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24/04/2017

Calligaris, o único pessimista inteligente


Calligaris é um dos nossos melhores ensaístas populares. Ele é uma década mais velho que eu e duas décadas mais velho que os que, mentindo, dizem terem vivido os anos 60 e posam agora de “os mais velhos”. Atualmente são as pessoas entre setenta e oitenta anos que realmente viveram a revolução dos Sixties. Calligaris qualifica essa época, baseado em um amigo que ele diz, significativamente, que morreu de AIDs nos anos 80, como o tempo da única verdadeira revolução, aquela que não perseguiu ninguém (Folha, 15/12/20116). Ele e este seu amigo falaram corretamente. Estão certos.

Quem viveu os anos sessenta como jovem, e quem os viveu como jovem nas suas radicalizações mortíferas dos anos setenta (a época do terrorismo e das drogas), estando eu nessa segunda categoria, têm uma oscilação menor de humor, mas não menos diferente da que percorre a mente e o coração de Calligaris. Lembro que Richard Rorty morreu com a sensação que hoje atinge Calligaris, a de pessimismo diante do mundo, citando Trump como um marco da desgraça que existe e que pode nos dar coisa pior. Rorty estava diante de Bush. Não viveu os oito anos de progressismo de Obama. O presidente negro deu ao mundo novas esperanças.

Obama fez dos Estados Unidos uma economia melhor, rearticulou a América aos aliados tradicionais, impôs uma política de busca de paz e conciliação, recriou um visão austera da Casa Branca, deu cabo de Bin Laden sem despertar uma retaliação terrorista (um feito inacreditável), impôs sanções à Russia diante das estripulias populistas de Putin, obteve um sensacional acordo com o Irã. Mais que tudo isso, trouxe para boa parte da classe média americana a sensação de que uma família simples como a dele podia sim ocupar a Casa Branca, e isso pela democracia. Claro que Obama não fez tudo que queria: e várias vezes lamentou isso. Não reduziu o poder de compra de armas nos Estados Unidos, não fechou Guantânamo, não  conseguiu recuperar economicamente a classe trabalhadora branca dos lugares decadentes, não resolveu o problema da imigração ilegal e nem obteve muito sucesso diante do reaparecimento do confronto racista nas ruas. Além disso, perdeu espaço na Síria e o atoleiro do Afeganistão não foi de todo evitado. Por fim, viu ressurgir dentro do Partido Democrata a sombra dos Clinton, o que havia de velho e carcomido na política liberal americana. Assim, não fez o sucessor. Mas é impossível dizer que Obama saiu derrotado da Casa Branca. A América e o mundo só ganharam com ele. Obama desmentiu por oito anos Calligaris e Rorty. Mas Trump está aí e Calligaris conseguiu até pensar de novo na tal Bomba Atômica! A Bomba Atômica é algo como a peste negra ou o Terremoto de Lisboa, pertencem à Fortuna medieval.

Sentir agora, diante de Obama, ou mesmo dos abestalhados e abandidalhados do lado de cá, como FHC, Lula ou Dilma ou Temer, que o mundo pode acabar, tem a ver com algo bem objetivo, claro, mas é ainda um sentir: mero subjetivismo que, na verdade, pode ser curado com alguma paroxetina. O mundo não ficou pior do que já esteve para quem, nos anos 80, diante da AIDS, da “peste gay”, ouvia Reagan dizer (aliás corretamente (!)), que a URSS era o Império do Mal. Ou seja, conforme o momento, os que viveram os anos sessenta, sempre depois tiveram motivos para dizer, de algum ano ou meia década, que “vai tudo se acabar”. Mas esse pessimismo não é bom. Ele pode se esconder no biombo de um realismo e, então, dar origem aos que dão palestras da contra-auto-ajuda atualmente. Os que, com um ar blasé adrede preparado, fingem ser intelectuais, e para tal falam de curar a ingenuidade otimista de outros, convidando então todo mundo a ser cínico para posar, com ele, de intelectual. Calligaris é um dos poucos pessimistas que conheço que não faz isso, aliás, é mil anos luz vezes melhor que qualquer um que faça esse tipo.

Mas, se Calligaris é o profeta do retorno do sentimento do niilismo que pode sempre nos dominar em algum domingo à tarde, quando tudo está parado e nós, com a boca escancarada, aguardamos o Fantástico, ele o faz de um modo diferente dos de ar blasé. Ele não cede à ignorância. Sua reflexão tem aquilo que os realistas não tem: ele nunca diz “o mundo é assim”, ele nunca dá uma de douto ou, melhor, falso douto. Ele não faz como outros colunistas por aí. Ele asseguradamente escreve como quem tem realmente dúvidas, e isso é uma parte de seu charme. A outra parte não vem da cultura, mas da natureza, a natureza italiana.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 15/12/2016

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9 Responses “Calligaris, o único pessimista inteligente”

  1. Emisson
    15/12/2016 at 11:28

    Olá professor.Qual a relação entre pessimismo e tragicismo?

    • 15/12/2016 at 14:22

      Realismo, pessimismo e tragicismo. Três coisas que vão bem em literatura, mas tendem a criar pseudo-filosofias, por razões óbvias. Há textos meus sobre isso por aqui.

    • Emisson
      15/12/2016 at 15:03

      Obrigado professor.Aproveitando sua resposta sobre literatura especificamente,mas sem divagar do assunto,emitir-lhe-ei outra indagação.O naturalismo seria outra vertente literária que se enquandra num pessimismo? O senhor como filósofo,como trata estas vertentes trágicas alheadas a literatura? Como consiste o seu célebre método filosófico de “desbanalização do banal” como está no seu bom livro filosofia como crítica da cultura.Como o monstro filósofo trata o tragicismo? Nietzsche era trágico,ou tinha tais características? Ou não, Nietzsche é mais complexo do que imaginamos?

    • 15/12/2016 at 15:13

      O trágico na literatura é uma fórmula simples. Se quisermos transportá-lo para a filosofia, é preciso fazer mais do que a simples cópia, e tenho dúvidas que isso faça efeito. Veja o pensamento do eterno retorno: é trágico? Sim! Mas quão distante já está do trágico, pois é um postulado ético. É uma cosmologia com o objetivo de falar de um imperativo ético assim: “viva esse momento como se ele tivesse de ser repetido mil vezes” – você consegue? Então, aí sim, o tragicismo vira algo de gente grande. Mas, cá entre nós, isso não é para todo mundo. O tragicismo não é para discípulos, muito menos para palestrante.

    • Emisson
      15/12/2016 at 15:13

      Outra coisa professor que me esqueci de perguntar.Qual o nome dos seus textos referentes ao assunto?

  2. LMC
    15/12/2016 at 10:43

    Obama não fechou Guantanamo porque
    o Congresso dominado pelos safados
    Republicanos não deixou.E o Bernie
    Sanders acredita que o impeachment
    de Dilma foi golpe.PQP!!!

  3. Eduardo
    15/12/2016 at 10:15

    Concordo plenamente Paulo.
    A coluna de Calligaris é uma das poucas colunas semanais de jornal que eu ainda fico na espera para ler. Ela é um convite, não uma pregação.
    Os outros “famosos do momento” eme causam a impressão de que estão falando de um mundo que só eles enxergam. O Calligaris, ao contrário, me toca por, justamente, provocar a sensação de que estamos falando do mesmo mundo, mesmo quando discordamos.
    Saio melhor após lê-lo assim como com você.

    PS: Que tal elaborar um texto na série sobre animais falando especificamente sobre os gatos? O fato deles serem os novos bichos de estimação do momento deve dizer algo.

    • 15/12/2016 at 10:20

      Eduardo, não entendo de gatos, só de cachorros.

    • Orquidéia
      18/12/2016 at 08:34

      Humpf.
      Por enquanto não vou substituir a leitura das crônicas do poeta Ferreira Gullar na Folha. [ele fez a “traição” de morrer…]
      Ele tinha gato,eu também tenho, mas tb não sou técnica em felinos.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo