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15/10/2019

Briga de “bicha”


A briga entre Nico e Eron foi sensacional não pelos golpes, claro, mas pelo jogo semântico Thiago Fragoso (Nico)escolhido. Nico deu uma surra física em Eron, mas o soco maior foi de palavras: “bicha” – eis aí mais uma vez o tabu quebrado. Bicha pode usar a palavra “bicha”. Talvez todos nós possamos, não? Ora, não é bom?

O filósofo americano Richard Rorty (1931-2007), meu amigo, escreveu certa vez em um artigo sobre feminismo, que uma “guerra semântica” era tudo o que as minorias iriam enfrentar, querendo ou não, no desdobramento de conquistas de direitos e na invenção de novos direitos. O quiproquó entre Nico e Eron é parte dessa via prognosticada.

Nico representa o homossexual pós-conceito. Ele pode se qualificar a si mesmo de bicha. Por quê? Porque ele não vive mais o tempo do filme Filadélfia. Ele já ultrapassou até mesmo Breakfast on Pluto e não está nem aí para com Back Broke Montain. Ele vive em uma época em que estamos a um passo do fim da “era heroica” do homossexualismo.(1)

Isso ocorrerá quando “bicha” não for mais um termo pejorativo, e quando ninguém mais lembrar que um dia foi tirado de circulação para que pudéssemos falar de “homoerótico” e, então, chamar a atenção para o quanto “bicha” era pejorativo. Uma época de pós-conceito nos dá possibilidades de descrição, e de perda de sentido quanto às conversas sobre preconceito. Em um mundo onde conceitos são apenas palavras, os preconceitos ficam magros e morrem de inanição.

Homossexuais sendo agredidos pelo “politicamente incorreto”, homossexuais sabendo lidar com seu lado jocoso e trágico ao mesmo tempo e, enfim, homossexuais românticos ainda sob o clima da incompreensão setorizada e vítimas de suas próprias amarras, tudo isso é respectivamente o que temos nesses três filmes citados. Eles representam momentos importantes da história da homossexualidade nesses últimos vinte anos. Félix estava preso à vida amarrada nesse campo heroico. Eron ainda está, mesmo que sem heroísmo algum da sua parte. Félix vem se libertando. Eron vem a cada dia se afundando mais na subserviência ao mundo heterossexual – se é que um tal mundo não passe de  uma grande ficção, utilizada como realidade na conveniência.

Eron não suporta a palavra “bicha”. Belo e de olhos azuis chamativos, Eron foi, certamente, um garoto atrativo para as meninas, mas, para seu azar, ele próprio queria atrair meninos e sentia-se por eles atraído.  Chamado de “bicha” na escola, isso soava para ele não algo apenas incômodo, mas catastrófico. Tirava-lhe a estima, vinda dos elogios femininos. Não são poucos os homossexuais que apelam, ainda, para o “politicamente correto” ou fingem não saber o que é brincadeira (de mau gosto ou não) e o que é sério. Fingem para poder agir como certas mulheres agem diante de brincadeiras semelhantes, bem matreiramente. Usam do “politicamente correto” para revidar e, enfim, se tiverem nas mãos leis draconianas, poderão também usar para vinganças e autopromoções – muitas vezes, injustamente. Minorias não são templos de santos só por serem minorias, sabemos bem disso. Mas Eron pode ser um crápula e, como crápula, um fraco, e como fraco nem mesmo usar do “politicamente correto” ele consegue. Tentou até, e apanhou.

A surra levada por Eron ocorreu no mesmo capítulo em que Félix desceu de seu pedestal e mostrou a cueca para o mecânico. Tornou-se, ao menos por uns instantes, a “bicha vulgar”. Mas isso, a cena mostra, não o diminuiu. Ficou claro para todos: em matéria de sensualidade ou sexualidade, temos direitos acima de outros direitos, ainda que por minutos apenas. Temos o direito à ficção particular. Todavia, é claro, novamente surge o problema da inteligência: uns sabem o que é ficção e brincadeira, outros não sabem e uns terceiros, ainda, fingem que não sabem. Esses terceiros são os que poderiam, vendo Félix naquele lance com o mecânico, tentar acusa-lo de “atentado ao pudor” etc. Gente má e idiota há em todo canto!

Todos nós sabemos que o que a parte fascistóide da sociedade mais quer é acusar alguém de pedofilia ou estupro ou coisa parecida – e se essa pessoa, o acusado, é homossexual, aí sim aparece todo o apetite por sangue, vindo da parte mais medíocre da vida social. Aliás, diga-se de passagem, a maior parte dos que defendem pena de morte para supostos estupradores ou coisa parecida são pessoas que só tem orgasmo olhando vídeos de barbarismos e violências sexuais – e há estudo sobre isso, inclusive estatísticas. Outro dado importante: grande parte dos que fazem esses ataques contra supostos criminosos não quer defender supostas vítimas, o prazer é apenas o ataque, a denúncia. Trata-se de uma expiação de pecados próprios. Por isso, não raro, entre os denunciantes há muitos que efetivamente cometeram ou cometeriam os crimes aludidos. O comportamento dos presos nas penitenciárias mostra muito bem isso, eles punem rapidamente os que entram lá sob essa acusação, e, no entanto, muitos deles ali já cometeram tais atos, apenas não foram presos por estes, e sim por outros crimes.

O mundo dos crimes relativos a sexo e o mundo gay sempre estiveram próximos na imaginação burguesa e na sua ciência, e por isso mesmo o homossexualismo só foi tirado do catálogo de patologias muito tardiamente.

Volto à novela.

O momento de crucificação de Félix já passou. A questão agora é o triângulo que irá se formar em torno de Nico, sendo disputado por Eron e Félix. Nos capítulos seguintes o folhetim pode nos pegar de surpresa, se conseguir fazer Eron e Félix melhorarem como pessoas, para se apresentarem a Nico como efetivamente gente que ele possa admirar. Platão apostava nisso, na força de eros, enquanto energia impulsionadora do filosofar, como o que poderia fazer o amante melhorar para se apresentar ao seu amado, forjando nesse, então, também, a boa índole.

Aliás, no Fedro, Platão dizia que o amante via no amado um tipo de deus, que ele relembrava do tempo que sua alma vislumbrou o Mundo das Formas (ou Ideias, Eidos). Via na beleza do amado resquícios do Belo, exatamente por causa de que o amado possuía elementos de semelhança com a entidade perfeita, correspondente, no mundo das essências. Nico pode ser essa figura para Eron e Félix e, quiçá, para alguns telespectadores, em especial os que ainda não foram totalmente ganhos por uma estupidez específica, aquela que os faz amaldiçoar os folhetins da TV, achando que para serem parecidos com os intelectuais pelos quais eles sentem amor-ódio, devem dizer a quatro cantos coisa como “odeio novela, Rede Globo é um lixo e prefiro um bom livro”. Gente assim nunca consegue citar o tal bom livro que estaria lendo. E gente assim é incapaz de ver o enredo do folhetim novelesco no âmbito da história da cultura.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo

(1)   Trabalho aqui no campo da filosofia e história cultural, não no âmbito histórico-sociológico. Neste, as coisas andam mais devagar, muito mais.

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25 Responses “Briga de “bicha””

  1. MARCELO CIOTI
    02/01/2014 at 11:51

    A Globo tem duas caras.Uma,é colocar um autor gay
    pra escrever novela meia-boca.A outra é botar
    domingo de manhã,um padre que é contra a união
    civil gay,fazendo discursos “em nome da família”,
    blá,blá,blá,blá,blá….

  2. Alexandre
    30/12/2013 at 01:25

    Quando falo de “mundo bissexual” não estou falando de um mundo em que todo mundo seja bissexual, mas sim a maioria.

    • 30/12/2013 at 04:30

      Alexandre, um mundo bissexual seria uma chatice. Podemos ser mais criativos.

