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26/09/2017

Viviany Beleboni me pôs descalço


Pela primeira vez tive um sonho ruim após fazer um Hora da Coruja. Não digo pesadelo, mas tive um sonho pesado, incômodo. Foi a noite após o Hora da Coruja com Viviany Beleboni. Aliás, só ficou do sonho o incômodo, nenhuma imagem. Levantei e fui jogar basquete. Mas não deixei de pensar: por que uma entrevista com uma mulher bonita como ela me deixou perturbado? Não deveria ter sido apenas um momento de reflexão profunda, mas, enfim, com o saldo de sensações positivas?

Sei que tive um insight durante o programa: percebi claramente que Viviany atingiu o alvo que queria de um modo mais radical do que poderia parecer à primeira vista. Repolitizou a Parada Gay por meio de algo interno ao movimento, a arte, e não através de “palavras de ordem” e “palanques partidários” – e deu visibilidade para tal coisa. Visibilidade e profundidade crítica nem sempre andam juntas. Viviany conseguiu juntá-las. Por isso a reação não foi moral, mas política travestida de moralismo barato. Por isso a reação foi de congressistas, não propriamente de grupos da sociedade civil. Mas, esse meu insight não tem a ver com o meu mal-estar. Meu incômodo, agora noto, tem outra origem.

A origem de meu incômodo é intrínseca à atividade filosófica, e isso de um modo perverso. Ser filósofo me obriga a utilizar de instrumentos intelectuais sofisticados para abordar os temas da vida e, no entanto, a realidade posta por tais temas podem ser de uma ordem crua, cruel, e é isso que faz tudo terminar em um incrível incômodo. Ter usado palavras sofisticadas, aprendidas por uma educação universitária refinada, para tratar do que é só crueldade e, portanto, sem refinamentos, dá a sensação de um desrespeito aos que estão sendo vítimas. É como se estivéssemos – e de certo modo estamos mesmo – criando algum tipo de entretenimento com a dor alheia. Talvez tenha sido isso que me fez, em alguns momentos do Hora da Coruja, ficar com vergonha da Viviany Beleboni. O programa de TV ficou pequeno para o tamanho dela. Os textos que escrevi para preparar o programa, ou os que li de outros, parecem todos terem maculado Viviany mais uma vez, mais do que ela já passou e superou (!?).

Quando Viviany pediu no programa que eu passasse a mão entre seu pescoço e a cabeça, para sentir um “galo” produzido no tempo em que ela estava no colégio, por meio de uma pancada homofóbica, não fiquei constrangido, mas senti que fiquei sem palavras. Uma coisa é sofrer por defender uma causa, como foram os problemas que tivemos, os liberais da minha geração, diante da Ditadura Militar, outra coisa bem diferente é sofrer agressões físicas na escola por causa de … do quê? Aos quinze anos sabemos que estamos apanhando porque somos afeminados (ou negros ou índios etc.). Mas o que fazer? Ser afeminado não é endossar uma doutrina. Posso subtrair-me de uma doutrina, por exemplo, posso não dizer que sou liberal ou de esquerda, mas não posso subtrair-me de meus modos. Não posso ir à escola sem meu corpo, meu jeito de andar, de sentar, de falar, de gostar. Ora, se vou à escola comigo mesmo, se levo meu corpo e eu mesmo para escola, apanho! Isso é ser Viviany na escola, bem diferente de ser perseguido por assumir uma luta pela igualdade e liberdade por meio de uma doutrina. Eis a diferença entre Viviany e eu. E isso talvez tenha me perturbado à noite. Talvez eu tenha sentido vergonha de saber lutar com palavras sofisticadas pelas minhas causas libertárias, “ingênuas”, as de busca do “mundo melhor”, e então ter notado que, entre estas, estava e está também a causa da Viviany, mais nobre que as minhas mais gerais. Por que mais nobre? Porque é a causa dos injuriados sem razão. Trata-se da causa daquele que é injuriado por ter nascido, por ter caído nesse mundo – é sem dúvida isso o que me incomoda. Sou sensível ao extremo às agressões contra aqueles que não sabem a razão de estarem sendo agredidos. A agressão contra os animais, a agressão contra crianças e bebês na barriga, a agressão contra quem tem uma pele distinta daquela “que se deveria ter”, a agressão à … Viviany – há coisa pior que isso?

Levantei com vontade de ligar para a Viviany e pedir desculpas a ela pela sociedade que ajudei a construir, talvez eu devesse ter lutado ainda mais pelo “mundo melhor”, para que nunca mais alguém pudesse fazer algum mal para uma pessoa doce como ela. Toda pieguice do mundo tomou conta de mim. Senti-me culpado de só saber escrever filosoficamente, como se fosse necessário fazer algo mais pela causa da Viviany, a causa daqueles que só agradam a sociedade em vivemos se ficarem na rua à disposição para a execução do serviço da Geni de Chico Buarque.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57, autor de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

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20 Responses “Viviany Beleboni me pôs descalço”

  1. claudio dionisi
    24/06/2015 at 17:33

    Sinto que somos todos culpados, de uma forma ou de outra.

  2. Cesar Marques
    24/06/2015 at 02:40

    Não vou comentar o texto, pois todos os comentários anteriores já disseram o quão primoroso ele está. Eu gostaria fazer um sucinto comentário sobre o programa. Realmente, o depoimento da Viviany foi tocante e comovente. É uma experiencia muito boa a gente ver um integrante de um grupo que sofre na carne os preconceitos sociais. É um choque de realidade, um verdadeiro tapa em nossas caras. Depois de ver um depoimento como esse da Viviany, é mais difícil entender a quantidade enorme de brasileiros, uma verdadeira turba, que aderem ao discurso asqueroso e pestilento do pastor caça rôla, em detrimento de uma figura suave e gentil como a Viviany.

    Dito, gostaria de fazer uma ponderação. Se a Viviany tem pretensões de ser uma voz militante na defesa dos direitos da comunidade LGBT, ela precisa dar uma estudada. A entrevista ficou truncada em várias partes porque a Viviany, nitidamente, não compreendeu questões básicas levantadas pelo senhor e pela Fran. Parecia que o senhor e a Fran estavam indo para um lado, e lado para o oposto. Claro, ela não tem no momento nenhuma obrigação de ter uma postura intelectual mais sólida, pois ela transitava até então no mundo fashion, mas, se ela tem interesse em ser uma pessoa cujas opiniões sobre questões sociais vale a pena ser ouvida, ela precisa se lapidar intelectualmente, e muito. A diferença dela se compararmos com o Victor Ângelo é abismal. Enfim, a Viviany é uma figura extremamente positiva para ajudar, nós brasileiros, a sermos mais sensíveis em relação a setores historicamente excluídos, estigmatizados e demonizados, mas ela precisa, caso queira ser uma militante engajada, estudar e se preparar mais.

    Abraços professor.

    • ghiraldelli
      24/06/2015 at 02:57

      Obrigado pelo elogio. Todavia, Cesar, sinceramente lamento você ter dado essa opinião sobre a Viviany. Ela foi perfeita na minha opinião. Sua comparação entre ela, artista, e o Vitor, jornalista, é sem dúvida de uma incompreensão das coisas e das individualidades que me faz ficar de boca aberta. Eu acho que VOCÊ deveria estudar mais.

    • Matheus Kortz
      24/06/2015 at 10:58

      Um dos problemas que pode se decorrer de pensar assim é opinar que a vivi deveria se “formar politocamente” e , como, muito bem, o paulo sempre denuncia, há muita militância de esquerda (mesmo entre.os lgbts) que namora com o próprio fascismo. Daí surge uma preocupação menor, pq com a educação e refinamento de espirito da vivi, ela jamais se renderia a qlqr fascismo. Mas acho compreensivel que deseje por intelectualizaçao, pq reconhece q politica inculta é o pior que há… só esta não parece ser a situaçao dela.

    • ghiraldelli
      24/06/2015 at 15:54

      Viviany não é militante. Ela é artista. Ela está pensando o quanto pode ser militante. Ela está com medo de morrer. Nem sabe se tem estrutura para tal. Meu Deus gente, calma lá com o andor que o santo é de barro.

    • Cesar Marques
      24/06/2015 at 22:25

      Caro Matheus Kortz

      Eu em nenhum momento da minha postagem disse que a Viviany deveria se “formar politicamente”, porque sei que isso poderia cair em militância de esquerda. Eu usei a expressão “se lapidar intelectualmente”. E escrevi isso, não por achismo da minha cabeça, e sim, porque ela demonstrou ter interesse em ser uma voz a ser ouvida decorrer da entrevista. Ela demonstrou tal interesse, eu não achei, e não acho nada sobre isso. Agora, se ela quiser levar esse interesse adiante, embora o professor Ghiraldelli ache desnecessário, creio que ela deveria estudar. Reveja a entrevista, apesar da enorme boa vontade da Fran e do Paulo, a Viviany se perde no próprio raciocínio e desconhece fatos básicos levantados no programa. Aliás, eu senti isso assistindo-a em outros programas que ela participou antes do Hora da Coruja. A performance dela na cruz foi um gol de placa, que embaraçou a execrável bancada evangélica no Congresso, mas se colocarem-na num programa para conversar com um daqueles pastores, provavelmente ela vai ser engolida.

      Enfim, isso é apenas uma opinião, mas se o professor Ghiraldelli entende que estou totalmente equivocado, não há o que se discutir. Vida que segue.

      Abçs Matheus.

  3. Luana
    23/06/2015 at 23:34

    Quando ela relatou que tinha sido surrada na escola e que tem um “galo” na cabeça ainda. Fiquei fria, ela podia ter sido morta! Toda experiência relatada – a expulsão da casa dos pais, meus deus a rejeição desse amor por ela ter nascido assim ???, é muito triste. A Viviany é uma guerreira, e o que ela realizou nessa parada gay foi incrível! Na entrevista ela mostrou toda a sua força e boa educação. Com certeza, a Viviany conseguiu atingir o seu objetivo. Fica aqui o meu agradecimento para todos os envolvidos no programa “Hora da Coruja”, especialmente, a Fran e ao Paulo por terem chamado a Viviany que enriqueceu muito essa discussão. Parabéns!!!

  4. Luma
    23/06/2015 at 21:45

    Paulo, eu também me senti muito mal depois que terminei de assistir ao programa com a Vivi (a parte em que ela conta como algumas travestis foram assassinadas me deixou em choque). Senti-me envergonhada por fazer parte de um mundo tão cruel e tão cheio de injustiça, além de perceber que faço muito pouco para mudá-lo…

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 22:06

      Luma e olha que eu já havia visto de quase tudo. Mas é que nem sempre a gente escuta aquilo naquela situação.

    • Luma
      23/06/2015 at 22:14

      Com certeza. A presença dela mudou tudo…ainda estou sem palavras para descrever o que eu estava sentido diante daquela pessoa corajosa e de cabeça erguida apesar de tudo…cheguei até a sentir medo pela vida dela porque me deu conta do perigo que assombra pessoas como a Vivi.

  5. Maximiliano J. Paim
    23/06/2015 at 21:10

    É a mesma sensação que tenho quando estamos diante de algum deficiente que não encontra adaptações para o que necessita – desde o braile de uma biblioteca filosófica que temos até treinamento em libras. Quando um problema deste tamanho aparece, caem a arma e o escudo da inteligencia.

  6. Rafael Medeiros
    23/06/2015 at 20:41

    Belíssimo!

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 22:07

      Rafael esse é o problema: o feio se torna algo que usamos o adjetivo “belíssimo”.

    • Luma
      23/06/2015 at 22:18

      O nome disso é arte. Para mim, seu texto conseguiu despertar o sentimento de compaixão/solidariedade nos leitores; ele não é meramente informacional.

  7. Matheus Kortz
    23/06/2015 at 19:59

    Percebi mesmo que até seu olhar mudou durante a conversa com a Vivi, do meio para o fim do programa.

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 22:07

      As coisas todas foram perdendo o sentido.

  8. Vitor Ferreira Lima
    23/06/2015 at 16:08

    Paulo, obrigado por compartilhar. Não muito mais a dizer.

  9. 23/06/2015 at 15:31

    Texto fantástico Paulo!

    Não há palavras mesmo para esta situação.

  10. Ser Fonsequito
    23/06/2015 at 14:57

    Provavelmente, o mais belo texto filosófico brasileiro que li. O que está em jogo? Talvez seja esse o novo começo de que precisávamos!

    • ghiraldelli
      23/06/2015 at 15:26

      Fonsequito, já me crucificaram junto com ela, há poucos minutos, por esse texto.

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