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18/07/2018

A “Revolução de 1964”


Castelo BrancoNunca houve intenção real dos Estados Unidos de invadir o Brasil para “fazer 64”. O deslocamento de navios americanos para perto de nossa costa não foi realizado senão para “observação”. Caso o Golpe de 1964 desse errado, os americanos iriam pensar mil vezes e, é provável, não decidiriam aportar.

Os Estados Unidos haviam tido um revés em Cuba, no apoio à invasão dos exilados, em 1961. Logo depois, em 1962, ocorreu a “crise dos mísseis”. Em 1964 discutia-se nos Estados Unidos o envio de tropas para o Vietnã, o que ocorreu em 1965. Haveria uma guerra lá, uma “verdadeira guerra”, e os americanos sabiam bem o quanto os franceses já haviam apanhado no lugar. Por isso tudo, o tal “apoio americano aos golpistas de 1964” nunca foi levado a sério pelos historiadores mais ciosos: os americanos estavam por perto, mas não estavam preparados para participar de qualquer coisa.

Carlos Lacerda cantou de galo com essa “frota americana” de proteção à “Revolução de 1964”. Cacifou-se perante outros líderes golpistas com essa história, que ele queria fazer parecer como algo vindo do seu prestígio na América. Ora, havia mesmo documentos sobre tal coisa, mas, como vários outros acordos entre Estados Unidos e Brasil, antes e depois de 1964, também este não tinha grande solidez. O Brasil nunca teve qualquer importância para os Estados Unidos que justificasse uma intervenção planejada, com soldados em terra.

A invasão americana não ocorreria também por uma outra razão: nunca a CIA levou a sério a “comunização do Brasil”. Os documentos americanos sobre a “infiltração comunista” no Brasil, produzidos pela CIA, eram totalmente propagandísticos. A CIA já estava, naquela época, dividida em seções, e a parte de América Latina sempre exagerava, em tons distintos, a respeito do que dizia interna e externamente, para efeitos de mobilização política conservadora no Brasil, e para efeito de garantia de salários internamente. Até recentemente a CIA trabalhou assim e, em alguns momentos, conforme o governo americano é democrata ou republicano, tenta agir com essa tática de sobrevivência como qualquer outra instituição burocrática.

Os funcionários importantes da CIA falavam de “comunização” do governo Jango, mas, ao mesmo tempo, tinham um bom mapa a respeito do potencial real de intervenção de pessoas de esquerda em uma ação de resistência a um golpe. A CIA tinha informação sobre os grupos ligados a Brizola e sobre quanto o exército brasileiro poderia ou não ficar dividido no momento de um golpe. Nenhum funcionário da CIA acreditava na necessidade de uma ação de apoio ao golpe em terra. Aliás, os contatos entre americanos e golpistas foi diminuto e frouxo. Castelo Branco e Carlos Lacerda falavam mais do que realmente faziam, inclusive porque se pavoneavam entre as forças golpistas, ambos prevendo que um dos dois iria ficar na Presidência, depois da queda de Jango.

Quando veio o Golpe de 64, Jango resolveu não resistir. Ele pode ter decidido assim por índole pacifista, mas se por um acaso tentasse fazer um chamado popular para uma reação, não teria ninguém preparado para agir. Os sindicatos não tinham armas e não estavam de fato organizando uma revolução comunista. Dentro do Exército a tal “insubordinação dos sargentos” nada era senão um alvoroço, não uma ação organizada capaz de atender um chamado presidencial ou um apelo de Brizola. Os militares golpistas haviam adquirido know how por obra de outras tentativas de golpe, e trataram de anular as forças de generais que poderiam fazer o que o General Mott fez na posse de JK, quando evitou um golpe de direita.

A ideia de resistência não tinha sentido. Brizola insistiu nela, mas ao voltar ao Brasil bem mais tarde, uma vez anistiado, ele nunca quis insistir mais nessa história. Sempre que entrevistado, procurava passar rapidamente por esse episódio, quase que reconhecendo o quanto teria sido um fracasso o chamado pela resistência.

Logo nos primeiros dias após o 31 de março de 1964, ficou claro que não estava em curso uma revolução comunista no Brasil. Todas as possíveis células de organização comunista desmanteladas, mesmo recheadas de armas postas pelo próprio Exército para tirar fotos, acabaram por mostrar que nenhuma forma de revolução estava em curso. A “Revolução de 1964” teve que rapidamente reescrever a história dos últimos anos, insistindo no “perigo comunista”, de modo a manter viva a justificativa que daria legitimidade ao movimento golpista. Era necessário brindar a classe média do Rio e de São Paulo com tais satisfações, fazê-la sentir que ela havia feito a “Revolução” e que tudo estava caminhando segundos sua ação salvacionista.

O principal mote do General Castelo Branco, uma vez Presidente, era o de que os políticos todos eram corruptos, que a política tinha que ser reformada pelas Forças Armadas, de modo a construir aqui no Brasil um sistema bipartidário, em estilo americano, com dois partidos rezando em cartilhas bem próximas. Surgiu então a ideia de que havia sim oposição legítima, criada pela “Revolução”, mas que tal oposição não poderia fazer “contestação”. A “contestação” era o quê? Era negar a democracia liberal formal existente e desejar um regime, mesmo que democrático, mais à esquerda. Toda e qualquer ideia de política ideológica passou a ser vista como “comunista”, e assim o linguajar da política possível se esvaziou de conteúdo muito rapidamente. Ninguém mais podia falar em “esquerda” e “direita”, mas somente em “situação” e “oposição”, representadas então pela ARENA e MDB.

Com uma ingenuidade em filosofia política e sociologia assustadora, Castelo Branco queria fazer do Brasil uma espécie de Estados Unidos de brinquedo. Os Estados Unidos possuem muitos partidos, mas os dois grandes, que disputam a presidência, não disputam uma mudança de regime econômico. A democracia e o capitalismo são o chão da América, as mudanças se dão sobre esse chão, mas nunca se imagina arrancar esse chão e substituir o assoalho da casa. Castelo Branco parecia acreditar que tudo isso podia ser montado aqui como quem monta um jogo de Lego.

Carlos Lacerda gostava da ideia de Castelo Branco, mas sabia que ela era impossível de realização e, no limite, apenas uma bobagem de um general que havia lido bem menos do que ele, e talvez só mais que Adhemar de Barros, também um dos “líderes civis da Revolução”.

Castelo Branco tinha um biotipo curioso e não raro de nordestino: homem baixinho, de pescoço enterrado e cabeça chata. Ele vinha de uma família rica, havia estudado na Inglaterra e tinha combatido pelas Forças Expedicionárias Brasileiras na Itália, contra o nazismo. Parecia mesmo acreditar que podia reformar o país a partir “atos institucionais”, mesmo contra a tradição e a história da cultura brasileira. Esse foi o segundo erro dos militares brasileiros, o primeiro, é claro, foi o próprio golpe.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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27 Responses “A “Revolução de 1964””

  1. 04/12/2016 at 01:09

    Ocorre que minha explicação sobre a estrutura da guerra fria desmonta seu argumento da inexistência de perigo de golpe comunista na época da revolução.
    Acresce o fato que a renúncia de Janio em 61, criara um vácuo de poder tanto que o primeiro golpe foi a instituição do parlamentarismo de Jango.Por isso que disse desde o começo que o sr não tendo vivido a época pois era criança não tem uma noção perfeita dos acontecimentos.Estranho que em vez de discutir o assunto em tese, o sr apele para me qualificar primeiro de arrogante e agora de admirador de ditaduras.Fica desde já convidado a participar da minha página Opções de Compra e Venda no face book de forma que possa comparar nossas capacidades intelectuais conforme desafiou. Saudações

    • 04/12/2016 at 09:55

      Beznos eu sei que é necessário para a direita que fez a Revolução de 64 encontrar com o “golpe comunista”. Mas ele não estava organizado, tanto é que não se encontrou nada de resistência que valesse o nome disso. Mas, enfim, não vou ficar aqui tentando tirar de você sua justificativa psicológica. Parece mais uma disputa subjetiva, sua mesma com você mesmo. Isso é com você.

  2. MARCELO CIOTI
    06/01/2014 at 12:10

    É por isso que te admiro,PG.Hoje em dia,todos se
    preocupam em querer agradar o governante de
    plantão.Duvido que o Jânio de Freitas,na Folha,ache
    que este atual governo é um Jardim do Éden,na
    vida real,não no que ele escreve.

  3. Henrique
    31/12/2013 at 20:16

    Ghiraldelli, descobri uma coisa hoje, a revista veja no site dela só publica comentário contra o senhor. A favor fica retido.

    • 31/12/2013 at 20:32

      Henrique, já haviam avisado. Mas o que você esperava?

    • Henrique
      01/01/2014 at 03:34

      Ora, eu esperava neutralidade.

    • 01/01/2014 at 12:32

      Henrique, neutralidade sobre o que? A Imprensa nasceu da política, não da informação. Fizemos um Hora da Coruja sobre isso, com o Bucci, veja lá. Agora, no caso da Veja, os próprios acionários estão ligados a grupos próximos de gente do regime do Apartheid africano.

    • MARCELO CIOTI
      02/01/2014 at 11:10

      Do jeito que criticam a Veja aqui,logo,logo,
      o Nassif e o Emir Sader vão comprar o
      blog do Ghiraldelli.Vai virar uma versão
      mais chata da Carta Capital.

    • 02/01/2014 at 13:32

      Marcelo, vários lados já tentaram me ganhar, com cargos e dinheiro. Esqueça, eu não tenho lados, não sou uma figura geométrica. Além disso, eu sou inteligente demais para conseguir conviver com direita e esquerda.

  4. Rafael Costa
    31/12/2013 at 16:46

    “Logo nos primeiros dias após o 31 de março de 1964, ficou claro que não estava em curso uma revolução comunista no Brasil.”

    Ha…como é bom ler essa frase, em um texto sobre o Golpe de 64.
    Reflete a sobriedade que um texto sobre história deve ter.
    Já estava cansado de ver na grande imprensa a ideia de que havia sim, “uma corrente comunista para um golpe de Estado”.
    Precisamos contar a História como ela foi, o Golpe de 64 tirou um Governo eleito de forma legítima, se ele era de esquerda ou de direita, não importa, nada justifica um golpe desse tipo.
    Deixa-me assustado propagarem essa história de “ameaça comunista” pré-64, pois acaba legitimando, justificando algo que é injustifícavel.

    P.S: Eu sei que não faz a diferença, mas estou do seu lado nessa luta contra a ignorância senil propagada por pessoas como a ”jornalista” Raquel Sheherazade.

    Obrigado pela atenção.
    Feliz 2014

    • 31/12/2013 at 16:52

      Rafael Costa, faz diferença sim, estar do meu lado e postar aqui. Isso não é qualquer um que faz não. As pessoas apoiam, mas nem sempre se manifestam publicamente. Agora, sobre o texto, é mentira quando dizem que os livros de história não contam o ocorrido. A maior parte dos livros diz sim o ocorrido. Essa conversa da direita que livros de escritores de esquerda negam que houve apoio popular ao golpe é mentira. Todos os livros sabem que até Jucelino apoiou o golpe.

    • Rafael Costa
      31/12/2013 at 16:58

      Paulo, o meu medo é esse, que o que é veiculado pela grande imprensa, acabe respingando nos livros didáticos e, pior ainda, nos professores. Sabemos que muitos dos futuros professores são muito mal-formados e acreditam em muita coisa veiculada pela Imprensa e por radicais de esquerda e de direita.
      O bom que existe esse veículo chamado internet, onde há algumas “vozes da resistência”.rsrsrs

    • 31/12/2013 at 19:01

      Rafael, isso vai acontecer sim. É por isso que a indústria do livro didático é um campo de batalha.

  5. Mylton Beznos
    31/12/2013 at 06:01

    Uma série de informações corretas e outras tantas, talvez em maior número incorretas.
    O que se pode esperar de alguém nascido em 1957 que tinha sete anos quando se deu a revolução?
    Isto aí – um samba do croulo doido.
    Saudações

    • 31/12/2013 at 11:04

      Mylton Beznos, sabe qual é o seu problema? Arrogância de quem sabe talvez menos do que quem tem sete anos hoje. Mas já que sabe tanto, cadê o seu texto? Cadê o seu livro? Cadê sua visão? Não existe. Pois há pessoas que não podem fazer o samba do criolo doido por uma razão: falta o doido, o criolo e a alfabetização. Samba? Nem pensar.

    • 08/04/2016 at 16:25

      Segundo o Celso Furtado o mundo pós guerra ficou dividido em duas áreas de influência==soviética e americana.Cada um querendo sempre ampliar.A isto se devem as guerra asiáticas Coréia Vietnam etc.O expansionismo soviético na America latina começou por Cuba. No Brasil malogrou este expansionismo soviético graças a sociedade civil liderada pelos governadores dos três estados mais importantes Adhemar de Barros -São Paulo,C. Lacerda ==Rio e Magalhães Pinto -Minas, ter recorrido aos militares. É evidente que os Estados Unidos tinham interesse de preservar sua área de influência, igualzinho a Rússia.===Grande cínica acusação da esquerda, uma vez que seus seguidores sonhavam, por meio de uma ditadura do proletariado, que o Brasil virasse lacaio/satélite soviético para poder desfrutar das maravilhas do regime comunista. Só o fato de chamar o regime militar de ditadura já é uma primeira mentira.O único ditador brasileiro foi Getulio Vargas, muito louvado pelas esquerdas. Os generais se revezavam sequer tinha a mamata da reeleição. Como pode haver ditadura sem ditador?

      Saudações

    • 08/04/2016 at 16:28

      Mylton Beznos, na URSS, que você deve amar, já que gosta de ditaduras, também tinha revezamento de poder.

  6. L. Silva
    30/12/2013 at 14:58

    As redes socias gostam de polêmicas, mal entendidas ou não, e é lugar de panelinhas, não de bom senso. Lamento que você ainda caia nessa. Será que um filósofo deveria resumir seus pensamentos por um post, as vezes mal colocado, e atrair para si uma imagem que não corresponde a verdadeira? Nesses dias de muita opinião e pouca reflexão, o debate acaba indo parar no colo dos advogados. Melhor pra eles.

    • 30/12/2013 at 16:24

      L. Silva, os filósofos não podem ficar em torres de marfim meu caro. Sócrates foi morto pela democracia. Não sou professor de filosofia. Falo para todos. Estou sujeito a não ser entendido pelos ignorantes e pelos de má fé. Você pensa que sou novo nisso? Bicho! Sou do tempo de enfrentar a ditadura. Essa direita gritona de hoje, e essa esquerda caduca, são fichinha.

    • 04/01/2014 at 18:55

      O car se acha . Se injtitula filósofo.!!!!!!!!!!!!!!!!

    • 04/01/2014 at 22:31

      Filósofo não é deus ou santo, tontinho. Ninguém se engradece por se dizer filósofo, é uma atividade profissional como outra em ciências humanas. Agora, que sou um filósofo inteligente e que esse artigo faz você gemer porque diz a você que sua “Redentora” não ajudou o Brasil, e que as coisas não são como você quer, isso é verdade. E você está gemendo, e vai gemer durante mais tempo. Toda viuvinha de 64 geme. Elas nasceram para gemer.

  7. Henrique
    30/12/2013 at 12:39

    Eu não gosto da sherazadi , não gosto do seu posicionamento religioso, evanjegue, mas achei pesado. Sou contra a violência contra a mulher. Se bem que as mulheres hoje sabem se proteger e tem todas as garantias.

    • 30/12/2013 at 13:23

      Henrique, é estranho que um post que nem fala o nome dela e que é uma visível brincadeira causa celeuma. Causou celeuma porque ELA quis. Não há nenhum incitamento à violência em jogar praga. Eu nem dei bola para aquilo quando vi.

    • Henrique
      30/12/2013 at 13:54

      Tem razão, acho que vc tem que dizer o que pensa, vc é um provocador e está de parabéns. Precisamos de mais gente assim.

    • 30/12/2013 at 14:03

      Henrique, já imaginou você procurar um filósofo e encontrar um político, sorrindo, mentindo, chamando Jesus e dando boas novas falsas? Ruim né. Eu não, eu não vivo de ibope. Eu falo mesmo.

  8. Nelson
    30/12/2013 at 05:43

    amigo tem meu apoio total, aquela Raquel é uma vadia crente Alienada, só sabe fazer criticas cadê o jornalismo?? HAHA abraço.

    • 30/12/2013 at 06:28

      Nelson, pedi para conversar. Ela não quis. Fácil assim né? Parece que ficou contente em poder se fazer de agredida.

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