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22/06/2017

A importância do bem


Ser boa pessoa virou “brega”. Querer “um mundo melhor” virou pecado. Cristãos conservadores odeiam o papa Francisco I por ele reintroduzir na Igreja o que é a essência do cristianismo: a caridade, o amor, a bondade. Estranho não?

Por que a caridade, a bondade e o amor podem ser às vezes condenados? É claro que a Igreja manchou seus próprios valores. A ideia de Jesus de que é “mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico entrar no céu” ganhou lugar em um episódio específico e num contexto bem claro, mas ela foi depois levada a um plano diferente. Na sua origem, apareceu no episódio do homem rico que não conseguiu largar tudo para acompanhar Jesus, embora houvesse dito que queria o último segredo para ganhar o reino anunciado. Todavia, depois, nas práticas da Igreja medieval, essa ideia trouxe aos ricos o “dia da caridade”. Os pobres haviam recebido então sua razão de existirem no mundo, de sofrerem, mesmo tendo esse mundo sido criado por um Deus bom: serviriam para a redenção dos ricos. Estes, uma vez por semana, podiam sair do castelo da corte e percorrer os lugares dos miseráveis, distribuindo moedas. Muitos reis transformaram tal passeio em eventos. A maior parte deles tinha certeza que não só eram diretos herdeiros do Céu judaico-cristão, mas estavam sempre quites com a demanda por caridade, deixando então o buraco da agulha bem mais largo.

O preconceito contra o amor cristão, a caridade e a bondade veio exatamente daí. Esse preconceito, nascido com legitimidade, ganhou até mesmo os religiosos, ou seja, aqueles que sempre gostaram, antes de tudo, do Velho Testamento do Deus justo, aquele Deus que nada tinha do Deus do amor, de Jesus. Esses conservadores se aliaram a progressistas para dizer que o melhor seria encarar o problema dos pobres pelas mãos ou do serviço de uma burocracia estatal ou por meio de políticas partidárias social-democratas ou pela simples “mão invisível” do mercado nos termos do liberalismo clássico, e não pela esperança e cultivo de virtudes cristãs ou “obras da Igreja”.

No Brasil durante muito tempo a esquerda lutou por isso: pobreza ou “questão social” não é caso de polícia, dizia-se, mas logo re-alertavam: também não é algo que se deva deixar nas mão da caridade, para permitir à Igreja a contabilização de almas fiéis. O preconceito contra o amor, a caridade e a bondade veio abaixo no Brasil, unindo liberais e progressistas e, de certo modo, até alguns conservadores, quando no final do governo FHC o país se meteu em uma crise terrível: o aumento da pobreza realmente explodiu, e isso em uma época de controle da inflação. Foi então que todos por um encanto de momento cederam à ideia de Betinho, nada nova, mas naquele momento eficaz: “vamos nos unir para dar esmola”. Campanha contra a fome. A palavra “esmola”, claro, não era essa, dado sua conotação pejorativa demais, mas a ideia era exatamente essa. Que não se pense que não adiantou!

Claro que Betinho era socialista cristão. Todos nós sabemos. Claro que a conscientização que o movimento que ele criou de doações, de solidariedade ajudou, logo em seguida, a eleição de Lula. O Brasil havia chegado num consenso: a esmola foi necessária porque o estado, com FHC, parecia ter dado tudo que podia dar, pois o próprio presidente era rico e carecia de uma visão pessoal sobre a pobreza. O presidente de combate à inflação tinha feito o correto, mas carecia a ele uma qualidade: sensibilidade pessoal, íntima, com a pobreza. O próprio FHC na época chegou a concordar com isso e passou a faixa de presidente para Lula de modo orgulhoso. As coisas caminharam corretamente daí em diante, salvo a corrupção do PT e a falta de política de infra-estrutura. Mas, é claro, existiram ganhos em relação à pobreza. Todavia, rapidamente também a ideia de bondade, caridade e amor cristãos começaram a entrar em baixa. A bolha de bondade de Betinho murchou.

Foi aí que ressurgiram programas de TV que haviam desaparecido ou perdido “ibope”,

Herbert de Sousa, Betinho, sociólogo e criador da Campanha contra a Fome

Herbert de Sousa, Betinho, sociólogo e criador da Campanha contra a Fome

como os que incentivam vinganças contra assaltantes e crueldades nada civilizatórias. Foi aí que surgiu gente com o título de filósofo na mão falando que ser inteligente é lutar contra “um mundo melhor”. Chegamos ao ridículo de achar que fazer o bem é brega, o amor cristão é sempre tolo e, enfim, ser boa pessoa não vale nada. Ser boa pessoa é ser alguém que, ou por ingenuidade ou por matreirice, acaba só fazendo o mal. Só o realismo que confunde o real com a anuência à falta de solidariedade é filosofia na conta desses neoconservadores que falam não a língua da filosofia, mas apenas literatura barata de imitação de Paulo Francis.

Chegamos agora ao que chegamos: ser bom não vale. E eis então que encontramos muitos cristãos se vangloriando de não serem bons ou, então, serem bons exatamente porque perseguem gays, defendem ditaduras, possuem “modelo de família” para provocar exclusão, apoiam medidas rascistas dizendo que não são racistas, querem linchamentos, prisões de menores e coisas do tipo. A filosofia do pessimismo de um Horkheimer ou de um Cioran, por exemplo, nas mãos desses conservadores é, então, completamente subvertida, decepada, enxertada pela bobagem do senso comum para poder se voltar contra a filosofia bem autêntica do professor de filosofia argentino Bergoglio. É nessa militância que estão os conservadores de hoje. Eles ainda gritam contra “o comunismo”, mas sabem que este não existe mais. O verdadeiro inimigo deles, por incrível que pareça, é a noção de “homem bom” cristão.

É necessário levantar de manhã e matar leões e ursos. Ser cruel para essa gente é ser inteligente. Ora, isso vai passar. Mas espero que, quando isso passar, a esquerda não venha a imitar essa ideia de inteligência, dizendo que não podemos fazer o bem, só o estado pode. Isso é um erro.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – A filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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10 Responses “A importância do bem”

  1. Juliano
    04/08/2015 at 17:48

    E por que o bolsa-família, que tá longe de ser esmola, não sensibiliza (como a campanha do Betinho) nem mesmo à gente do bem?

    • ghiraldelli
      04/08/2015 at 21:14

      Mas hoje a campanha do Betinho não arrastaria ninguém. Estamos em tempos de Pondés e Bolsonaros.

  2. Dalai lama
    02/08/2015 at 18:55

    Um nietzschiano defendendo a bondade humana e cristã?! Não era o nobre professor que até pouco tempo elogiava o vilão Felix, da novela global, por não ser bonzinho? O bondade só é permitida aos e para os superiores.

    • ghiraldelli
      03/08/2015 at 08:43

      Dalai Lama você acha que Nietzsche defendi “um mundo pior”. Você acha que Nietzsche, sendo perspectivista, defendia o nazismo? Você acha que Félix era mais que um personagem de ficção? E ele era nietzschiano? Jamais”! Sabe Lama, procure outro apelido, esse é de um sábio, e este não é seu caso.

    • Dalai lama
      03/08/2015 at 15:57

      Não, Nietzsche acreditava em um mundo melhor: só para os superiores (por isso ele disse uma vez que “não queria aprimorar o mundo”. A questão era como colocar os superiores no poder, mesmo o mundo continuando como era. Ou ainda, como, apesar do mundo ser como era, os superiores não haviam ainda tomado o poder). O resto… Não valia a pena nem exterminar (o que comprova que ele não era nazista).

    • ghiraldelli
      03/08/2015 at 18:55

      Dalai lama esqueça, não tente entender nenhum texto, nem meu nem de ninguém. Sua cabecinha não dá para isso.

  3. Thiago Carlos
    01/08/2015 at 21:28

    A ironia mais interessante nisso tudo é o fato dessas pessoas categoricamente se intitularem “gente de bem”.

    • ghiraldelli
      03/08/2015 at 08:44

      Mas “gente de bem” também é aplicado para quem é do bem mesmo.

    • Matheus Kortz
      03/08/2015 at 12:29

      talvez com a banalização do mal, seu simétrico-oposto, o bem, também se banalizou…

  4. Clayton
    01/08/2015 at 21:17

    Muito bom!

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