Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/05/2017

Zé Dirceu, herói patológico de si mesmo


Não é só Zé Dirceu que tem uma biografia impressionante entre os presos da “Lava Jato e dividendos”. Várias das pessoas que ali estão nas cadeias da Lava Jato são “figurões”, e isso no bom sentido.

Entre os presos há um físico renomado, há proprietários de empresas monstruosas, há engenheiros competentes e administradores bem conceituados. Todos ali, até mesmo o doleiro, o “bandido originário”, conheceram o que é uma vida não só materialmente boa, acima do que os comuns mortais podem ter, mas também o poder em forma de substantivo e de verbo. Todos ali conheceram o que é ser assediado por gente querendo ter o privilégio de bajulá-los. Eles nunca puderam em nenhum momento achar que uma revolução silenciosa pudesse trazê-los para os cárceres, na frente da TV, algemados.

A vida de todos eles chegou ao fim. Morreram em vida. Ou pior, estão no inferno em vida. Alguns são jovens, mas outros já estão na casa dos setenta anos. Diplomas, prestígio, respeito familiar, capacidade de falar grosso… tudo se esvai em poucos dias. Nenhum deles poderá se recuperar. Mesmo os mais jovens, depois disso tudo, sairão profundamente mais velhos. Amargarão a frase tola que para eles se tornou ironicamente verdadeira, “o crime não compensa”.

Eles nasceram em um país em que se dizia que o que valia era trabalho conjunto dos dois irmãos siameses, dinheiro e impunidade. Agora, cada um deles tenta olhar para o espelho e encontrar forças morais para acreditar que ainda é “gente boa”. Ser “gente boa” é o que precisamos dizer a nós mesmos para poder cometer infrações.

Quando observamos Zé Dirceu andando em direção aos cárceres da polícia, agora pela segunda vez, notamos que ele está cada vez mais magro, que seu rosto ganhou todas as rugas do mundo, que sua expressão está profundamente alterada. O que nesse momento passa pela cabeça dele? Nada moral, apenas político, a sua vida é só política. Ele está envolvido em uma “luta de classes” – é o que, de maneira doente, diz a si mesmo.

Há algo que faz de Zé Dirceu um elemento de uma força incrível, que é aquilo que Cioran tratou como o fanatismo. O fanático é convencido de que luta por um bem, pelo certo, e que está em uma guerra eterna na qual seu lado, seja qual for, é o que está com a Verdade ou com Deus. Zé está abatido, mas não batido; ele vai morrer sem dar o braço a torcer. Tolos são os que acham que ele vai “dedar” alguém. Para ele há duas coisas certas na vida: primeiro, a “política burguesa” é desonesta nos seus objetivos e sua sujeira é maior ainda no seu desenvolvimento, portanto, lutar contra ela estando nela é uma luta com os seus instrumentos, a sujeira da corrupção; segundo, “o povo” precisa de uma liderança que lute por ele, mesmo que em nenhum lugar se possa encontrar alguém que diga, por esse povo, um “obrigado”. Esse é o pão sagrado do fanático. O fanático de esquerda ou direita na política é como o fanático religioso da Idade Média, se metendo em Cruzadas.

Os outros presos têm outras convicções para se sustentarem ainda sobre duas pernas, na negociata da delação premiada e nas idas e vindas de um calabouço a outro. Mas nem de longe elas passam perto da motivação, que é o fanatismo, que faz Zé Dirceu andar ereto. E notem: sem algemas, diferente de todos os outros presos da mesma operação. Zé Dirceu se acha ainda com a mesma fé de quando esteve em Cuba, na carreira de guerrilheiro, ao se refugiar da perseguição da Ditadura Militar. Há testemunhos que até podem ser verdadeiros, de que Zé Dirceu não fez o treinamento devido em Cuba, que era moleirão. Mas isso não muda nada em relação ao fanatismo. Que se tenha claro um detalhe: o fanático não precisa ser atleta. Ele tem uma força maior que o atleta, que é o fanatismo. Ele se põe para si mesmo como herói – herói espetacular.

Há sempre duas grandes possibilidades para o herói espetacular: ou ele é fruto de circunstâncias terríveis que o jogam contra a parede, e então, torna-se um bravo; ou ele é um fanático, que levanta todos os dias como que já estando na parede, e sai de casa inquebrantável, de capa e espada. O herói cria seu mito e então é admirado. Mas, nos dois casos, trata-se de uma patologia. Ou uma função exagerada da reação da adrenalina, ou um ascetismo desmedido por conta da crença fanática, é isso que está nas veias do herói. Nenhum jovem deveria admirá-los, mas os heróis existem e eles são e serão admirados. A patologia especial, desse caso, produz seguidores. O doente passivo segue o doente ativo.

Pessoas propensas a gostar de heróis (nesse sentido aludido), ou seja, de personalidades doentias, não raro são elas próprias doentes. Ora, o que mais tem em partido político, e não só de esquerda de tipo bolchevique, é gente fanática, doente. Encontramos fanáticos até em partidos liberais centristas! Há quem defensa com radicalismo teses não radicais. É possível ser fanático, doente, por coisas muito diferentes. A política de Zé Dirceu, que o faz sempre se achar correto, guiado pela Verdade ou Deus, é um dos elementos mais criadores de personalidades patológicas. Vocês notarão isso, se é que não viram ainda essa obviedade que estou anunciando.

Nessa hora verão também ao lado de vocês, talvez dentro de suas próprias casas, outros fanáticos. Cuidado. Alguns deles latem e não mordem, outros mordem sim.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015)

Tags: , , , ,

10 Responses “Zé Dirceu, herói patológico de si mesmo”

  1. ghiraldelli
    05/08/2015 at 12:33

    Não há no texto isso que falou.

    • João
      05/08/2015 at 23:27

      “Há sempre duas grandes possibilidades para o herói espetacular: ou ele é fruto de circunstâncias terríveis que o jogam contra a parede, e então, torna-se um bravo; ou ele é um fanático, que levanta todos os dias como que já estando na parede, e sai de casa inquebrantável, de capa e espada. O herói cria seu mito e então é admirado. [n] Mas, nos dois casos, trata-se de uma patologia.[/n]”

  2. Bruno Fanp
    04/08/2015 at 21:15

    Realmente o enxerga como um bolchevique? Pode até ser que alguns de seus pares tenham essa mentalidade, mas duvido que seja a dele (ou mesmo das 4 mil pessoas que lhe doaram para que ele quitasse a multa do mensalão). Dirceu me passa a imagem de ser um psicopata, um farsante, um engodo, como tantos outros em posições de poder. Aliás, você leu o que escreveu Xico Sá? Esse é o ponto mais baixo que já vi chegar a esquerda desse país.

    • ghiraldelli
      04/08/2015 at 21:16

      Bruno estou começando a me cansar da falta de informação do meu leitor. Desculpe-me, mas não vou explicar a história do bolchevismo. O brasileiro precisa de ensino médio, não aguento mais.

  3. Fernando Martini
    04/08/2015 at 20:06

    Eu acho que, no fundo, ele espera que o PT mexa uns pauzinhos para lhe deixar preso, mas com conforto.

    Não sei se é possível apontar os motivos que Dirceu não dedurou ninguém, mas acho complicado ver nesse ato de lealdade com os corruptos algo como uma heroísmo ou coisa do tipo. Ele teria que ser um tanto quanto esquizofrênico para acreditar que toda essa roubalheira era necessária para conduzir o país e o povo a um lugar melhor, que tudo isso fazia parte do jogo. Acho que nessas horas ele tem tido mais medo de ser totalmente abandonado pelo partido do que estoicismo.

    • ghiraldelli
      04/08/2015 at 21:09

      Fernando meu texto ajuda você a estudar, inclusive cita o fio da meada.

    • Fernando Martini
      04/08/2015 at 21:54

      Embora a questão do que faz as pessoas serem consideradas heróis, ou o que as faz se considerarem assim seja interessante, ando sentindo uma antipatia um tanto grande pelo PT. Os donos da política raramente escapam de um olhar mais crítico sem que provoquem asco, talvez pela inveja que o poder cause nos sem poder…

  4. Thiago Leite
    04/08/2015 at 17:25

    Batman é um herói patológico?

    • ghiraldelli
      04/08/2015 at 21:10

      Batman não é um herói, é um personagem de HQ.

  5. Matheus Kortz
    04/08/2015 at 16:16

    Nossa o que há de histórias, muitas literárias e ficcionais que já nos ensinam sobre como é perigoso esse tipo de personalidade “iluminada” que busca seguidores, mas ninguém faz nada sozinho, os seguidores serão cumplices, tão culpados quanto (não no sentindo dos crimes cometidos) mas dos efeitos aos rumos da sociedade…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo