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28/06/2017

Vivemos para o futuro, por isso temos Facebook


Só a vida no facebook é real

O mundo antigo foi caracterizado pela ausência de tempo. O mundo moderno, isto é, pós cristão, ganhou no elemento tempo um dado essencial. Claro que foi a religião judaico-cristã que trouxe para o Império Romano e, portanto, para toda a Europa, a importância do tempo. Desde então, passamos a viver para o futuro. Com isso, o órgão chamado vontade, de pouco cultivo no mundo clássico, ganhou na modernidade cristã um papel central. Pois se o tempo conta e se, com isso, o futuro é nosso local de atenção, importam as decisões, ou seja, o que o órgão chamado vontade irá nos impor. Não à toa, portanto, o pensador primeiro da modernidade, Santo Agostinho, se dedicou tanto ao estudo do tempo quanto ao estudo da vontade.

Vivemos hoje para o futuro. E já nem é mais alguma coisa que tenhamos que aliar à vontade, como elemento psicológico. Agora, o futuro ganhou tamanha importância, que a própria existência lhe pertence. Existimos se vamos a algum lugar e registramos o feito por meio do selfie, da foto de celular. Do jantar com amigos ao motel com ficantes, de tudo fazemos imagem instantânea e colocamos online, e não raro não só para interessados, para gente que não conhecemos. Nosso Facebook é a instância de conferência ontológica. Mesmo seios, bundas e picolés só existem se “nudes” forem vistos. Tudo é feito para que tenhamos um passado que não irá ser apresentado para ninguém, uma recordação que não será recordada, uma relíquia que prometemos que iremos comentar com nossos netos, mas que, na verdade, com essa preocupação com o futuro mediato, vai somente ao futuro imediato, para nos garantir o presente. Vivemos aquilo porque não vivemos, mas conseguimos postar na rede a foto. Muitos vinhos não foram bebidos pelo deguste e muitos seios não foram chupados  pelo deguste, senão para que o Facebook lhes desse guarida.

Só vamos entender essa sociedade moderna tardia se conseguirmos notar que não é só o sentido de privacidade que mudou, mas a própria ontologia se alterou. Precisamos levar mais a sério o ensaio de Heidegger “A época das Imagens de mundo”. Vivemos numa época em que não temos que notar a proliferação de imagens somente, mas principalmente notarmos que o mundo se tornou uma imagem. É mundo o que antes é representado que apresentado. Portanto, é verdade o que é da ordem da correspondência entre imagem e coisa, entre o que é linguístico e que se apresenta linguístico mas finge ser da ordem não linguística. A verdade como local perde para a verdade como conferência, como verificabilidade. A noção de verdade perde para a noção de certeza. Desfaz-se a ideia de que a verdade é objetiva para a ideia que temos que encontrar a certeza, que é um estado subjetivo. Tudo é imagem para ser verificada depois, num futuro próximo ou mais tardio, mas futuro. Nada é para ser fruído, tudo é para ser registrado.

Marxistas podem, ainda, tentar olhar para tudo isso pela ótica da “sociedade do espetáculo”, de Debord. Aqui, muito cuidado. Debord não estava falando da proliferação da imagem, mas da capacidade da mercadoria de ter se feito coisa para ser vista sem interesse, só por valor de troca e não mais por valor de uso, e, assim, ter se igualado à obra de arte. Assim, pela explicação marxista de Debord, a sociedade do espetáculo é uma maneira de mostrar que a mercadoria ocupou o palco. Ora, o que estou dizendo é diferente. Digo que a imagem imediata, mostrada a todos, é o mundo, é o lugar onde tudo faz sentido. A imagem é o espaço, não é o espaço físico que dá ensejo para a imagem. o espaço como imagem é que vale. Nesse sentido, a ontologia se faz pelo espaço, pelo que há de espaço como imagem. Mas a força do tempo não desaparece. Pois cada imagem que é, enfim, o mundo, se legitima se for para ser apreciada no futuro. Vivemos pelo futuro. Vivemos de imaginar que a foto tirada é a garantia do presente e do amanhã. Essa força do futuro sobre nós é que rompeu de vez com nossas velhas noções de intimidade e privacidade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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2 Responses “Vivemos para o futuro, por isso temos Facebook”

  1. Homero
    08/06/2016 at 18:35

    Por que vc não está mais atualizando sua página do facebook?

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