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27/03/2017

O que é o volume I da trilogia das Esferas de Sloterdijk


O volume I da trilogia das Esferas de Sloterdijk é uma espécie de “arqueologia da intimidade”. O filósofo alemão trata da noção de subjetividade, mas o faz segundo um trajeto completamente heterodoxo na filosofia. Articula saberes de várias origens e planos, que vão da antropologia e história dos mitos para desembocar na psicologia e filosofia, passando por história da religião e uma crítica à psicanálise. Entende o livro como parte de um trabalho filosófico no plano da esquerda política (tomando essa expressão de modo amplo), uma vez que, como ele mesmo diz, está preocupado com as fontes reais da solidariedade.

A pergunta que norteia o livro tem a ver com aquela de Martin Bubber, célebre Eu e tu: por qual razão as crianças parecem nascer com uma espécie de “instinto de relações”? Sloterdijk está convencido, e mostra em detalhes, que não nascemos sozinhos e, então, por um trabalho cooperativo e da linguagem nos socializamos. Não! Nascemos como biunidades: um Aqui e um Com, que pode ser tomado como a relação entre feto e placenta, numa relação de simbiose, notadamente de sintonia ou, nos termos dele mesmo, ressonância. Na verdade, trata-se de uma relação sinestésica-acústica de uma biunidade consigo mesma. Aí está o segredo da intimidade: desde o início é no mínimo dupla, relacional, afinada com o que mais tarde irá se chamar subjetividade feita para a solidariedade.

Nesse sentido, Sloterdijk rejeita uma antropologia filosófica com o homem sob modelo cartesiano, isolado, e também o homem sob modelo habermasiano, que se socializa pela linguagem e outras interações. Ele diz: minha ontologia parte sempre, desde o mais primitivo início, do Dois.

O que Sloterdijk mostra no volume I da trilogia das Esferas, agora traduzido para o português com o título Bolhas (Estação Liberdade, 95 reais), é também uma inovadora forma de conceituar a modernidade e a entrada em cena do liberalismo. Os tempos pré-modernos são os que as civilizações, de certo modo, sabiam da biunidade e de como a placenta era um primeiro companheiro a ser perdido, que deveria ser substituído na esfera inicial. Substituído pelo som exterior, voz da mãe, depois outras presenças, e também transformado em daimon, anjo da guarda e coisa do tipo. Os tempos modernos são os do higienismo e do liberalismo. Nesse âmbito, a placenta se torna uma carne morta a ser jogada fora. O feto no útero é visto como individualizado. Ele até tem nome no útero. Vai nascer sozinho, ou visto assim, e tudo isso dará origem a um ser humano pronto para entrar num mundo criado pela ficção liberal. O mundo dos indivíduos típicos da teoria do jusnaturalismo.

Sloterdijk põe sua originalidade de escritor e pesquisador para exibir as práticas de ressonância da esfera, em vários modelos, todas contribuintes de uma subjetividade que nunca foi a de um indivíduo no sentido da unidade isolada eu autossuficiente. Nesse sentido, recupera inúmeras práticas de bolhas sucessivas, de formação na base da ressonância. A primeira ressonância desfeita e que é necessário ser reposta imediatamente é a do momento em que o feto vai para um lado e parte de si e da mãe, a placenta, vai para o outro. Nas culturas antigas, sabe-se bem disso, e tudo é feito para que um substituto venha se colocar no lugar. Nesse caso, práticas antigas vistas pela antropologia confirmam o retrato do que se passa no âmbito psicológico: os egípcios usaram a placenta como bandeira (de onde vieram nossas bandeiras atuais), vários povos comeram placentas, outros plantaram placentas junto de árvores que passaram a acompanhar a vida da criança, vários faraós foram enterrados com as suas placentas servindo de travesseiro. O mundo pré-moderno deu um retrato “comunitarista”, digamos assim, para a formação chamada intimidade ou subjetividade. O mundo moderno, diferentemente, deu para tal um retrato individualista, o do “clube liberal”: somos socializados à medida que ganhamos um carterinha de sócio de práticas como o trabalho, a vida urbana ou a linguagem. Ou somos vistos na solidão e autossuficiência cartesiana, ou somos vistos como socializados em situação tardia, pela linguagem, como o modelo de Habermas e outros.

Ao longo do livro, Sloterdijk se dedica a mostrar as várias formas de evolução da bolha, da esfera em plano micro. A cada fase um companheiro sai e outro entra, de modo que a ressonância não se interrompa. Ressonâncias interrompidas criam formas patológicas individuais, podem também gerar pessoas que, como Rousseau, buscaram ou a vida isolada do não pensar, como na experiência do lago, descrita nos Devaneios do caminhante solitário, ou na esperança de repor a totalidade por meio da Vontade Geral ou Religião Nacional, e nesse sentido abre-se então o espaço para um protótipo de totalitarismo. Nesse sentido, o Bolhas é também um drama de crítica a Rousseau.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 22/09/2016

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5 Responses “O que é o volume I da trilogia das Esferas de Sloterdijk”

  1. 28/09/2016 at 14:26

    Paulo, belo texto. Objetivo, claro, e sem firulas esotérico-herméticas.
    Valeu. Abraço,
    Angel

  2. 28/09/2016 at 14:11

    Paulo, gostei muito do seu artigo sobre o Esferas I. Objetivo, direto, sem firulas esotérico-herméticas. Muito legal. Vamos divulgar também.
    Abraço grande.

  3. Rafa
    22/09/2016 at 17:35

    Paulo, gostaria de ler um texto seu sobre a reforma do ensino médio

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo