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23/07/2017

Ciências humanas em crise – qual crise?


No contexto da Revolução Francesa, surgiu o que hoje denominamos “esquerda” e “direita”. Historicamente a esquerda nasceu como o partido dos com poder e a direita como o partido dos sem poder. Ainda no contexto francês revolucionário a direita passou a ser o partido dos com dinheiro e a esquerda o partido dos pobres. Mais tarde, já no século XX, a esquerda transformou-se factualmente no partido dos trabalhadores, mas não necessariamente dos mais pobres. O que era o lumpenproletariat adquiriu vários formatos, viraram os degradados, os miseráveis, e nem sempre aderiram à esquerda. Não raro, esse grupo serviu como “massa” para partidos de direita no estilo do nazi-fascismo. Depois da II Guerra Mundial, esse grupo alimentou o populismo, à direita e também à esquerda.

Junto dessa descrição, é necessário colocar alguns elementos valorativos. Enquanto os nobres se mantiveram hegemônicos socialmente em termos de ideário, gostos e estilos de vida, o trabalho foi tomado como algo indigno e o liberalismo tanto econômico quanto político como alguma coisa moralmente deprimente. Depois, com a ascensão da burguesia, o trabalho, o empreendimento e o liberalismo econômico e, não raro, também o liberalismo político – no sentido dos direitos individuais – ganharam prestígio. A religião cristã acompanhou o movimento social então nitidamente classista. Protestantes e homens da Contra-reforma souberem lidar com o capitalismo nascente, incentivando conquistas dos mais ricos. Mas o cristianismo, por razões próprias de sua origem, é uma religião com vocação popular, e deu às classes trabalhadoras o que elas precisavam, mais que o próprio ideário socialista vindo do marxismo ou do laicismo anarquista. O cristianismo popular soube ampliar as forças do liberalismo em favor dos direitos individuais dos mais fracos, dos pobres. Não raro, trouxe a ideia de que, numa competição, para sermos justos temos de torcer pelo mais fraco. Na transição do século XIX para o XX a “moral dos escravos” já estava como verdadeira moral, uma observação célebre de Nietzsche. É o que entendemos como modernidade. De um modo geral o liberalismo renovado e a social democracia dizem isso: independentemente do que o pobre e o mais fraco fazem, é a favor deles que devemos agir, se quisermos ser moralmente bons.

É assim que entraram para o time dos a priori defendidos não só os trabalhadores, mas também as mulheres como mulheres, as crianças, os fetos, os estrangeiros, os “diferentes”, os animais (e plantas) e daqui a pouco os robôs. Ficarão de fora só as baratas que, enfim, são os mais fortes – só elas sobrevivem ao fogo nuclear. Só os energúmenos escrevem artigos cobrando dos defensores de animais o comprometimento com as baratas.

Os partidos de esquerda tornaram-se, então, os agrupamentos políticos dos valores cristãos de base em favor dos pobres, dos valores marxistas (revolucionários ou social-democratas) que abençoam a importância do trabalho e a redistribuição de rendas, dos valores do liberalismo renovado que insiste nos direitos civis individuais e nas cartas de direitos humanos em favor de minorias e resguardo diante de crimes do estado contra os indivíduos. É nesse contexto que se desenvolveram e estão deslizando as democracias ocidentais. Por tudo isso, elas se tornaram os mocinhos da história. A direita se tornou a vilã, claro. E os fundamentalismos do outro lado, não raro, são tomados pela direita e pela esquerda ocidentais como muito vilãos e como mais ou menos vilãos. A moral aí se submete mais determinadamente à geopolítica.

A sociologia se desenvolveu nesse quadro, posterior à Revolução Francesa. Portanto, ela nasceu para falar de relações sociais de sociedade industriais, e com a pretensão de virar sociologia política, alimentar a ciência política, e ter descrições mais acuradas que a filosofia política. Afinal, esta, sempre contrariou o positivismo mais radical, uma vez que era normativa em teoria (Rawls é bom exemplo) e crítica severa em forma de utopia (as utopias clássicas continuam válidas nisso, bem como as mais recentes, ultraliberais, como a de Nocick). Por isso mesmo, pela sociologia ter nascido muito atrelada a um tipo de vida, política, gostos e moral, ela é a área das ciências humanas que mais está em crise, a área menos produtiva no sentido imaginativo, diante das mudanças as últimas décadas. É nela que encontramos o esquerdismo mais infantil ou o direitismo mais tosco ou então um anacronismo arraigado que alimenta, não raro, a “política de minorias” no que estas possuem de reivindicações corretas lambuzadas de análises e fundamentos fracos ou incorretos. Tudo isso porque os fenômenos que discutimos durante os últimos 40 anos sob o nome geral de “pós-modernismo” e afins, não foram possíveis de serem absorvidos de modo inteligente por essa área. Ela perdeu o pé o nitidamente.

A sociologia ou, de modo mais amplo, as “ciências sociais”, são o lugar da proliferação de vulgatas, inclusive as “líquidas”! Tudo escorre como água nesse campo. Mas, água boa ou não, todo líquido sempre vai para o esgoto.

A filosofia se salvou dessa crise que, enfim, é a crise da sociedade do trabalho e da modernidade, que temos anunciado e dissertado desde o final dos anos setenta, de Lyotard naquela época, passando depois por Rorty, Derrida, Foucault, Davidson, Deleuze, Habermas, e chegando hoje a pensadores como Sloterdijk e Thomas Macho. A filosofia se salvou porque encontrou a possibilidades de continuar alguma narrativa capaz de validade mesmo após a “morte de Deus”, ou seja, o fim da metafísica mais durona. Mas o equivalente da “morte de Deus” para a sociologia, ou seja, as incertezas sobre se estamos ou não vivendo em uma sociedade do trabalho, não deu a mesma chance à sociologia. Por isso vemos historiadores e antropólogos falarem boas coisas quando eles leem filósofos, e vemos sociólogos não conseguirem ter algo a nos dizer, porque eles ainda continuam lendo a eles mesmos. Encheram a ciências humanas de jargões e contribuíram para a má formação dos jornalistas de hoje em dia. Isso sem falar de como torceram tudo ao alimentar as narrativas sobre políticas. Aliás, como deram vazão às intolerâncias!

Nesse contexto de crise da sociologia, que é o que vivemos, parece que a filosofia teve de retomar o que vinha fazendo Dewey por um lado e os frankfurtianos por outro, ou seja, filosofia social. É um campo no qual há hoje alguma vida. Nesse campo, salta aos olhos o caráter de literatura especial que é a filosofia, e sua assunção de que sua narrativa tem algo de fantástico, fantasioso, que escapa aos cânones de ficar tendo de decidir se é um romance ficcional ou se é um discurso científico positivo e positivista. A filosofia conseguiu saltar essa dicotomia. Talvez Platão, ao inaugurar a filosofia como narrativa, já tenha desde o início feito isso. Assim, a filosofia analítica virou um estilo (como Rorty deixou bem assinalado), e a filosofia continental, por sua vez, virou algo que mescla história das ideias com hipóteses de todo tipo, buscando um linguajar assumidamente metafórico nutrido por informações de todo tipo de conhecimento. Peter Sloterdijk tem feito bem isso.

No âmbito da política, então, podemos ainda falar em classes sociais e políticas de direita e esquerda atreladas a interesses classistas, mas isso ganhou um tom não mais cientificista do tipo daquele inaugurado no século XIX e tornado oficial na Academia de Moscou do tempo da URSS. Isso passou. Passou sim, mas o novo ainda não se popularizou. Ainda há muito estudante de ciências humanas que não viu o drama do pós-modernismo. E há professores assim também, carcomidos em dogmas. Inclusive a imprensa se tornou o lugar especial desse tipo de gente. Como há profetas professores em jornais escritos ou televisivos! E que chatos! Há agora os deslumbrados que gritam “eu sou de direita”. Não sabem que estão mais ridículos que aqueles que gritavam “eu sou de esquerda”. Só militantes podem gritar assim, com alguma legitimidade. Mas o campo da pesquisa e do ensino não deve ser o campo da militância, porque precisa ser o campo da inteligência.

Há muita gente na sociologia que precisa ver, de modo ainda que atrasado, o Adeus Lênin. E não estou falando isso para os da esquerda repetitiva não. Estou falando para os da direita, os já chamados “os novos analfabetos”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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8 Responses “Ciências humanas em crise – qual crise?”

  1. Eduardo Rocha
    18/08/2016 at 17:25

    Paulo, desde que me entendo por gente sempre escuto que “o mundo está em crise”. Crise do Estado, crise na política, nos partidos, crise da escola, da saúde, crise nas instituições, crise na família. Na Filosofia essa palavra possui alguma outra conotação da que o senso comum utiliza ? (como algo falido, não funciona corretamente ou ausência). Com a sua Filosofia do “desbanalizar o banal” de ver o que se tem nas mãos, enxergando antes o que está sendo visto do que enxergar algo escondido. A “crise” se tornou algo banal?

    • 18/08/2016 at 17:31

      Eduardo, trata-se de “mudança”, “ruptura”, “decisão”. Termo que invadiu todos os campos, oriundo da medicina, de quando há uma mudança em estado de uma doença. Não estamos em crise sempre. Não creio que exista uma banalização, nesse caso.

  2. Kaio Petterson
    24/10/2015 at 01:27

    De fato a metodologia de Comte, Durkheim e Marx, mergulhados no positivismo não é capaz de sair de seu contexto de origem para observar os novos tempos. A sociedade se complexificou de tal forma, que analisá-la pelo todo se tornou uma tarefa difícil.
    Porém a estratégia de Weber, influenciado por Kant e Nietzsche, de formar um tipo social e depois comparar com os fatos para ver se aproxima ou se distancia, já é um método que tem como objetivo a aproximação e não a “Verdade absoluta” como apregoavam os positivistas.
    Por mais que Weber tenha criado seu método para analisar a modernidade, o método em si é pós-moderno. Weber parte do sujeito e não do objeto como os sociólogos anteriores.

  3. Julio Calleja
    14/10/2015 at 18:20

    Professor, assim como nesse texto, em outro você diferenciou muito bem a diferença entre Filosofia Politica e Ciência Politica, não será que a grande cilada em que as Ciências Sociais se meteram, sobre a égide da Sociologia(Durkheim) não foram se autoproclamarem e se considerar ciência?, Em busca do método do “fator social” mas como Popper no seu “Conhecimento Objetivo” percebeu que o Marxismo e (me atrevo a concluir que tudo que veio na esteira) não é ciência por não darem margem a falseabilidade? Dessa forma omitindo seu caráter imaginativo como origem(filosofia politica), por considerarem objetiva mas sem o espirito da falseabilidade, descambam pra doutrina, ou seja como você demonstra, nem filosofia e nem ciência.

    • 14/10/2015 at 20:16

      Julio! O que Popper fez é o correto. A aplicação dele ao marxismo era só sacanagem. Claro que o marxismo nunca se colocou como ciência para quem não era comunista de mentalidade do século XIX, mentalidade positivista.

  4. 09/10/2015 at 15:35

    professor, o Pondé escreveu algo sobre isso, usando a figura do samurai como analogia, apenas para discorrer sua real preocupação diante da discussão sobre a sexualidade e o gênero, certamente um ato falho do Pondé. segundo ele, o Japão está querendo acabar com a catedra de ciencias humanas. daí a querer usar o samurai para dar vazão à sua insegurança sexual, para mostrar que ele é “espada”, como ele reagiria ao se dar conta que a flor de cerejeira é o simbolo do samurai? ou o fato de que o samurai se maquiava antes de ir em batalha? será que Pondé sairia do armario ao se dar conta que uma espada de samurai, a katana, é tão afiada como a navalha, arma das minorias que ele despreza? ou talvez devamos dar uma ajuda a ele, lembrando que a gilete substituiu a navalha por que corta nos dois lados? ou devemos deixar junto com os meninos que não amam as mulheres?

    • 10/10/2015 at 11:04

      Roberto, faça isso. Mas não espere resposta pública. A covardia do Pondé é patente, nunca responde publicamente, mas o faz de maneira privada. É a pior espécie de covarde.

  5. Luh
    06/10/2015 at 20:29

    Muito bom o texto!
    O filme “Adeus, Lênin!” é excelente, ri com muitas cenas, aquela da Coca-Cola então hehe

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