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07/04/2020

O youtuber adepto do chamado “realismo ingênuo”


Critiquei o youtuber Pirulla por uma razão simples: ele é adepto, talvez sem o saber, do realismo cientifico. Do que se trata? Fácil explicar: ele toma a narrativa da evolução diante da narrativa do designer inteligente como comparáveis. Elas não são. Se assim faz, cai no mesmo erro dos religiosos criacionistas, só que no sentido inverso.

Explico: a narrativa criacionista é baseada nos Evangelhos, e estes são do gênero literário da poesia, oriundos da forma oral e encantada de lidar com o mundo e de regrá-lo moralmente para benefício do homem antigo. A narrativa evolucionista é baseada em Darwin, e este trabalhou com o gênero literário chamado ciência – tipicamente moderno – algo que faz os homens olharem o mundo e olharem a si mesmos segundo um modelo que não é de integração, mas de explicação.

O positivismo é a doutrina que incentivou o realismo científico, típico do século XIX. Muito do evolucionismo se filiou ao positivismo. Ainda hoje, há evolucionistas positivistas, que não percebem que não devem debater com criacionistas ou divulgadores dos Evangelhos. O youtuber Pirulla é um deles. Critiquei o rapaz não para desmerece-lo, mas, sim, ao contrário, por consideração. Vi nele um educador popular que tem potencial e, portanto, que deve ser alertado do erro. Erro, claro, na visão da filosofia do pragmatismo e, em geral, de toda a filosofia contemporânea. (Os próprios positivistas ou neopositivistas não acham que estão errados!)

A filosofia contemporânea é, em geral, 1) antiplatônica e 2)  antipositivista. Ou seja, 1) a filosofia contemporânea (Rorty, Davidson, Foucault, Nietzsche, Derrida, Deleuze etc.) é antiplatônica porque não acredita que exista uma narrativa universal, ou seja, um instrumento geral que sirva para todo tipo de coisa, todo tipo de objeto ou problema. Uma chave universal para todas as portas, como queria Platão, é algo que causa desconfiança na filosofia contemporânea. 2) O pensamento de Comte, o positivismo, com seu realismo científico, é algo que não cabe na filosofia contemporânea, pois esta vê a ciência como autora de modelos trocáveis, perecíveis e, portanto, incapazes de darem conta do real definitivamente.

Entre os filósofos contemporâneos – Rorty à frente – a ideia básica é de que o melhor modo de atuar hoje em dia é usar de narrativas que funcionam segundo instrumentos. Se queremos fazer um discurso de consolo (na morte de alguém) podemos usar a poesia, laica ou religiosa, mas se queremos levar o homem à Lua talvez seja melhor usar da narrativa científica – a física de Newton e a física pós-Newton. Se queremos namorar é bom falarmos da Lua segundo seu brilho, em acordo com o brilho dos olhos da moça nossa namorada, se queremos ir à Lua é bom falarmos segundo a astronáutica.

A ânsia do youtuber realista ingênuo e de positivistas em combater a religião os leva a não perceber que o mito judaico cristão não é mais um concorrente da evolução. Talvez, no máximo, um concorrente político. Mas não é um concorrente efetivo, em termos de descrição da realidade, pois ele é um mito, ou seja, uma narrativa poética que traz quem o recita para o mundo cristão do respeito ao amor enquanto lei universal de Deus. E a narrativa científica não faz isso, ela no máximo integra os cientistas enquanto corporação, de resto ela serve para construirmos carros, naves, fazer descobertas médicas etc.

Na escola pública, se ensinamos gêneros literários (na disciplina Português), podemos admitir então que existam disciplinas que adotem um gênero literário par excellence: a narrativa da ciência é uma narrativa válida na aula de química ou física, enquanto que a narrativa poético-religiosa poderia caber na disciplina religião. Não há razão de tirar nacos da cultura, válidos para a formação do jovem, da escola pública. Tirar da escola a Bíblia nos levaria a tirar a Ilíada e a Odisseia! Ao final, teríamos uma escola empobrecida.

Foi isso que fiz no vídeo, e que agora, em texto, explico. Uma breve lição de filosofia contemporânea. Talvez o próprio Pirulla não saiba aproveitar dela. Mas outros, com mais curiosidade e tempo, saberão.

Paulo Ghiraldelli Jr.

 

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11 Responses “O youtuber adepto do chamado “realismo ingênuo””

  1. Bruno Leobleim da Silva
    14/02/2020 at 14:52

    Professor muito bom!

    O que acha dessa gama enorme de Youtubers que tem aparecido e feito seus vídeos numa postura que mostra seu Conteúdo como a “Grande Revelação do Século” ou que trás uma “Verdade Absoluta do Mundo” ? Criando os Virais e Baits (Iscas Para Atenção e Cliques do Espectador)
    Qual o Futuro dessa Empreitada e da Sociedade se Comprar estas Ideias e Ideais como Certo ?

    Um Abraço.

  2. Umberto marineu basso filho
    05/02/2020 at 17:55

    Paulo saindo do confronto direto para analisar os fenômenos..parabéns Paulo…parece que o positivismo assim como o kantismo moldam o pensamento moderno…facilmente escorregamos em cascas de banana..hegel também contribuí mas de outra maneira…debaixo deste guarda chuva cultural a sociedade acaba perdendo tempo nas suas mesquinhes…precisamos urgente de um novo modelo de representação

  3. Leonice
    04/02/2020 at 23:04

    Ótimo professor!
    Sempre muito claro e certeiro. Aprendo muito, meu ensino médio foi deficiente. Ainda bem que tem pessoas como o senhor e outros que tem corragem de se expor para nos ensinar.
    Obrigado.

  4. Leonice
    04/02/2020 at 23:01

    Ótimo professor!
    Sempre muito claro e certeiro.
    Obrigado.

  5. Victor Figueiredo
    04/02/2020 at 19:37

    Questões: A linguagem científica objetiva a máxima aproximação do real, com resultados positivos nesse sentido. Dizer que está no mesmo patamar das demais expressões (todas com seus méritos próprios) é dizer que por uma sonda em Marte é o mesmo que consolar uma velhinha. E talvez a ciência tenha algo a dizer sobre consolar velhinhas.
    O Pirula não “se traiu” ao falar que não deveria haver aula de religião. A posição dele é de que sendo o estado laico, nas escolas PÚBLICAS, não deveria haver. A linguagem mágico-religiosa deveria estar nas aulas de, vejamos: filosofia, ora! Caso esta matéria não seja extinta nesse atual governo, que põe um criacionista no CAPES. Aliás, o assunto era esse e não religião ppd.
    A filosofia nos ensina que devemos considerar todas as linguagens, exceto a platônica e a positivista. E se eu quiser mergulhar no conceito de arquétipos. Ou se quiser alienar uma população com viés fascista? Porque abandonar o estudo destas?

    Inegável o conhecimento absurdo do mestre Ghiraldelli. Uma imersão nos conceitos de método científico e filosofia da ciência talvez ajudem a dissolver os equívocos de lógica cometidos nessa crítica.

    • 08/02/2020 at 16:54

      Querido, antes de falar “aproximação com o real” temos de definir o “real”, e aí o positivismo já escorrega

  6. Carlos Eduardo
    04/02/2020 at 18:53

    Texto impecável! Fiquei muito admirado pelo encadeamento expressivo simples em forma e complexo em conteúdo!
    Concordo com quase tudo do que foi explanado no texto acima; eu acho que o excesso do qual o Pirula não se livra, e que de certa forma causam danos a credibilidade de seus argumentos, é a “militância” teimosa pela Ciência. Eu sei que ele (e nisso eu sou parecido) defende o rigor do método científico à la Carl Sagan, mas ainda falta-lhe a sutileza e a sensibilidade de reconhecer o porquê de precisarmos tanto dos mitos religiosos…
    Finalizando, acrescento apenas que compartilho com o Pirula o temor de que políticos oportunistas dêem mais espaço e importância do que o necessário nas escolas a mitos e fundamentos religiosos, em detrimento à formação crítica e ao rigor de métodos científicos nas pesquisas e demonstrações de resultado…

  7. Leonardo Santos
    04/02/2020 at 18:33

    Extremismo, seja ele qual for científico, religioso, partidário….. não é bom pra sociedade, se não regressamos ao olho por olho e dente por dente.

  8. Nicholas Turra
    04/02/2020 at 04:16

    Professor como sempre autêntico, e sempre querendo nos melhorar intelectualmente.
    As pessoas julgam sem ler, julgam sem saber interpretar o vídeo, o trabalho que o senhor faz, não é para qualquer um. Vc não ofende ele, nem nada do tipo, só coloca a visão filosófica para funcionar, as pessoas apegadas pelo Pirula acabam se sentindo ofendidas, ao ponto de saírem em nome dele xingando o senhor. É um fanatismo mesmo, o espetáculo que o capitalismo nos provocou, e que nos provoca, atinge a todos os espaços. Não querem pegar as ferramentas que o senhor nos dá para aprender a interpretar tudo a nossa volta. Cresci e cresço muito intelectualmente com o senhor, obrigado mais uma vez por essa análise precisa do positivismo como um todo, que nos provoca um grande espetáculo de luzes que ficamos cegos na hora de enxergar a verdade.

  9. João Pedro Mucheroni
    03/02/2020 at 23:47

    Muito bom! Cirúrgico!

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