  3. Alexandre
    30/12/2013 at 01:12

    Eu tenho a sensação de que não há muitos estudos acerca da questão da homofobia e outras questões relacionadas ao homossexual, parece que pouca gente leva esse assunto a sério, talvez seja apenas uma impressão minha.
    E mesmo quando alguém se ocupa com o assunto, parece que as análises partem sempre de premissas fixas, a pergunta parece ser do tipo “O que leva um heterossexual, que vive num mundo em que 90% das pessoas são heterossexuais, a agredir ou sentir aversão a gays?”.
    O que vejo por aí é que esse preconceito não se trata de um preconceito que dá as caras de vez em quando, aqui e ali, a homofobia dá as caras todos os dias, em vários momentos do dia, é um tipo de obsessão que chega a ser ridícula, e quando vejo isso eu fico me perguntando se essas pessoas são mesmo heterossexuais.
    Enfim, eu acho que ao invés de nos perguntarmos o que leva os heterossexuais a odiar os gays, poderíamos nos perguntar se o mundo em que vivemos possui mesmo essa predominância de 90% de heterossexuais. Será que não vivemos em um “mundo bissexual”? E supondo que esse seja o caso, será que a homofobia não seria, na maior parte dos casos, resultado de uma projeção do bissexual que não se aceita e sequer sabe que é bissexual em relação ao gay que se aceita e vive sua sexualidade plenamente?

    Enfim, como de costume eu fugi um pouquinho do tema do texto.

    • 30/12/2013 at 04:32

      A filosofia no exterior, Alexandre, tem inúmeros bons filósofos lidando com isso. O Brasil não, aqui os filósofos têm medo de lidar com o assunto pois podem ser acusados de não serem sérios, não serem filósofos. Claro, há leitor aqui burro demais.

  4. Caio
    29/12/2013 at 22:30

    Eu odiava mais a TV aberta quando ainda estava sem grana para pagar por Internet, cabo, cinema, games e outras mídias e espetáculos mais caros. Era um ressentimento (embora, na época, eu não percebesse). Imagino que deve ser um tipo de sentimento bem comum a uma parte da classe média, principalmente a baixa. Quer dizer, você até tem alguns apetites culturais mais refinados, mas não pode pagar para saciá-los… Sobra ficar com raivinha da novela e do Luciano Huck… Ê vidinha!

    • Caio
      29/12/2013 at 23:12

      Também tem outros fatores além desse ressentimento. Por exemplo, antes da popularização da Internet era muito comum grupos mais “alternativos” (metaleiros, punks, rockers, nerds, esoteróides, etc…) buscarem mais espaço dentro de grandes canais de rádio e TV. Os discursos contra os produtos de massa mais estabelecidos eram apaixonados e furiosos. Atualmente, com a Rede e produtos mais segmentados, estes grupos ganharam muito mais espaço… Mas penso que parte do desdém contra formas de cultura mais populares é eco deste estranho tipo de guerrilha. A última coisa que eu vi foi quando, aqui em Porto Alegre, o vocalista de uma banda de rock invadiu uma rádio com uma arma e obrigou o DJ a tocar suas músicas (sim, como no filme Airheads, acreditem)… Mas, enfim, é um tipo de evento cada vez mais raro.

    • 29/12/2013 at 23:41

      Caio, porra! Que coisa heim?

    • MARCELO CIOTI
      02/01/2014 at 11:42

      Que legal,Caio!Por acaso,prenderam esse bandido
      que invadiu a rádio pra tocar suas bostas de
      rock,é?Você acha legalzinho,mas se você
      trabalhasse nessa rádio,você não acharia a
      maior graça.

    • Caio
      02/01/2014 at 23:53

      Prenderam. Talvez tivesse sido um pouco legalzinho se a música do cara fosse boa. Mas era realmente muito ruim ;D

    • 29/12/2013 at 23:42

      Bom, tem também a ideia do “quarto poder”, sabe?

    • Caio
      30/12/2013 at 18:21

      Sim, sim… A Mídia é o quarto poder. Claro que este poder não é de quem aparece nela, mas sim de quem a controla 🙂

    • 30/12/2013 at 19:09

      Para o caso aqui, Caio, não revela nada, foi isso que eu quis dizer.

    • MARCELO CIOTI
      02/01/2014 at 11:38

      Caio,o Leão Lobo já disse várias vezes:essa novelinha
      das 9 é novela-tarja-preta.Tirando o Félix,não sobra
      absolutamente nada.Como disse o Maurício Stycer
      da Folha,foi a melhor novela mexicana feita no Brasil.
      E novelas mexicanas são,geralmente,uma merda.
      Só quem é playboy e amigo-ou eleitor do Aécio
      Neves-é quem tem paciência pra assistir o tal do Huck.

  5. Thiago Carlos
    29/12/2013 at 19:53

    Muito bom o texto professor

    O senhor tem ou sabe de algum texto que fale sobre a sexualidade humana e se a distinção natureza x cultura ainda tem alguma validade nessa discussão ou que apresente outros instrumentos para pensá-la?

    • 29/12/2013 at 23:43

      Tem alguma coisa aqui no blog e nos meus livros.”Cultura” e “natureza” valem, mas não mais como palavras com distinção clara, como quisemos no passado.

    • Antonio
      31/12/2013 at 16:10

      FOUCAULT, Michel. História da sexualidade.

  6. LENI SENA
    29/12/2013 at 01:06

    Na mesma hora em que vi a cena relacionei o que senhor já havia explicado por aqui a esse respeito. Realmente é tudo muito sutil, não é toa que algumas pessoas leem seus textos erradamente, deturpam seu modo de pensar, suas ideias.
    P. S. Lamentável o episódio envolvendo seu nome com a Sherezarde. O f.d.p. que tá querendo seu pescoço não vai conseguir nada com isso.

    • 29/12/2013 at 16:26

      Leni Sena, o facebook é meu, e eu arco com tudo, pois quando alguém bate o carro quem paga não é o motorista, mas o dono do veículo. Eu quis conversar com a jornalista, ela fingiu que não entendeu, que não recebeu e incitou a turba da direita e de feministas sem cabeça contra mim. Bobagem, aquilo era um brincadeira que todos já fizeram, mas agora parece que ela está precisando de ibope. Mas, de qualquer modo, pedi desculpas em nome do meu facebook que, aliás, todo mês é invadido. Até esse blog aqui já foi invadido, mas aqui eu tenho um pouco mais de controle. Por isso eu sempre digo para as pessoas irem nos meus livros, mas elas não querem, esse tipo de gente nunca conseguiu na vida ler um livro inteiro.

  7. Mario Luis
    29/12/2013 at 00:58

    A assertiva do texto fez-me lembrar Empédocles de Agriento, cuja cosmogonia concebia um Universo pulsional dinamizado por Neikós e Philia, num ciclo de associações e dissociações que não cessam de agir sobre a matéria, onde o mundo inteiro, redondo e perfeito chamado sphairos é apenas transitório…

  8. Julio Calleja
    29/12/2013 at 00:08

    Excelente texto! Confesso que não pude acompanhar por inteiro tal novela, mas pude observar (corrija se tiver errado) que nesse núcleo, o elemento destruidor do “amor”,da relação afetuosa, foi uma mulher e consequentemente a nova postura heterossexual de Eron. Teve uma tentativa por parte do autor em tirar a ideia de muitos que a relação homossexual é apenas carnal e antítese da família. Afinal a família que seria aparentemente harmoniosa, o casal gay e bebê, foi desconstruída por uma nova família convencional porém não convincente.

  9. 28/12/2013 at 18:30

    Essa novela está abordando muito bem o assunto do homossexualismo. A cada dia, surge algo novo na novela. Principalmente, envolvendo o Félix e o Eron.

    É a primeira vez que vejo a condição dos homossexuais sendo abordada de uma forma tão interessante e inovadora. E com os seus textos, já estou conseguindo inserir essa condição dos homossexuais na condição humana em geral.

    Cada vez mais, reforço minha ideia de que todo mundo é gay, em certa medida; só nos resta admitir.

    Estou compartilhando o texto. Abraço.

  10. Luis Carlos
    28/12/2013 at 13:21

    Excelente texto. Lendo seus textos e artigos aprendi a pensar melhor. O problema é que muitas das coisas que você escreve cai em mãos de gente que acha que sabe ou tem preguiça de dá um passo a frente. Assimilei a ideia do pós-conceito lendo os seus textos. E de lá pra cá muitas coisas mudaram no meu jeito de ver e interpretar os fatos.

    • 28/12/2013 at 15:45

      Luis Carlos, é tudo muito sutil. A gente precisa ler e reler até mesmo o que foi a gente que fez, né?

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