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22/09/2019

A piada da formiguinha


As pessoas que estão mais presas à vida cotidiana, que não são intelectuais, podem fugir de inúmeros temas. Mas o filósofo não! Uma  sociedade com filósofos que fogem de espinhos é uma sociedade de capacidade reflexiva covarde. 

Fingir que não sabemos que o Jotalhão e a Tanajura, de Maurício de Souza, uma vez juntos, foram tirados da “piada da formiguinha”, não é algo que se possa alegar. A origem é o chiste popular. A formiga pede para o elefante para que a leve na travessia do rio. Ele responde que sim e a leva. Chegando na outra margem ela desce do elefante e diz “obrigado!”. E ele responde: “obrigado não senhora, vai abaixando as calcinhas!”.

Maurício mantém os personagens. Não os tirou de circulação. Mas a vigência deles é feita com cuidado! Muito cuidado. Caso Maurício invocasse essa origem, hoje, seria linchado em praça pública, pois já há energúmeno achando que a Mônica faz bullying usando o coelho contra o Cebolinha! Então, um elefante estuprador de diminutas vulvinhas seria um horror maior ainda! (Afinal, mesmo que fosse sexo consensual, o estrago seria notável!).

A sensibilidade mudou. Sim, nossas emoções são históricas. Elas já foram deuses na Grécia antiga antes de virarem sentimentos “internos”, psicologia, no processo ocidental histórico de “subjetivação do mundo”. Mas devemos entender essa mudança por várias perspectivas: podemos acompanhá-la no seu pertencimento à suavização das relações, e isso nada é senão o fruto da “missão civilizadora do Capital” e do “advento da modernidade”; mas não temos que acompanhar isso ao ponto de criminalizar o passado indiscriminadamente, com consequências nefastas, a saber: a censura de tudo no presente. Amordaçar a arte é o pior que se pode fazer em transições. Transições são para serem vividas, para que exista mesmo o transitar.

A “piada da formiguinha” tinha a ver com o comportamento do homem cafajeste, ou mesmo o homem de fino trato, mas em situações da “calada da noite”. A mulher entrava no carro e ele a levava para um lugar ermo, chegando lá, dizia: “ou dá ou desce”. Muitas mulheres, principalmente hoje, só conseguem se apaixonar por esse tipo de homem. Muitas! E rejeitam seus amigos escolarizados e gentis, tomando-os como afeminados ou assexuados. Mas a mulher, hoje, nem sempre diz que gosta de homem assim. Isso a tornaria não uma mulher livre, às vezes ela poderia ser tomada como “vadia”, pela família ou pelo noivo assexuado ou gay imposto pela família ou sabe-se lá o que. Isso não importa. O que importa aqui é que a “piada da formiguinha”, que está na base da dupla (como dupla) Jotalhão e Tanajura, vieram sim desse tipo de humor, desse tipo de vida interiorana de Maurício de Souza, que já não é um menino, é um desenhista de mais de setenta anos, que se educou em um outro Brasil. Conheço bem o Brasil de Maurício!

Podemos não gostar do Brasil que gerou Maurício de Souza e que me gerou, mas querer aboli-lo por decreto, colocando-nos de pijama em casa, não é um ataque pessoal contra nós somente, é um erro democrático, social. Criar um elo entre tradição e inovação é necessário. Explicar a cada um como o que foi piada deixou de ser piada, ainda que ainda seja piada ou até realidade para muitos, é tarefa nossa, dos intelectuais. Como filósofo, é o que acabo de fazer.

O filósofo também é aquele que leva adianta uma espécie de “política cultural”, um incansável construtor de pontes entre o passado e o presente.

. Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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2 Responses “A piada da formiguinha”

  1. 08/03/2015 at 15:15

    Paulo, nós entramos em um buraco de transição permanente? Como isso funciona? Vamos deixar de ter tradições? O que vai acontecer com o afro-descendente usuário de crack conhecido como Saci Pererê?

    • 08/03/2015 at 15:44

      Transições acabam, pois são setoriais, temáticas. Vivemos transições em algumas coisas, não em todas. Agora, eu nunca imaginei que o Saci fumasse crack! Tá vendo, sua sensibilidade mudou, ou sua percepção, a minha ainda não. Eu achava que ele ainda estava no fumo de corda.

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