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01/05/2017

Agora é a democracia que não é grega é?


Está na moda descobrir raízes não helênicas de tudo que valorizamos. Receio que essa moda advenha de uma certa falta de erudição do professor universitário atual, em geral especializado precocemente. 

O professor da UFRRJ, Renato Nogueira, inventou de dizer que a “a filosofia não é grega”. Não sabe que pensamento em forma de cosmovisão é uma coisa, filosofia é outra. Escrevi sobre isso. Fizemos até um Hora da Coruja (Flix TV) sobre isso. Recoloquei na jogada um belo texto de Marilena Chauí sobre o assunto, explicando porque a filosofia é grega. Bem, chegou a hora (putz!) de fazer o mesmo com o conceito de democracia.

O escritor Deonísio de Silva parece que se deixou enganar pela tese errada de José Hildebrando Dacanal, professor de Letras da UFRGS. Pelo que li de Deonísio, o erro de Decanal está expresso no ensaio “As origens da democracia”, em que diz: ‘As raízes da democracia estão funda e firmemente plantadas no solo ético-religioso da civilização israelita, e não no solo científico-filosófico da civilização helênica’. E Deonísio completa: “Ele credita ao Iluminismo europeu a criação e a divulgação da lenda de que a democracia nasceu em Atenas.” (“A democracia não é grega”. O Globo, 10/10/2015).

Onde está o erro? Na informação positiva? Não! Hildebrando faz o mesmo que Nogueira.

Objeção ao Nogueira. A África pode ter produzido pensamentos variados, e assim o fez, mas a filosofia, ou seja, o pensamento que se ergue pondo o logos contra o mythos, e fazendo isso se diz uma forma de ser “amigo do saber”, é grego. O segredo do conceito está na polaridade logos-mythos, é isso que é o original grego e é isso que distingue filosofia de outras formas, também criativas e “metafísicas”, de pensamento.

Agora, a objeção ao Hildebrando. O mundo hebraico pode ter produzido um cultivo do indivíduo e uma forma de defesa da igualdade (nesse último caso, duvido!), mas não são por esses elementos que os professores de história, filosofia, geografia e tantos outros qualificam, em suas aulas, a democracia como democracia. Nem no ensino médio e menos ainda na universidade, no mundo todo.

O conceito de democracia implica sempre a diferenciação entre democracia antiga e moderna. Há uma literatura clássica sobre isso (e conhecida!). Os gregos antigos jamais criaram a democracia com base na igualdade de todos, nem mesmo a igualdade de cidadãos livres. O que eles criaram como democracia, e assim colaboraram no conceito formulado ao longo da história, foi a ideia do debate livre na ágora para solução de problemas. Esse debate era feito em torno de ideias, não de pessoas, inclusive porque os mandatários eram escolhidos no sorteio, não no voto. O voto era para as propostas. Aliás, propostas para tudo. Atenas decidia suas leis na ágora, e nela, a cada reunião, podia rever as leis. A ágora não era uma corte atuante na consulta de um texto de leis escrito, mas quase um tipo de assembleia constituinte permanente. Na modernidade, o liberalismo engravidou a democracia grega e nos deu, então, a noção de democracia liberal. Nesta, por sua vez, as noções de “igualdade, liberdade e fraternidade”, do iluminismo francês e da revolução americana, fizeram carreira. Só então, crescentemente, a democracia passou a ser o regime da liberdade individual e da igualdade. Aliás, no caso da igualdade, na nação mais democrática do mundo, os Estados Unidos, ela só conseguiu ter seu conceito ampliado (portanto, contra o gregos), com a Guerra Civil. Para dizer a verdade, só mesmo com a Luta pelos Direitos Civis, nos anos 60, é que os Estados Unidos começaram mesmo a levar a igualdade a sério. Só então o conceito ganhou concretude. Antes, os americanos estavam presos às histórias de Atenas e Roma, que viam tudo pela marca republicana como o principal. A democracia, nem em sua origem e nem em sua constituição como conceito, se colocou prioritariamente como o regime da igualdade. Ela chegou ao conceito que inclui igualdade tardiamente. Por isso, é um erro cobrar dos gregos a democracia como sendo democracia por conta ou não de igualdade.

Assim, o erro de Hildebrando é, talvez, o erro de achar que peças postas por etimologias possam desprezar peças mais firmes postas por conceitos. Ele pegou o conceito de democracia que não existe, ou seja, errou conceitualmente, e por isso não encontrou, mesmo, nada do que queria encontrar nesse conceito. Procurou a igualdade onde ninguém a colocou. Daí para escorregar e achar alguma coisa que ele queria encontrar, foi um pulo. Pulo do Renato Nogueira. Pulo de canguru manco.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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4 Responses “Agora é a democracia que não é grega é?”

  1. 28/08/2016 at 20:47

    Paulo, talvez para esses tais professores, nem a próprópria Grécia seja grega! Um bom fim de domingo para você.

  2. Matheus Kortz
    26/10/2015 at 10:50

    http://aeconomianoseculo21.blogfolha.uol.com.br/2015/10/25/economia-nao-e-estudo-de-escrituras/?cmpid=compfb

    Só um exemplo do grau de incultira q assistimos hj.

    Parte-se da premissa “fisico nao precisa ler Newton para entender de física”
    E se generaliza a toda profissao, o que seria de um biologo sem ler darwin, ou um advogado sem entender de direito romano?

    O cara tinha que ser professor de economia, soh pra aumentar meu desgosto sobre o curso que faço e o tipo de gente que forma esse curso… porque, deus?

  3. Nenme
    10/10/2015 at 14:15

    É o ciclo de repetição da história, mostrando-se aqui como farsa.

    Quero dizer, não é uma moda recente esse questionamento da gênese dos fundamentos ocidentais produzidos pelos helênicos. É algo que surge no século XVIII, junto à Estética, no campo da filologia e afeta toda a discussão alemã da época, de Winckelmann a Nietzsche, de Moritz a Hegel.

    Em “Symbolik und Mythologie”, de Creuzer, são apontadas muitas evidências de conceitos do Oriente que formariam o caldo da mitologia, dos símbolos e dos ideais gregos. Mas, bem, retornando ao primeiro parágrafo: havia lá um embate real, de dimensões fundadoras da modernidade, em que se contrapunham os pensamentos classicista e romântico.

    As precocidade negativa e falta de erudição não estão, assim, em questionar as raízes helênicas, estão em achar que ninguém o fez e ainda fazê-lo, para ser terminologicamente preciso, porcamente.

  4. Kelson JS
    10/10/2015 at 13:40

    Que eu saiba filósofos deviam ser acrobatas, não mágicos.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo