abrangente. Cobram deles que exerçam sua cidadania tirando o título aos 16, mas querem condenar por que estão fazendo politica. Se não tem algo para dizer melhor não dizer nada. Parabéns a todos que acreditaram na luta, pois logo veremos muitos aderindo ao movimento para angariar respaldo politico.

    • LMC
      07/12/2015 at 15:25

      Ih,já começaram com esse negócio
      de “aderir ao movimento”.Essa
      Escolinha do Professor Safatle e
      seus alunos engraçados.kkkk…..

  4. Robson
    04/12/2015 at 11:04

    A boa arte ‘filosofa’ (e textos filosóficos bons ‘artistificam’ a vida). Ambas, arte e filosofia, precisam de misturar à ingenuidade, argúcia.

    • 04/12/2015 at 11:13

      Prefiro não ser arguto. Deixo isso para os sabichões.

  5. Luís Felipe de Carvalho Pondê
    04/12/2015 at 09:50

    Você está louvando a atitude de um bando de garotos irresponsáveis que não intenção alguma em estudar? Qualquer sabe que aquilo ali é fogo de palha,uma festinha para esses jovens. Diversão,bagunça. E mais, ouso dizer que tem forte influência partidária nessas “ocupações”…..
    Parabéns Ghiraldelli,espero que se lembre do que fizeram contra você aquela vez. São os mesmos que agora ocupam as escolas. Futuros membros do D.C.E e militantes do PSOL.

    • 04/12/2015 at 10:57

      Arimanollo, o ataque que sofri foi contra mim, por gente teleguiada, e cada pessoa é uma pessoa e cada caso é um caso. Quando um burro como o Pondé pensa assim, então ele deixe de pensar qualquer coisa. Veja se entende, energúmeno: um gato vem e arranha seu rosto, aí você mandar matar todos os gatos, pois você deduz (!) que gatos arranham rostos. Entendeu? Ou ainda não? Ou seja, se um bando de analfabetos ataca você, como paus mandados, você condena todos os jovens que querem estudar. É assim? Sim, é assim que a besta do Pondé pensa, e você copia.

    • Luís Felipe de Carvalho Pondê
      04/12/2015 at 11:16

      Ok. Continue acreditando nesses jovens,sem problema. Acredite no PT de Lula também. Em papai Noel……
      O filósofo deve ser ingênuo né? Está fazendo bem então.

    • 04/12/2015 at 11:38

      Arimanolo, quanto mais você assina como Pondé, mais burro fica. Veja como não consegue ler: alguém falou em PT? Ninguém. Você falou? Percebeu? Você põe coisas no texto que não existe. Pensa que isso é “deduzir”. Não! Não é. É apenas o modo do Pondé pensar, ou seja, de modo burro.

    • Silvia
      04/12/2015 at 16:29

      Nunca vi tanta burrice! Que importa se os estudantes não tenham intenções boas, isso diminui a importância de lutar pela escola? Partidos políticos influenciando jovens? ararsrsrsrsrsrs….
      É o Pondé fazendo escola!

    • Silvia
      04/12/2015 at 16:31

      Irresponsáveis? Então responsável é fechar escola!
      Conservador tenta se mostra “adulto” mas acaba se mostrando burro!

    • 04/12/2015 at 16:54

      Sílvia, se um cara assina “Pondé”, ele já mostra que sua mãe, no passado, contraiu o Zica Vírus

    • 04/12/2015 at 17:48

      Por mais bem informado que eu me considere, não conheço todos os estudantes de todas as ocupações e mesmo se eu os conhecesse não conseguiria ter certeza das reais intenções. Muito menos sei o que eles serão no futuro ou onde estarão. Parabéns meu caro Pondé, além de muito bem informado você é muito inteligente – um sábio da política!

    • 04/12/2015 at 18:01

      Sim, o menino que assina por “Pondé” é um tipo de demiurgo.

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