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18/08/2019

A história ensinada, a história pensada


A modinha da direita política, agora que ela se acha capaz de também escrever, é a de dizer que toda a história ensinada nas escolas é “de esquerda”, e que é necessário contar “uma outra versão”.

A direita usa aí a mesma conversa fiada da esquerda, quando nem bem a Ditadura Militar havia produzido uma versão oficial da história, mas já estava assustando todos com as disciplinas de Educação Moral e Cívica. Essas tentativas de reescrever a história como panfletagem política é para atrair aquele estudante que não gosta de estudar, mas que gosta de posar de culto falando “coisas diferentes”. Todo ensino de história politizante é um lixo exatamente por causa disso: atrai sempre os piores alunos e evoca sempre os historiadores pouco profissionais, isso sem contar o apoio que recebe de filósofos mercenários e de filósofos do “eu vou me dar bem”.

A história ensinada pode ser vítima dessas querelas políticas. Contra isso o antídoto, hoje em dia, não é mais a história de rigor positivista, atenta “aos fatos”. Contra essa conversa de livros adrede preparados para tornar os alunos mais bestas em estudantes que possam ser enaltecidos por colunistas políticos, o melhor é a história pensada.

Pensar a história é antes de tudo observar o perspectivismo de Nietzsche como uma boa possibilidade, mas não só. É também percorrer certas hipóteses de trabalho capazes de não nos deixar acomodados na perspectiva política que já temos. A melhor história é a que nos desacomoda. A história politizada à esquerda e à direita só acomoda. Acomodam os de direita na direita e os de esquerda na esquerda. É a história “para boi dormir”, mas que acorda jumentos.

Um exemplo do “pensar a história”.

Os historiadores de esquerda nunca deixaram de mostrar que a Guerra do Paraguai foi um momento delicado, ruim mesmo, em que nos envolvemos com o massacre de um povo e a destruição de um país. Nunca se omitiu isso, menos ainda os crimes que cometemos lá. A direita nem sempre quis tocar nisso. Envolvidos com a preocupação de uma história patriótica, quase que inerente ao projeto do ensino básico de todo e qualquer país, os historiadores de direita procuraram antes enaltecer a figura de nossos militares na tal guerra e, não raro, culpar o Conde D’Eu, um estrangeiro, pelos massacres. Sobre as razões da Guerra, tanto a direita quanto a esquerda sempre concordaram a respeito do imperialismo britânico. Teriam sido os ingleses os verdadeiros criadores e incentivadores da Guerra, pois eles queriam matar no ninho as investidas nacionalistas de Solano Lopes, governante paraguaio que desejava uma abertura daquele país para o mar. Assim, Brasil, Argentina e Uruguai teriam se aliado não por cabeças próprias, mas por serem todos teleguiados de forças britânicas, principalmente as forças dos banqueiros. É isso que se conta.

As consequências da Guerra, pela historiografia que se ensina, mais pelos pesquisadores e historiadores de esquerda que de direita, é que a política brasileira mudou após o conflito. O exército voltou com mais força e passou a ser um componente importante, muitas vezes o principal, na vida política do Império. Também mais pela esquerda que pela direita, mas não sem concordância desta, conta-se então que essa preponderância dos homens de armas sobre os civis desembocou na República, na Revolução de 1930, no Golpe de 1937 e, de certo modo, no Golpe de 1964. Assim, no limite, a Guerra do Paraguai teria resultado, no plano interno, em um Brasil que passou a depender de sua única instituição efetivamente organizada como elemento de influência decisiva na política, as Forças Armadas.

Tudo isso pode ser, em linhas gerais, ainda que com divergências pontuais, contado no ensino de história. Um bom ensino. Correto. Todavia, ainda assim, não pensado. Propenso a cair no incorreto.

Pensar a história é uma tarefa filosófica. Pensar a história é criar uma epoché filosófica, como uma forma de uma breve isenção quanto a juízos, principalmente os apressados, e se perguntar sobre sofrimentos miúdos, dívidas não pagas, desenvolvimento humano posterior de todos os envolvidos e não somente do lado dos brasileiros e, principalmente, saber o que ocorreu com a vida cotidiana no day after. Não temos isso nas escolas. Após a Guerra do Paraguai, após termos destroçado uma nação, inclusive com nossa tecnologia de ponta, nacional (engenheiro negro, Rebouças – sim, o da Av. Rebouças – esteve lá lutando e inventou um torpedo que influenciou diretamente no curso da Guerra), o que ocorreu na Argentina, Uruguai e principalmente no Paraguai na vida cotidiana? Como que o Paraguai se reergueu como país? Não havia o Paraguai se tornado um país sem homens? E as mulheres estupradas pelos brasileiros? E as crianças abandonadas? O que fez o Brasil ao tomar o país? Foi embora, deixando para trás o seu Vietnã? Como que pudemos voltar e contar para nossas crianças que foi “tudo culpa da Inglaterra”? Como que nunca aceitamos o nome de “imperialistas”? Dentro de cada casa dos paraguaios, onde estivemos para arrebentar com lares, como a vida continuou? Será mesmo que a figura de Solano Lopes como ditador, nos autorizava, com o Império democrático, a invocar legitimidade para a intervenção? Com atuou a propaganda de ambos os lados durante e depois da Guerra? O quanto podemos ou não contar sobre o fato do branco, não raro, ter colocado escravos para lutar em seu lugar, em condições ainda de escravos?

A história pensada pensa o sangue depois da guerra. Pensa o impensado. O impensável. Pensa o proibido. Pensa onde direita e esquerda, por burrice inerente, não podem pensar. Essa história ainda não é a ensinada. Pois ainda vivemos no tempo das escolas que seguram nas mãos a historiografia politizada. A política cansa. Mata a história. Se deixar, domina até mesmo a filosofia. Ela está ligada demais ao dinheiro e, por isso, tudo quer comprar. Uma história politizada quer apenas acalmar as pessoas na convicção já obtida.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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34 Responses “A história ensinada, a história pensada”

  1. Alan
    21/06/2014 at 01:49

    Paulo,
    que você pensa desse debate sobre o nazismo ser de esquerda ou direita?
    Abraço.

    • 21/06/2014 at 09:11

      Alan não há debate, apenas gente na internet, sem formação alguma, sem ensino médio, lendo burrice de Olavo e outros idiotas do tipo.

  2. Mario Luis
    24/05/2014 at 23:14

    Pensar a história pode também ser um evento apropriativo. Isso porque há uma diferença de natureza e não de grau no que concerne ao conceito de historicidade, ou o modo de ser do mundo histórico, o qual tangencia a problemática crítica da história, sobretudo no seu aspecto diferenciador enquanto status científico, conforme Dilthey, o qual, em sua Einleitung in die Geisteswissenschaften, procura estabelecer como instrumental essencial o caráter psicológico analítico, cujo cerne é a vivência.
    Neste diapasão, a diferença apontada reside na bifurcação entre a coleção dos fatos históricos e a relação autêntica do indivíduo em busca da identificação de seu ser. Esse ser pode ser o ser-aí (Dasein) o qual persegue o cuidado da sua lida autêntica no mundo, passando de mero observador para protagonista da história. Esse fazer, essa busca, pode ser expressada como: “Quando você se deixar apropriar-se pela história, então você encontrará o aí que é o seu.
    Abraços,

    • 25/05/2014 at 02:09

      Mario Luis, não, não é por aí que eu vou. Meu Dilthey e meu Heidegger não me servem nessa hora. Pensar a história, como eu expus, é algo menos do século XIX e menos da hermenêutica. É algo não inflacionado de metafísica ou mesmo de filosofia. É uma forma light, desinflacionada, de perspectivismo. Só esse procedimento já melhoraria bem. Eu nunca trabalho, quando falo para outras áreas que não a filosofia, com projeto inflacionados filosoficamente. Não serve.

  3. Alexandre Magno
    24/05/2014 at 01:22

    Você acredita no que dizem sobre os imperadores romanos ou acha que são apenas histórias inventadas pelo Dião Cássio, Suetónio etc?

    • 24/05/2014 at 09:11

      Alexandre, essa não é uma questão. Caso fosse, ninguém seria filósofo ou historiador ou sociólogo etc. Só quando se entende que isso não é uma questão é que se pode fazer “ciências humanas”.

  4. Nelson Felipe
    22/05/2014 at 14:39

    Deixo aqui um abraço ao meu professor de História no EM, Carlos Tadeu Ceratti Viganó, que também ensina Filosofia. Me lembro como se fosse hoje dessa aula; das perguntas sobre as consequências da guerra, dos lares destruídos, até de crianças que morreram queimadas em florestas. Professor Tadeu nos dava isso como elemento de ‘food for thought’, nunca apontando culpados muito menos direcionando conclusões.

  5. Aílton Nunes
    21/05/2014 at 18:44

    Então, a pergunta que não quer calar: Jesus histórico, o homem, existiu ou não existiu?

    • 21/05/2014 at 22:21

      Nunes está pergunta está calada, só os carinhas que ficam procurando alienígena em baixo da cama é que fazem essa pergunta.

    • Aílton Nunes
      22/05/2014 at 00:11

      Ahaha, vc fugiu da pergunta ou acredita mesmo no que falou?

    • 22/05/2014 at 00:37

      O texto está os livros idem. Leia. Não tenho como escrever tudo de novo na net, a cada pergunta.

  6. André Tiveron
    21/05/2014 at 10:22

    OK, mas daí a (parte dos historiadores de esquerda) tentar eleger Marighella a mártir e herói nos livros didáticos é muito cinismo. Foi um terrorista, e como todo terrorista há quem justifique seus atos pela “pureza” dos ideais defendidos (veja o caso das turmas do Hamas e da Al Qaeda…)

    • 21/05/2014 at 10:54

      André, você está no blog errado. No artigo errado. E fumou algo ruim. Sai dessa.

    • MARCELO CIOTI
      21/05/2014 at 11:06

      Geralmente,quem fuma é de
      esquerda.Perguntem ao herói
      do momento,o Mujica do
      Uruguai.

    • 21/05/2014 at 11:15

      Nossa, Marcelo, tá ficando ruim sua cabeça heim?

    • André Tiveron
      22/05/2014 at 10:43

      Ó lá, Paulo, o que estou falando, esta notícia é de uma escola na Bahia que trocou o nome de “Garrastazu Médici” para “Carlos Marighella”… o governador do estado (PT) foi lá fazer fuá dizendo que agora o negócio vai pra frente, pois começamos a reconhecer ” os verdadeiros heróis da pátria”. E no fim da reportagem, o rapazito de 16 anos que estuda lá absorve a ideologia toda…

      http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/04/1439523-escola-baiana-troca-de-nome-e-ve-marighella-como-heroi.shtml

      Isso é válido para o ensino imparcial da História? Promove o conhecimento ou a doutrinação política? Eu acho que é a segunda hipótese.

    • 22/05/2014 at 12:27

      André, essa não é a minha questão no texto. Sobre a mudança de nome, eu fiz um flix news sobre isso. Veja na Flix TV.

    • MARCELO CIOTI
      21/05/2014 at 11:25

      Lembrei de uma coisa,André.
      Pros historiadores de esquerda,
      hoje,Getúlio foi um herói,
      mesmo com a ditadura do
      Estado Novo,enquanto o
      regime militar foi um mini-
      apocalipse.Pouca gente
      sabe que Filinto Muller,que
      apoiou o Estado Novo,
      também foi presidente
      da Arena,no governo
      Médici.

  7. Pepelawer
    20/05/2014 at 22:05

    O que me impressiona é como a nuvem tapa a visão de quase todos e ainda (ou sempre) se permitem acreditar nas estastísticas de guerra, em mísseis cirúrgicos, em repórteres que transmitem o balanço exato das operações, como se fosse possível andar pelo terreno todo a contar defuntos e a esmiuçar nos descombros um a um…afirmações impessoais junto com mentiras oficiosas e desprovidas de sentimentos sobre a “missão cumprida” ou a “eliminação do alvo”. A desumanização da humanidade no seu auge? A guerra sem sentido e sentimentos, apenas por objetivos.
    Seria inútil dizer sobre a manipulação dos fatos e da história pela política e interesses economicos.
    Uma pergunta, filósofo, cuja resposta tenho uma suspeita mas nada concreto: gostaria de saber sua opnião sobre a diferença entre as atitudes e energia dispensada pelo governo americano no que diz respeito aos seus denunciantes recentes Julian Assange e Bradley Manninge e o menos recente Noam Chomsky?
    Cumprimentos pelos textos e pela clareza.
    J

    • MARCELO CIOTI
      21/05/2014 at 11:14

      Chomsky?Putz,ele é o Saramago
      americano.É preciso tomar
      muito cuidado em colocar o
      Obama e o Bush no mesmo
      saco.O Tea Party adora
      quando aparece um Assange
      da vida pra jogar na cara do
      Obama de que ele é
      populista,socialista,etc.
      A mesma coisa faz uma
      certa esquerda aqui,no
      Brasil,quando diz que
      Democratas e
      Republicanos são a mesma
      coisa.Não são.

    • 21/05/2014 at 11:15

      Marcelo, cuidado com o hospício.

    • MARCELO CIOTI
      22/05/2014 at 10:49

      Quem fugiu do hospício,na
      verdade foram aqueles
      sindicalistas bandidos
      que pararam os ônibus
      e infernizaram São Paulo.

    • 22/05/2014 at 12:29

      Marcelo, os sindicalistas são os que não pararam. Agora, quem parou tem o direito de parar. Você não trabalha?

  8. Valdério
    20/05/2014 at 15:31

    Seu texto me fez lembrar de algo que eu penso há muito tempo… Com que direito o Chile, banhado de norte a sul em seu pequeno território, retira da Bolívia a sua saída para o mar? Independente de qualquer que tenha sido a motivação para a guerra entre aqueles países, devemos pensar se é razoável condenar gerações, por séculos, a não ter uma saída para o mar, por uma guerra em que não tiveram participação. Você tocou no ponto certo Paulo. Pessoas carregadas de ideologia nos acusam de defensor de alguma ideologia quando apontamos algo assim. Por mais que tentemos explicar que estamos tratando de um assunto específico.

    • 21/05/2014 at 10:59

      Valdério, não sei de conflitos regionais. Meu texto é bem menos pretensioso.

    • Valdério
      21/05/2014 at 14:53

      Sim Paulo, o que você escreveu é menos pretensioso. Porém trata do mesmo problema. Quando não podemos debater temas sem nos empurrarem para um “time”, o debate (e por consequência, as aulas) empobrecem. Não é só entre filósofos. Não é só entre historiadores. Isso já se arrastou para as outras áreas de humanidades. São os ideólogos atrasando a academia.
      No exemplo que dei, não consegui conversar com muita gente, porque ficam procurando relações com direita e esquerda. Ninguém conversa aquele assunto de acordo com o mérito do próprio assunto.
      Em algum momento da história, houve debates se era certo haver escravidão. No filme que você assitiu e comentou “Lincoln”, isso era mostrado. A tentativa de desqualificar o grupo que defendia o fim da escravidão era acusá-lo de ideólogo da igualdade entre etnias, o que foi refutado de forma inteligente, para que a votação não se desviasse do tema.
      Não precisamos exigir que ninguém abandone suas ideologias. Porém podemos exigir que utilize suas reflexões para estudar um tema sem atalhos ideológicos.
      Mesmo sem pretensão de se aprofundar. Bela reflexão a sua a sua sobre a Guerra do Paraguai.
      Abraço.

    • 21/05/2014 at 15:18

      Valdério, eu não tenho ideologias por obrigatoriedade do ofício. Eu posso é cair nelas ou sob elas. Adotá-las, jamais.

  9. MARCELO CIOTI
    20/05/2014 at 13:02

    Mas que o Solano Lopes era ditador,
    era.Mais tarde,veio outro tão ruim
    como ele,o Stroessner.
    O Paraguai além de outros
    países vizinhos,me lembra
    aquele filme Bananas do
    Woody Allen.

    • 20/05/2014 at 13:11

      A história ensinada, é a sua. A história pensada faria você pensar e não escrever isso.

    • MARCELO CIOTI
      21/05/2014 at 11:08

      E hoje o querido Paraguai tem
      como Presidente um
      contrabandista de cigarros.
      É como imaginar o Marcola
      ou o Fernandinho Beira-
      Mar presidentes do Brasil.

    • 21/05/2014 at 11:15

      Cabeça ruim heim?

    • Campeão dos Campeões
      21/05/2014 at 15:06

      Cara, vc fala de mais de política, já imaginastes em se candidatar a deputado estadual? Pense nisso caro filósofo.

    • Campeão dos Campeões
      21/05/2014 at 15:08

      *demais(corrigindo).

      Aliás, em quem vc vai votar aí no RJ? Não me venha dizer que vota nulo.

    • MARCELO CIOTI
      21/05/2014 at 15:37

      Campeão,o PG é
      candidato a ser um
      filósofo a serviço da
      filosofia e da educação
      no Brasil.E isso vale
      muito mais do que
      estar em algum
      partido político.

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