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29/05/2017

Como ser historiador em tempos de PT?


Para a amiga Janaína Paschoal

Hegel dizia que a filosofia é a apreensão de uma época em pensamento. Nos seus termos: apreende-se a história na interpretação dela, racionalizando-a, dando-lhe sentido. Assim, toda filosofia seria, em suma, uma filosofia da história. Hegel entendia que o filósofo, ou seja, o bom filósofo, realizava assim a tarefa de ser o cineasta contratado pelo próprio Espírito (Geist) do mundo, no desejo deste de se mostrar racional, e não uma tresloucada criança, mais ao gosto de Nietzsche. Certos filósofos abraçaram esse empreendimento, mas o problema mesmo foi quando os historiadores os seguiram.

Seguindo isso, os historiadores criaram, ao menos diante dos olhos de seus críticos, uma história antes justificatória que justificada. Seus críticos, os positivistas (e também os historicistas), passaram a dizer que se o historiadores colhessem mais dados, fossem mais atento aos detalhes, tirassem da cabeça o desejo de passar o trator da razão sobre o trabalho dos homens que fizeram a história, a face do tal Espírito não seria nada espirituosa. Teríamos então uma história profissional, feita antes por historiadores competentes que feita por historiadores filosofantes.

Apesar de Foucault, a história hegelianizante está fora da moda. Também historicismo e positivismo estão fora de moda como nomes, mas isso porque venceram a disputa. A prática profissional do historiador ou é positivista e/ou historicista ou não é nada. Entre o que se pode chamar de dados empíricos, a construção indutiva do historiador deve ser a mais cautelosa possível. Assim, entre os dados da ladroagem do PT e, de certo modo, de Lula, e articulação disso por meio de uma narrativa, com as indicações de Lula para cargos chaves do governo, há realmente um trabalho sério a ser feito. Qualquer reconstrução de tipo hegeliana, nesse caso, pode levar a erros imensos. Mas mesmo a construção positivista ou historicista, nesses casos, não está isenta de tropeçar. O historiador pode gerar uma boa narrativa, se souber escrever. Mas pode criar apenas uma versão de teoria da conspiração, se for mal detetive e um escritor fraco. A diferença entre um e outro, nesse caso, é sutil.

O problema é este: Lula e o PT estão envolvidos sim no “mensalão” e no “petrolão”. Lula e o PT usaram desses esquemas para pegar dinheiro e financiar não só vidas particulares, mas reeleições em vários níveis, em uma amplitude jamais vista. Os dados empíricos levantados pela Força Tarefa da Lava Jato estabelecem o elo entre “mensalão” e “petrolão”, e conseguem também colocar em evidência as provas necessárias para que se configure a verdade de que delitos graves foram cometidos pelo PT e por Lula. Delitos estes que, em parte, tiveram como consequência política adiantada a fragilização de Dilma perante o Impeachment e sua consequente saída do governo. Tudo isso é fácil de ver, pela documentação encontrada pela Polícia Federal,  na atuação conjunta com a Receita Federal, Banco do Brasil e os Procuradores destinados ao caso. O problema está agora na construção da narrativa, na fabricação da história.

A convicção forte que bate em quem olha esses dados é que se trata de um esquema que, ao menos a posteriori, tem a ver sim com a perpetuação do PT e aliados no poder, por um tempo indeterminado. O problema está em avaliar se esse esquema foi montado para tal, a partir de uma cabeça ou de um grupo, ou se o esquema se fez a partir de uma corrupção cotidiana que foi se generalizando e que só vista a posteriori é que realmente dá a impressão de esquema. Um bom historiador, nesse caso, se esforça para que a sua narrativa escape de ser vista como falando de uma teoria da conspiração.

A impressão que tenho é a mesma da dos Procuradores que, no fritar dos ovos, falaram em “propinoduto” com funções de perpetuação no poder, mas ao mesmo tempo não falaram de Lula como “chefe de quadrilha”, e sim como peça que, se tirada do mapa da corrupção, faz com que o mapa “não se explique”. Ou seja: Lula seria o coração do sistema, mas não o cérebro. Seria Zé Dirceu o cérebro? Não! Pois o esquema continuou funcionando após Zé Dirceu ser preso. Resultado: o esquema não tinha chefe, tinha executores nos ramos e um núcleo central distribuidor de sangue, mas não-pensante. Talvez por isso mesmo Lula se ache honesto. O mecanismo de auto-engano que ele lança mão para se olhar no espelho é este: “eu não montei esquema nenhum”. Sim, as coisas foram acontecendo, acontecendo, e ele Lula acordou um dia envolto em uma teia de corrupção que, se não descoberta, lhe seria sempre muito confortável. Não há conforto maior para um político ou grupo político que fazer política sem ter que pensar em buscar dinheiro, pois este está sempre garantido por um “propinoduto”. Os tesoureiros do PT viram que os indicados para cargos chaves faziam a corrupção com as empreiteiras e, então, passaram a colocar o chapéu: “dê o dízimo para o partido que, enfim, o garante no cargo”. Outros partidos, antes do PT, já se envolveram em algo parecido, uma vez no governo. Mas o tamanho da coisa, desta vez, foi fantástico, envolvendo o PMDB, que não é pequeno, e o PP, malufista. O PSDB ficou como oposição comprada esporadicamente – daí o medo de FHC de se insurgir contra Lula em 2005, propondo um Impeachment, e daí o medo dele, agora, novamente, de atiçar o partido contra Lula. Ele sabe que o PSDB pode ser atingido. Ele tem medo de terminar sua biografia na vala aberta por Lula para colocar a própria biografia.

Fazer história não é apenas uma questão de ser um bom detetive, mas de ser um bom construtor de narrativas, um bom cineasta, um bom romancista, digamos. Os Procuradores, uma vez na TV, fizeram o que podiam fazer. Seria difícil fazer melhor, dado a idade deles todos e, enfim, dado o volume de informações. São gente honesta e competente. Mas agora, contra as narrativas opostas, tanto as ignorantes quanto as mal intencionadas, vão ter de vir à carga novamente. Os historiadores profissionais, então, terão de acompanhar tudo, e não se deixarem levar pelos olhares partidários de nenhum modo. Tarefa difícil, mas possível. Os alunos dos futuro, ao lerem tais narrativas por meio de livros didáticos, terão de ver qual posição, na época e depois, ocuparam tais historiadores-autores. Terão de estar mais atentos aos autores dos livros do que normalmente fazemos. Terão de saber que essa época, que agora vivemos, é uma época diferente das outras. Nossa época é uma época em que os meios de comunicação fazem a história acontecer e ser narrada e desnarrada em tempo real. E esses meios de comunicação são não só os de empresas, mas de indivíduos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 19/09/2016

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14 Responses “Como ser historiador em tempos de PT?”

  1. LMC
    20/09/2016 at 15:13

    Queria ver a reação do Fernandinho
    Holliday se soubesse que o DEM dele
    fez uma coligação com PT e o
    PCdoB em Atibaia,onde o Lula
    tem sítio.E o Caiado,então?kkkkkk

    • 20/09/2016 at 19:15

      Eles sabem e muito bem, ou você acha que essa gente leva a sério doutrina. Levam a sério dinheiro.

  2. Marjory
    20/09/2016 at 09:17

    Curso História há 2 anos, antes fiz Letras. Em Letras vi muito Marxismo, menos que em História, claro, mas mesmo assim foi demais. É interessante (e acabei por me interessar mais por filosofia desde então) o quanto uma ideologia pode ser sutilmente inserida em uma sociedade. No meio Historiográfico, quase todos os colegas são defensores ferrenhos de Marx e suas idéias e ideais, consequentemente Lula e PT e tudo que representa a esquerda e seu Socialismo que mesmo fadado ao fracasso bóia em águas turvas feito fezes. Não sou detentora de um conhecimento sem falhas, com certeza sei muito menos que muito estudioso por aí. Mas já escutei despautérios como: ” O Nazismo e Hitler eram de extrema direita!”/”O Socialismo ainda não deu certo porque em lugar algum do mundo ou em época alguma foi aplicado corretamente!”/”O Capitalismo destrói os mais pobres!”/”O Capitalismo mata!”/… – Essas e outras “insanidades” foram e são proferidas por Historiadores que viram pra você, quando confrontados, e mandam você estudar… Ler… “O Manifesto Comunista” e/ou algo sobre a vida de Marx… As primeiras vezes, dado ao meu pouco conhecimento e ao meu tino curioso, eu lia… Uma, duas, três, várias vezes… Nunca em nenhuma delas encontrei algo que corroborasse a favor da justiça, do correto… E nesse ponto a esquerda vem com a questão: “O que é correto? O certo, o bom, o bem para você, não necessariamente o é para o outro!” – Uma questões tão horrenda que faz com que pensemos: “Que diabos a humanidade fez até hoje?” – afinal já deu tempo suficiente para provar que toda essa balela de Socialismo/Comunismo/etc… Não funciona. E mesmo assim historiadores preferem criar uma história que é adaptada ao seu prazer a uma história que lida com fatos. Seu texto, Paulo, está mais que correto e atual.

    • 20/09/2016 at 09:45

      Você escutou “Nazismo é de extrema esquerda”, né? Obrigado por ler.

    • Luciano
      20/09/2016 at 11:52

      Mas já escutei despautérios como: ” O Nazismo e Hitler eram de extrema direita!” hahaha essa foi boa!

    • 20/09/2016 at 11:55

      Luciano, algum ídolo seu pode falar coisa assim. É que você não percebe.Afinal de contas, você só sabe pensar partidarimente, lambendo bunda de midiagogo.

  3. Débora
    19/09/2016 at 20:19

    Sua avaliação política é tão frágil quanto o indiciamento dos Procuradores evangélicos do Paraná. Historiadores trabalham com interpretações óbvio, mas igualmente com provas. E a maior parte da comunidade historiográfica admite que se trata de um golpe de Estado. Você que é filósofo não tem este compromisso. Pode voltar às suas conjecturas, junto a alta intelectualidade brasileira, Janaína Paschoal e Sérgio Moro.

  4. Luciano
    19/09/2016 at 08:42

    Janaína considera Olavo de Carvalho um grande filósofo.

    • 19/09/2016 at 09:08

      Luciano! O que eu tenho a ver com isso? Acho que você tem problemas heim? Será que as pessoas que não são do meio precisam saber de tudo? Conheço gente boa que acha que Karnal não é um picareta. As pessoas avaliam outras pelo grau de informação que recebem daquela pessoa. Você não consegue entender isso? É difícil? Sabe, Luciano, eu fiquei com a impressão de que você tem algum problema psicológico grave.

    • Luciano
      19/09/2016 at 11:27

      Na minha graduação li um livro do Karnal sobre a história dos Estados Unidos e um artigo no livro História da Cidadania. Não tem picaretagem nenhuma. Dos tempos que você ta falando do Karnal, Paulo, acho que você ta querendo a atenção dele, mas num vai ter não pelo visto hahaha

    • 19/09/2016 at 11:53

      Luciano, sinceramente, acho que você não sabe o que os filósofos fazem. Vou contar um segredo de Polichinelo: eles criticam. Fiz um vídeo para pessoas com você, Lu: https://www.youtube.com/watch?v=dTvTs9E0lI0

  5. Emisson
    19/09/2016 at 08:36

    Muito bom!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo