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22/10/2017

Comendo placenta, com gosto!


Para minha amiga Isabella Callia

Há sim uma modinha atual de comer placenta humana. Em alguns lugares dos Estados Unidos a linha da gourmetização já avança também por esse nicho. As revistas brasileiras fizeram um pouco de alarde em 2013 e 2014 sobre o assunto. Em 2015 menos, mas no exterior a prática continua andando.

Os jornalistas dessas revistas tentaram historiar a tal prática e, claro, remeteram o tema para as comunidades naturalistas americanas – herdeiras do movimento hippie – dos anos setenta e oitenta. O jornalismo consegue sair pouco de seu próprio umbigo geográfico e histórico, então, não faltaram nas reportagens as justificativas médicas para se comer a placenta, e que estariam apoiando o novo apetite de Kim Kardashian. Afinal, a placenta conteria substâncias capazes de diminuir os efeitos da chamada “depressão pós-parto” e, como em outros mamíferos já comumente adeptos do ritual, favoreceria o fortalecimento geral e a rápida diminuição do útero. Não à toa, portanto, há quem prefira ingeri-las em cápsulas (sim, já existe!) (vejas as figuras abaixo do texto)

Segundo essas reportagens, naturalismo e uma dieta à base de placenta poderiam trazer a mulher para o time das que devem ser sempre felizes, com corpos que atraiam olhares, mesmo sendo mães – ou melhor, efetivamente por serem mães! Os maridos? Também podem degustar a placenta. Por que não? Ainda que seja só por companhia. Não é difícil conseguir chefs que façam placentas de diversas maneiras, ao menos nos Estados Unidos e Europa –, e as receitas estão espalhadas por aí. Mas, na verdade, devorar placenta tem pouco a ver com novidade, saúde, medicina chinesa ou vida hippie. Nossa relação com a placenta é mais complexa.

Levi Strauss notou a prática de comer placenta entre nossos índios. Os primitivos comiam placentas. As grandes civilizações antigas foram não só comedoras de placenta, mas plantadoras de placentas em árvores que deveriam acompanhar o crescimento da criança companheira da placenta. Na verdade, pelos achados da “arqueologia da intimidade” de Peter Sloterdijk, como ele descreve no seu livro Sphären I – Blasen (Suhrkamp Verlag, 1998), a placenta foi travesseiro de faraós e decididamente seu uso em porta-estandartes serviram como origem do que hoje chamamos de bandeiras ou bandeiras nacionais. Não era incomum entre egípcios alguns grupos se identificarem a partir da exibição, como bandeiras mesmo, das placentas de faraós. Cada clã com sua placenta mais significativa!

Claro que isso está ligado a uma situação em que o lugar da verdade não é o transcendente, ou seja, a casa do pai, mas um lugar anterior, que é o útero da mãe – o imanente. “Você é quem?” “Ah, sou daquele lugar lá – de lá sou verdadeiramente eu”. E o “lá”, nesse caso, é um útero, daí se apontar para o parceiro do bebê (que agora é o faraó), ou seja, a placenta que esteve com o mandatário durante nove meses (ou sabe-se lá quanto!). Sloterdijk mostra como que gênios, daimons, anjos da guarda etc. nunca foram outra coisa, na antiguidade, que substitutos dessa parceira chamada placenta, que ganha outro destino após o nascimento do bebê. Somos todos gêmeos. Somos todos, portanto, preparados sinestesicamente para relações que, enfim, depois se tornam mais e mais simbólicas, movimento este que dá a linguagem e, enfim, nossa alma. Assim, o modelo de subjetividade de Descartes, o cogito solitário, e o modelo de intersubjetividade Habermas, de relações forjadas pela linguagem, devem abrir espaço para um modelo de subjetividade gerada a partir de uma “ontologia do dois”.

A cultura moderna, com o individualismo – Rousseau à frente –, desvinculou-nos dessa nossa condição de gêmeo, tirou a vida da placenta e a reduziu a um pedaço de carne inútil que ganha então a função de lixo hospitalar. Entramos por um niilismo placentário profundo. Perdemos algo e não sabemos o que é. Aliás, nem sabemos que perdemos. Isso até impede inclusive qualquer luto ou melancolia. Mas, se pensássemos um pouco mais iríamos notar ou que Martin Buber percebeu bem, que nascemos com “instinto de relação”. Ora, de onde viria isso se não da nossa vida uterina? Deveríamos nos lembrar de Lao Tsé, que ficou oitenta anos no útero da mãe. Viemos da caverna, mas nossas metáforas visuais da filosofia e da ciência nos disseram outra coisa, que só aprendemos quando estamos sob a luz.  Nada disso! Foi em companhia da placenta, do líquido amniótico, do alimento fácil, da voz ao redor e de nossa capacidade de filtrar sinestesicamente outros barulhos do corpo da mãe, que nos criamos para sermos seres de relações. Os antigos tinham melhor essa percepção que nós. Para nós, há somente a barriga e um já indivíduo dentro dela, o bebê, que, aliás, surge por mágica: ou é nada, que pode ser abortado, ou já é tudo, que já ganha nome. De um dia para outro há não um ser qualquer, mas um indivíduo! Mágica pura. Até médicos andam acreditando nisso!

Comer a placenta, então, é um dos rituais inúmeros da antiguidade, que adentrou pela Idade Média, quase que numa forma clara de aceitar a substituição da placenta pelo gênio, daimon, anjo da guarda, “amiguinho” etc. É como ter dois filhos e não perder nenhum, ainda que um deles tenha de ir embora. Assim, um fica guardião do outro “em espírito”. Este que se espiritualiza tem seu corpo, a placenta, devolvido para o interior da mãe e de parentes e amigos. Não raro, o clã todo deve absorvê-lo.

Não comeremos nunca mais a placenta senão enquanto bife mesmo, pois a modernidade nos fez ser produto dessa magia tresloucada: um dia podemos ser abortados porque não somos nada, e noutro dia já temos até carteira de identidade no útero e, enfim, direitos de processar o Rafinha Bastos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

Figura 1: Útero – arte de Anish KapoorArt of Anish Kapoor

Figura 2: Pílulas de Placenta

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Figura 3: Bandeiras de Farós com suas placentas

Placenta farao

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3 Responses “Comendo placenta, com gosto!”

  1. Falso Profeta
    06/11/2015 at 14:52

    Depois que o deus cristão não deu as caras pelo final dos anos 90, 2006, 2012 e passou a ficar desacreditado, nossa espécie busca outras formas de estimular sua psique “espiritual”. Saudade da “caverna de Platão”? Talvez o mito da caverna seja um eco dessa história da placenta que chegou ao filósofo de outra forma. Buscamos tanto a segurança da nossa caverna-placenta que nem nos damos conta do absurdo que vem tomando conta do mundo real. O Estado laico se tornando teocrático, a corrupção de valores tidos como fundamentos da sociedade moderna, a insegurança crescente, o medo da velhice, da morte, o crescente culto à eterna juventude. As culturas antigas também queimavam crianças em honra às forças da natureza, tal prática tem se tornado corrente no mundo ocultista ultimamente, basta olhar o noticiário. O que parece patente é a degeneração da mente humana contemporânea com toda a nossa cultura, história, filosofia, medicina, em suma, apesar de toda a nossa ciência. E buscamos no nosso ancestral macaco as respostas para os problemas do homem moderno. Mas o tempo não volta atrás, o que é do passado não funciona no presente, voltar para as árvores não é a resposta, nem voltar para a caverna, muito menos para a placenta. Percebo um futuro sombrio no qual a sociedade irá passar por um funil, uma peneira, só não sei o que irá emergir do outro lado, uma sociedade mais forte ou algo destrutivo como nas histórias do gênero “Mad Max”, uma coisa é certa, a tendência é piorar.

  2. Maximiliano Paim
    03/11/2015 at 20:13

    Aqui no sul se diz que se enterrou o umbigo (em verdade o cordão umbilical) no local onde se há nascido.

  3. Matheus
    03/11/2015 at 16:30

    Eu me espanto com essa facilidade de adoção de práticas tresloucadas na nossa contemporaneidade como certo anacronismo (porque nossa mentalidade, moral e ethos já não conseguem comportar mais certos ritos, como vc bem colocou, sob uma ótica produtivista, comercial). Digo isso porque esses dias vi uma reportagem de que nos EUA estavam criando animais para “caça humana”, em que nós os “carnívoros” por algum ressentimento, mas ainda vontade de comer carne, pagamos para ir numa granja e soltar um animal (que provavelmente não viver lá muito diferente de qualquer outro que vai parar no açougue) e então o caçarmos, e ficarmos ao lado dele enquanto agoniza, para depois o criador ou um funcionário do criadouro limpá-lo e o levarmos para casa, para comer. Nada irá de fato diminuir a dor do animal, ou melhorar sua vida, e ficarmos assistindo-o morrer, por mais que justifiquemos que é um mal necessário, não conteria nenhum conflito ético com relação a um certo possível prazer em visualizar e (talvez degustar) o sofrimento do bicho? Eu até tentei ver essa nova adoçao metodologica de sacrifico com bons olhos, mas não deu…

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