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27/03/2017

Como e por que morreu o militar torturador?


Como transcorreram os últimos minutos do sósia brasileiro de Sadam Hussein? Aquele fantasma saído das catacumbas de uma ditadura que se recusa ficar para a história, passou seu tempo final buscando desesperadamente o ar. O mesmo ar solicitado um dia, talvez de forma muito mais agonizante, pelo deputado Rubens Paiva. Esse ar aí, gratuito, que todo mundo bota pulmão adentro, foi negado a outros mais jovens e mais velhos que Paiva. Esse ar faltou para Malhães. Ele morreu asfixiado. Morreu matado.

O símbolo de 1964 não tem de ser Castelo Branco ou Lacerda. Nem o “ame-o ou deixe-o” de Médici. Nem mesmo o “Dops” ou o “S” de “Sistema”. O General Newton Cruz? Ora, que bobagem! E o Coronel Erasmo Dias? Bem, esse teve lá sua utilidade, foi até à URSS e voltou de lá encantado. Disse então que ele havia adorado o regime soviético, e que seu único defeito era o ateísmo! A esquerda daqui não comentou! Todos esses pigmeus … eu os poria em segundo plano. “1964” deve ser representado por Malhães. Que vida exemplar a dele!

Malhães torturou e matou. Viveu obscuro quando estava por cima. Viveu obscuro quando ficou por baixo. Mas há algo entre os fanáticos que um dia os trai. Eles possuem um estranho tino para a militância, mais cedo ou mais tarde precisam assinar a obra, e então se revelam e acabam buscando ter ainda um restinho de prazer. Identificar túmulos e mostrar lugares onde fez seu poder minúsculo ser posto em “caps look” é o único modo de ter uma última ereção. Nessa hora, o historiador e a Justiça precisam estar de orelha em pé. O monstro sairá da toca. Quando deu sua hora, como ocorreu com tantos outros, Malhães saiu de seu buraco mais ou menos como sua forma matriz foi resgatada na Guerra do Iraque.

O filósofo romeno Cioran escreveu sobre o seu medo e desconforto diante do fanático. O fanatismo é falastrão, histriônico, mas às vezes é também dissimulado, procura de toda maneira se mostrar como uma não-militância. Sabe aquele rapaz que escreve sempre dizendo que vai falar de sexo e fala de política? Sabe aquele que se diz liberal, escreve se afirmando liberal, mas é um fanático da direita? Esse é o semi-Malhães. Mas já aponta para a existência de Malhães. Nosso monstro não fala nada. Não dissimula como o colunista fanático. Um dia, fala tudo de uma vez. É o colunista de um artigo só.

Durante os minutos finais em que buscou o oxigênio desesperadamente, Malhães imaginou que Rubens Paiva iria reaparecer ali para lhe salvar e ao mesmo tempo rir dele? Não! Hannah Arendt nos deu Malhães de bandeja ao ter traçado o perfil de Eichmann: apenas um burocrata da morte, incapaz de pensar. Um medíocre. Todavia, para o nosso retrato ser realmente o de Malhães na hora da morte, é necessário saber que ele veio prestar o depoimento diante da Comissão da Verdade e poderia ficar calado, mas não ficou. Ele não ficou porque, diferente de Eichmann, ele tinha a genética de autêntico fanático. Foi umm homem realmente de direita, como a direita realmente é. Ou seja, ele se sentia fazendo parte de alguma coisa maior. O quê? O “S”? Risos – sim, hoje né? Mas, para Malhães, o “S” foi uma luz metafísica jamais apagada. Não se sabia quem era, mas se falava dele, desse “S”, como nos cursos de Teologia se falava do objeto de estudo, ou como alguns filósofos ainda falam de sua própria matéria, a Verdade.

Caso possamos dizer que os homens de direita, como é a tese atual, não sabem o que fazer com mulheres e que são efetivamente frustrados sexuais, Malhães então buscou à toa sua última ereção, vindo a público falar o que 1964 efetivamente fez? Sim e não! Talvez ele tenha apenas obedecido – e nisso obteve prazer – o tal destino sacaninha que já estava planejando o desfecho irônico, o de envolvê-lo num final trágico, besta, e capaz de alimentar as coisas mais bestas ainda, que são as “teorias da conspiração”.

Está lançada a sorte de “1964”.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez)

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18 Responses “Como e por que morreu o militar torturador?”

  1. jeferson
    06/01/2015 at 13:54

    Os militares precisam voltar e prender todos estes políticos ladrões novamente, e acabar com esta bandidagem, Saudades dos militares !!!

    • 06/01/2015 at 15:51

      Jeferson essa sua saudade dos militares é saudade do cano do revolver entrando na sua bunda. Mas vou alertar: os militares são bichas passivas.

  2. Guilherme Gouvêa
    27/04/2014 at 12:13

    Tem uma turma que, por ter vivido na pele os “anos de chumbo”, insiste em ser monotemática. A revista “Caros Amigos”, por exemplo, só tinha este tema como chamada de capa. Até ganchos improváveis, como a celebração dos 100 anos da imigração japonesa, servia para o propósito: do Kasato Maru, o foco da matéria passou a ser os sanseis e nisseis que lutaram contra a ditadura (como o Gushiken).

  3. Cesar Marques - RJ
    26/04/2014 at 20:23

    *Uma pequena curiosidade sobre o Coronel Erasmo Dias que o senhor citou no seu texto:

    Segundo o site CPDOC-FGV, ele era formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e ao fim do Regime Militar, teve uma longa carreira como Deputado Estadual em São Paulo (primeiro pelo PDS, e com a posterior divisão desse partido, pelo PP).

    • 26/04/2014 at 21:00

      Cesar, não é uma curiosidade isso! Investigue e vai saber o óbvio.

  4. Lauro Rocha
    26/04/2014 at 18:48

    A questão é que isso mostra que há grupos paramilitares na ativa, querendo calar qualquer busca de verdade e intimidar novos “delatores”.

    • 26/04/2014 at 21:03

      Lauro, leia o final do meu texto.

    • Lauro Rocha
      26/04/2014 at 22:00

      Li. E mantenho meu comentário.

    • 26/04/2014 at 22:51

      Não tenho o direito de escrever coisas que você afirma, pois se eu endossasse essa sua tese eu não escreveria nada. Eu não teria qualquer vontade de escrever.

    • Lauro Rocha
      27/04/2014 at 15:45

      Nem precisa, Paulo. Eu nem gostaria. O legal não é ler e falar “sim senhor”.

    • 27/04/2014 at 17:04

      Lauro, há os que gostam de falar sim senhor para tudo. Há os que gostam de falar sim senhor só para o que está certo.

  5. Cesar Marques - RJ
    26/04/2014 at 17:42

    “Sabe aquele rapaz que escreve sempre dizendo que vai falar de sexo e fala de política? Sabe aquele que se diz liberal, escreve se afirmando liberal, mas é um fanático da direita? Esse é o semi-Malhães.”

    Semi-Malhães = Pondé?

    • 26/04/2014 at 21:04

      Cesar, não rebaixaria meu amigo Pondé a isso.

    • MARCELO CIOTI
      28/04/2014 at 12:12

      César Marques,não confunda o
      Pondé com a falecida Hebe
      Camargo,aquela do “Cansei”.

    • 28/04/2014 at 13:07

      Marcelo, o Pondé é que está querendo se confundir.

  6. MARCELO CIOTI
    26/04/2014 at 12:00

    Veja que interessante.O Vladimir
    Herzog que morreu torturado,
    era judeu.Enquanto os
    descendentes de árabes
    Maluf,Amin,Abi-Ackel,Buzaid,
    Nabi Abi Chedid,Kassab
    apoiaram o regime militar.
    Já a nossa esquerda não
    diz que o socialista Ben
    Gurion fundou Israel,por pura
    conveniência.Ela acha que
    todos os judeus no Brasil
    são ricos e moram em
    Higienópolis….

    • 26/04/2014 at 12:01

      Marcelo Cioti, não viaja! Tá demais isso.

    • Guilherme Gouvêa
      27/04/2014 at 12:03

      Marcelo, no Brasil essas disputas étnicas regionais se dissolveram no processo histórico, a um por conta da miscigenação, a dois pela perda de sua referência geopolítica remota: não existe essa extensão do conflito árabe-israelense como colocado, nem entre italianos provenientes do norte X sulistas, nem entre zulus X bantos…

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo