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22/10/2017

A vulva duplicada… ou triplicada? Ou …


A vulva duplicada. Estamos no fim da era de Platão e, de certo modo, também de Nietzsche?

Uma das ideias centrais de A sociedade do espetáculo, de Debord, é que as imagens em uma sociedade como a nossa se esvaziam de significado. Essa nossa sociedade é aquela que, na linha das análises marxistas, o abstrato predomina sobre o concreto, por causa da equalização de tudo ao modo da equalização que se efetiva no mercado, onde o que há só tem valor de troca e não valor de uso. O espetáculo é a sociedade em que tudo é para ser mostrado em máxima velocidade e intensidade, pois qualquer coisa vista satisfaz, já que o seu significado, que poderia ser apreciado por cada um de nós, desaparece completamente. Digo, então, que a “sociedade do espetáculo” é a da proliferação do espetáculo, não propriamente a da importância do espetáculo. E mais: o espetáculo não é, aqui, o que se apresenta como “show”, mas o que se apresenta como o espelhável, o que se reproduz incessantemente por uma continuidade de espelhos diante de espelhos.

Nessa sociedade, então, por essa perspectiva de análise, a mais difícil das tarefas é saber distinguir a realidade da cópia. Pois se todas as imagens já se equivalem, o que dizer daquelas que, além disso, ainda tenham como agravante a semelhança física em termos de conteúdo?

Tudo se passa nessa sociedade como em uma Caverna de Platão sem Platão. As imagens estão lá, mas não existe alguém capaz de sair da Caverna, ver o mundo real e, então, voltar para dizer que ali o que se tem são sombras. O que ocorre é que ninguém pode contar essa história a partir de uma terceira pessoa, ou seja, a de Platão. Pois a cópia e o real são semelhantes de tal modo que o fora e o dentro da Caverna abocanharia até mesmo o filósofo, aquele que, pelos poderes intelectuais e pela disciplina de formação, estaria destinado a efetivamente achar que há realidade e cópia.

Como repor Platão? Essa é a questão colocada, da minha perspectiva de filósofo, quanto ao trabalho da artista luxemburguesa Deborah de Robertis. Ela realizou uma performance aparentemente simples, mas com um bom alcance problematizador. Sua foto (figura abaixo) de pernas abertas para o público potencial do quadro de “A origem do mundo”, de Gustave Coubert, é um trabalho que, segundo a sua própria interpretação, teve como objetivo repor a polêmica da obra, como a que causou quando o quadro foi exposto. Mas, na minha visão filosófica, a performance acaba servindo a mais que isso. Ela põe em cheque a questão central de nossa sociedade enquanto “sociedade do espetáculo”.

A questão é esta: qual a vulva que deve ser considerada a que apresenta partes pudendas e, então, ser protegida dos olhos daqueles que devem ser protegidos moralmente, segundo os que acham que isso deve ser feito? Em outras palavras: os censores do mundo todo deverão cobrir a primeira, a de Coubert, ou a segunda vulva, que já nem é a de Deborah, mas a da foto dela

Vejamos a saída da imprensa francesa: cobriram por meio de mancha digital a vulva da foto de Deborah. Também foi essa a opção dos que postaram no Facebook. Em alguns veículos franceses nenhuma vulva foi manchada. Mas, sabemos bem, em outras ocasiões, quando só o quadro de Coubert foi apresentado no Facebook, houve censura total, ou seja, quem publicou a foto do quadro foi suspenso da rede social – e isso é feito por número de denúncias dos próprios usuários contra a conta de quem postou a foto.

Onde está Platão? Deborah parece querer ser o Platão ou o que poderia ter restado dele. Ela quer que por essa ginástica dos censores, brandos ou não, a questão da cópia e do real se ponha novamente. Há ou não chances de, na “sociedade do espetáculo”, ainda criarmos alguma distinção a respeito do real e da cópia? Ou a própria distinção já é apenas uma conversa fiada, uma linguagem presente, mas semanticamente esvaziada?

Só a confusão do censor pode fazer de Deborah um Platão reposto. Caso ninguém venha a reclamar de uma das vulvas, ou ao menos ter a curiosidade de olhar a foto completa, para apreciar a vulva de Deborah, Platão poderá ser tomado como desaparecido. A dualidade real-cópia, que tanto o preocupou, e que de fato aparece como fundamental para os que se acham críticos ou querem se educar como críticos, terá ido pelo ralo. Então Nietzsche, que disse que a metafísica platônica é, hoje, nosso senso comum, também estará errado. Pois não estaríamos mais funcionando, de fato, com tal metafísica em nossa mentalidade. Efetivamente, estaríamos falando apenas de um único plano, não mais de dois planos distintos.

Deborah atirou no que viu e pode ter acertado no que não viu. Ao colocar a possibilidade do retorno de Platão, pode ter anunciado o fim não só dele, mas também o da análise de Nietzsche. Não estaríamos vivendo em mundo algum, nem o de Platão como filósofo, denunciador de dicotomias, nem o de Nietzsche, denunciar do denunciador de dicotomias.

Mais de um filósofo confiou na arte como a única força capaz de filosofar em tempos de descrédito da filosofia. Será que é isso o que vivemos?

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

Figura (Clique aqui e veja a referência)

Artista Deborah de Robertis faz performance diante de A origem do mundo (Gustave Coubert) museu D'Orsay (Paris),  29 maio de 2014.

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4 Responses “A vulva duplicada… ou triplicada? Ou …”

  1. Afonso
    05/06/2014 at 16:59

    Puxa, tinha acabado de ler/ver sobre essa artista e sua ‘performance’. E, então, nos oferece essa reflexão. Muito bom.
    Todavia, outro aspecto com o qual tenho me deparado ultimamente em nossa ‘sociedade’ em que “o espetáculo é a sociedade em que tudo é para ser mostrado em máxima velocidade e intensidade” é com a divulgação/reprodução em redes sociais de vídeos com vítimas de acidentes graves, simplesmente expostas, e as pessoas que as filmam nem chegam a tremer, outras se deleiteiam com tal ‘espetáculo’.

  2. manoel lucas
    05/06/2014 at 16:16

    Indo Platão para o ralo, Angostinho e Aquino também?
    Se Deborah já não é Deborah, o sujeito então desaparece? Poderia ser eu, numa foto do Facebook, que depois de viajar horas, paro para tomar um refri, numa praia ensolarada, tiro uma foto de camisa aberta e sobressai a cicatriz, agora um não sujeito? Já não é mais o Manoel Marthos… Ou aquela do Ghiraldelli, com o rosto coberto, devido ao frio intenso no Rio de Janeiro, também, agora vista em um só plano…As fotocópias, de Deborah, a da minha da cicatriz, ou a do Ghiraldelli vista em um só plano…Não mais distintos…A expressão do calor desaparece ao verem minha cicatriz, desaparece o frio, a razão do rosto coberto do Ghiraldelli…Desaparece Deborah e sua real vulva…

  3. Tiago de Andrade
    05/06/2014 at 10:43

    Cópia ou não cópia, é uma delícia!

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