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28/04/2017

Woody Allen mostra o (falso) professor de filosofia


Há no Woody Allen velho uma capacidade de contar histórias simples e boas capazes de nos estarrecer. A última é sobre um professor de filosofia. Mas não é um professor qualquer, é bem pior que isso. É a respeito daquele tipo que temos também por aqui no Brasil, que posa de amargurado, pessimista, fazendo ar blasé para tudo. As pessoas acham que ele está fazendo filosofia, mas ele não está, é apenas um frustrado a mais. Um pobre diabo que mostra isso na proeminência de sua barriga – não deixem de notar! (A barriga proeminente é sempre um sinal de estultice em Allen, confesso, com alguma razão). 

O enredo de Irrational man (Woody Allen, Estados Unidos, 2015) conta a história de um professor de filosofia que chega a uma universidade para um curso semestral, envolvendo-se com uma professora e, claro, com uma aluna. Sem gosto pela vida, desanimado de tudo, ele encanta a aluna antes por sua perspectiva sombria sobre o mundo do que por qualquer outra coisa. Ele só recupera o ânimo de viver quando repõe em sua vida um objetivo, o de matar um juiz, seu desconhecido, que estaria prejudicando uma mulher, também desconhecida. Muito bom para um professor de filosofia que havia sido militante de tudo e que desconfiava (!) que até então, inclusive seus livros, não haviam “mudado o mundo”. Claro que aluna não percebe tudo isso, e imagina que a mudança do humor de seu professor se deve aos dotes que ela possui entre as virilhas, e talvez outros mais.

As pessoas não envolvidas com o universo acadêmico ou que fizeram universidade sem muito atinar para o que estavam fazendo não vão dar valor algum para o filme. Não é um filme para gente da Casa do Saber – garanto! História banal e previsível, dirão. Mas o filme é profundo sobre os nossos dias. Olhando ao lado, no Brasil, vocês vão encontrar o banal pessimista tendo êxito em alguma coisa de uma maneira parecida aos que escrevem auto-ajuda, mesmo fazendo algo parecido com o oposto. Esse tipo é profundamente medíocre. E é exatamente o que o professor de filosofia (Joaquim Phoenix) de Woody Allen é, um medíocre. Allen sabe das coisas, uma vez que sua graduação universitária é em filosofia. Atento ao movimento atual da cultura, ele preparou com carinho um escrito jocoso sobre o resultado do que Hannah Arendt chamou de “filisteu da cultura”.

O ponto chave do filme é dado pelos professores do departamento de música, pais da aluna (Ema Stone) envolvida com o professor de filosofia. A mãe da aluna diz para ela: não se envolva seriamente com o professor, ele é atrativo antes pelo seu estilo de escrita que pelo conteúdo dos seus livros. É um instante que pode passar despercebido por quem vê vendo o filme sem ligar muito para o fato de que o professor é um professor de filosofia. Mas Allen dá mais dicas apresentando diversos momentos do professor de filosofia, no qual ele mostra que suas aulas são sempre sobre o que é o mais fácil, sobre o que é quase o cliché dos autores que expõe, e se aproveita disso para desmerecer a filosofia, fazendo o jogo de cena que cativa o inexperiente deslumbrado com o “radicalismo” do professor.

É fácil ver isso em todos os momentos do filme, e se é necessário um exemplo aqui, então que seja sobre a preleção sobre Kant, em aula. O exemplo do professor para desmontar o postulado moral de Kant de não mentir é a velha estocada dada por Adorno, entre outros: mentir para o guarda nazista que busca o judeu na sua casa, segundo a lógica de Kant, não seria moral, enquanto que para nós a delação é que não seria moral. O professor qualifica só o dito de Kant como filosófico, e dá o exemplo dos autores frankfurtianos sem citá-los. Então, com isso, termina a aula dizendo que a filosofia é verborragia que não vale para a vida real. Bobagem pura isso, mas bem presente nos jornais aqui do Brasil, na boca de gente que faz mais cliché que o professor de Allen. Aliás, um tipo tão medíocre quanto qualquer pseudo-trágico: ele tem como projeto inacabado um livro sobre Heidegger – não qualquer livro, mas o suprassumo do tema batido e imbecil, “Heidegger e o nazismo“. Woody Allen sabe ser contemporâneo e nos divertir, afinal, livros assim ainda vendem bem! Pois o público filisteu adora um livro sobre esse assunto, podendo com ele conversar sobre Heidegger escapando de ler Heidegger. Allen chega até a abusar dos clichés na boca do professor e, enfim, da aluna: ambos gostam de Dostoieviski, discutem existencialismo e, claro, não escapam da frase “o inferno são os outros”. Há até uma gozação peculiar: em uma aula o professor solta a pérola: a filosofia continental é preferível à filosofia analítica, uma vez que ela cuida de problemas da vida, problemas fundamentais etc. etc.

O desfecho do filme pode ser previsível, até por conta do título da película, e como sempre, tem um toque irônico, de modo a não negar o estilo de Woody Allen. As lições morais do filme são claras e, o mais engraçado: também são banais. Ou seja, no limite percebemos que a jovem dita inteligente pelo professor era mesmo sua aluna em tudo, pois também ela é uma tola, mais com vocação para detetive que para o conhecimento de filosofia ou qualquer outra coisa. Nunca Woody Allen havia feito um filme tão capaz de captar uma realidade atual, brincando com a pseudo-filosofia, como desta vez. Acertou em cheio.

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Ah, só um detalhe: a lanterna é luz, e luzes são a Razão, a metáfora para a Iluminismo, a própria filosofia. Escorregar numa lanterna tem tudo a ver como tropeço do falso filósofo na filosofia. Você vai se lembrar desse aviso ao final do filme.

Mais um detalhe: repare que até para “pegar” seu professor no crime, a aluna vai por uma pista que é ridícula, ela lê num manuscrito do professor uma frase que ele havia tomado nota: “a banalidade do mal”, de Arendt. É hilariante que isso, lido por uma pessoa culta, não seria pista de nada, mas para a aluna tão medíocre quanto seu professor, virou pista sobre um maldade real!

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “Woody Allen mostra o (falso) professor de filosofia”

  1. Coelho De Moraes
    05/09/2015 at 14:34

    Assisto Woody Allen desde seus primeiros filmes. Acredito também que, um tanto alheado do star system – filmes de baixo orçamento e tal – o que temos é apenas UM FILME dividido nessas dezenas de capítulos que são os vários títulos publicados por ele. Quem deseja assistir a Allen como se fossem suas obras, obras fechadas em si, assistirá apenas como entretenimento e nada mais. Pode dizer gosta ou não gosta em puro achismo. Quem deseja mergulhar no afastamento do senso comum pode apostar nos vários capítulos da obra de Allen. Certamente teremos mais uns vinte capítulos pela frente. Viva Allen!

    • 06/09/2015 at 00:10

      Não tenho NENHUM interesse por Woody Allen. Entenda isso.

    • Coelho De Moraes
      06/09/2015 at 19:49

      É fácil de entender… mas, como as pessoas, educadamente leem o que o senhor posta, as pessoas comentam, se não para o autor, para demais leitores… eu falo sobre o assunto quando me interesso pelo assunto. Muito dificilmente falaria sobre um assunto ou autor que não me interessasse. É até curioso tocar no nome de um autor sem se interessar por ele. Ah! Woody Allen nunca se graduou, apenas frequentou a Universidade. Ora, se uma fonte é equivocada, quantas mais não o serão?

  2. roberto quintas
    31/08/2015 at 13:36

    interessante, professor. então é possivel um filosofo, um catedrático ser tão profundo quando as capas de livros que este alega ter lido, ou podemos dizer que a pose afetada concede ao personagem um estereótipo do que é um filosofo na ótica de WA?

    • 31/08/2015 at 14:40

      Veja o filme e tente entender Woody Allen no que for possível para sua experiência.

  3. Gregor Santos Moraes
    30/08/2015 at 18:44

    Woody Allen graduou-se em que universidade professor Ghiraldelli?

    • 07/09/2015 at 03:01

      Woody Allen não é graduado em Filosofia.

    • 08/09/2015 at 12:33

      ha ha ha boa!

  4. Matheus Kortz
    30/08/2015 at 14:14

    Fiquei cuma puta vontade de cer esse filme, deve render umas risadas gostosas como a da Arendt na entrevista do “zur person” quando questionada novamente sobre Eichmann… e agora fico tbm com uma vontade a mais de perder a proeminencia da barriga hehehehe (sei que objetivamente isso nao teria nada a ver, mas nao podia perder a brincadeira)

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo