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22/10/2017

“Vista a roupa meu bem”


A Playboy americana está repensando sobre a publicação de fotos de mulheres nuas. Tudo leva a crer que as fotos de mulheres em poses eróticas continuarão, mas que a nudez completa desaparecerá. Também os célebres calendários da Pirelli não trarão mais beldades, mas fotos de mulheres “expoentes em suas áreas”. Ora, do que estamos falando? O que efetivamente está mudando?

Apesar do avanço da religião muçulmana no mundo e o crescimento do número de igrejas evangélicas no Brasil, a pornografia não está em baixa em lugar algum. Mas mudou de dono. Os que a viam agora a produzem. Qualquer garota de 14 anos, hoje, se solicitada pelo carinha que acabou de beijar na balada no sentido de “manda nudes”, cede na boa! Caso tenha como, logo aparece nua e até se masturbando para o garoto na webcam. Além disso, um setor que não consumia pornografia, o público feminino, agora o consome de modo igual ou maior que o público masculino – as estatísticas já saíram! Será então que é para se diferenciar dessa super-exposição fácil e gratuita, que as empresas que apostam na nudez feminina como um modo de vender produtos outros ou a própria nudez estão mudando?

Os sociólogos e economistas vão dizer que é por isso mesmo. Outros vão falar coisas um pouco diferentes, mas continuarão todos apontando para a nudez enquanto amostragem do sexo. A filosofia tem de fazer diferente. Pode fazer. A questão não é o sexo, não ele mesmo por ele mesmo.

É que no campo da filosofia, os estudos já se acumularam o suficiente para que possamos ver que há algo mais geral que apenas o gosto pelo sexo ou às finanças ligadas ao sexo. Há algo que diz respeito à necessidade de metafísica, e é isso que vem mudando ou, melhor dizendo, não vem mudando tanto. Junto disso, também tem se alterado a maneira como todos nós olhamos para o corpo. Explico.

A necessidade de metafísica é a necessidade que temos de encontrar um ponto absoluto para, a partir dele, falarmos frases verdadeiras e, portanto, pronunciarmos juízos morais sólidos, confiáveis. Não temos isso. “Deus morreu” foi o anúncio do fim da crença na capacidade metafísica de nos dar esse ponto. Nietzscshe afirmou isso quando vislumbrou o cientificismo positivista como a filosofia reinante no século XIX, como uma “última filosofia”. Mas, se não temos o absoluto, ficamos ao menos com o lugar no qual ele podia se esconder. Na modernidade, ficamos com a ideia de que nós mesmos guardamos em algum lugar o campo indestrutível, o campo que pode dar aval à verdade e ao certo. Esse campo é a nossa subjetividade. E o que temos guardado em nós, seja cérebro, pensamento ou alma, é algo que se revela para o outro no âmbito da intimidade. Então, se conseguirmos saber o que as pessoas fazem a quatro paredes, conseguiremos ver o que elas têm de base para a verdade e o certo. Ora, em geral, o que as pessoas fazem a quatro paredes e que não é visível é a nudez, o sexo e coisas assim. Então, a fome de metafísica encontra uma pseudo-satisfação no voyeurismo. Precisamos ver o nu, o sexo, a copulação do outro. Quando esta nos falta, filmamos a nós mesmos e nos redescobrimos! Não é só narcisismo. É busca tardia por um absoluto, por uma verdade, no âmbito do que restou para se esconder: nós mesmos. Trata-se de uma fantasia, claro, mas que vale para acalentar quem não vê mais nenhum ponto misterioso e recatado no mundo.

Todavia, com a completa banalização da visão do que fazemos a quatro paredes, a partir do reality show da TV, da abertura de todos para a Internet, das revistas e, enfim, da medicina e esportes, o último espaço que poderia nos enganar, dizendo ainda conter um elemento metafísico, se esvaiu. Nada é mais segredo. Não há nada na alma que se possa apresentar na vagina e ou no pênis ou no que esses dois, mais coadjuvantes, possam fazer a quatro paredes. Os toscos trouxeram tudo para o tosco. Yuri Gagarin deu a volta na Terra, pelo espaço, e disse então que não encontrou nem anjos e nem Deus lá no Céu. Ao mesmo tempo, os ginecologistas do mundo todo responderam para ele que Deus e os anjos também não estavam no meio de virilhas. De lá para cá Gagarin não foi mais ouvido. E quanto aos ginecologistas, hoje em dia todo mundo exerce essa profissão.

Mas o problema é que estamos só há menos de dois séculos do fim da metafísica. Nossa busca pelo absoluto ainda não se esvaiu. Ainda queremos ter um lugar no qual sonhamos que possa existir alguma coisa encoberta que garanta a verdade. Nosso corpo parece exposto demais para poder ser o caso. Temos de recobri-lo para que ele possa de novo voltar a uma situação de poder esconder algo. É necessário reinserir o corpo no âmbito da intimidade enquanto lugar privado e escondido. Talvez possamos fazer isso na revista Playboy o no calendário da Pirelli, por mais estranho que isso possa soar. Um santuário dos corpos vestidos. Um santuário da mulher que volta a ter segredos. Já imaginaram?

Impossível? Não sei! A ideia é maluca, mas ela pode dar certo. Somos capazes de consumirmos mais e mais pornografia e, ao mesmo tempo, acreditar que certas mulheres, certos casais, guardam uma intimidade nova que não sabemos qual é. Tal coisa pode estar no calendário da Pirelli, na revista Playboy, tudo escondido. Nossa capacidade de auto-engano é infinita e, portanto, pode ser que a busca por metafísica, que não morreu, dê também sobrevida à nova Playboy e novas iniciativas nesse sentido .

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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8 Responses ““Vista a roupa meu bem””

  1. Abelardo Ocejo Rodriguez
    22/10/2015 at 03:53

    Interessante visão sobre a necessidade de um absoluto. Mas então, como explicar que existem pessoas religiosas (supostamente ainda mantêm a ilusão do absoluto) e que expõem fotos e vídeos de si mesmos?

    Creio que talvez – por conta da sociedade moderna, dos meios de comunicação e das mensagens que são passadas (cultura da beleza) – as pessoas na verdade tem “vazios existenciais” que elas preenchem da forma mais fácil: culto ao corpo e ao sexo. Se a sociedade valoriza tanto o corpo, o sexo e a beleza, “veja mundo: eu tenho tudo isso que vc valoriza!”. Então creio que ao expor sua intimidade, as pessoas estão querendo se afirmar como indivíduos. Talvez até buscando algum tipo de aprovação.

    • 22/10/2015 at 10:14

      Abelardo sua ligação na primeira frase não tem nada a ver. Em filosofia relações de causa e efeito não podem ser tomadas dessa maneira que você fez. Talvez em sociologia.

  2. Augusto Pais
    18/10/2015 at 16:54

    Muito interessante!

    Não desviando muito do assunto, mas complementando-o; a trajetória humana esclarece a necessidade de adotar referenciais absolutos a partir dos quais podemos avançar.

    O cientificismo positivista acreditava que a técnica e a ciência nos trariam a felicidade porque ajudariam a desvendar melhor o mundo e construir conhecimentos e dispositivos que nos levariam ao progresso. De fato, a ciência do século XIX nos forneceu o ferramental necessário para “encerrar” a explicação mecânica do funcionamento do mundo. Tanto que até o ano de 1900, o que se fez em Física é chamado de “Física Clássica”.

    Darwin, ao propor o mecanismo da Seleção Natural, forneceu o corpo teórico necessário para nos mostrar que todo o gênero humano descende da mesma espécie. Em suma, foi construído o referencial absoluto na biologia para estudar nosso comportamento e fisiologia.
    Todos os humanos têm a mesma natureza biológica – um referencial absoluto.

    Ainda no século XIX, os estudos em Matemática chegaram a descrever um mundo em três dimensões cujo espaço pode ser curvado positiva ou negativamente com a geometria não-Euclidiana. A Física teve sua contribuição com Maxwell e os físicos de seu tempo, que descobriram grande parte dos segredos da natureza da luz – unindo a eletricidade ao magnetismo e descobrindo a luz como referencial absoluto de velocidade universal. Esse referencial foi útil para analisar um universo no qual o tempo se dilata e o espaço se contrai, conforme descoberto no século XX a partir daqueles estudos da Matemática do século XIX.
    Todas as medidas, de tempo e de distância, têm como base a velocidade da luz, que é invariável – mais um referencial absoluto.

    A função da Física em tentar ser aquilo que nos dará, na dimensão científica, uma teoria de Tudo, tem sido unificar as chamadas quatro forças fundamentais da Natureza que são: a interação gravitacional, a interação eletromagnética e as interações da força fraca e da força forte.

    Há mais avanço mediante a adoção de referenciais absolutos.

    Só para encerrar, concordo que a busca por algo escondido onde a Verdade possa estar é parte fundamental do entendimento humano. O físico Marcelo Gleiser utiliza a metáfora da “Ilha do Conhecimento” para explicar o conhecimento como uma ilha que cresce, mas cujo crescimento também aumenta a borda com o desconhecido, com o escondido. (A Ilha do Conhecimento – ISBN: 8501052779).

    • 19/10/2015 at 12:08

      Pais! temos essa “tendência à metafísica”, ainda que hoje, após a morte de Deus, ela tenha virado uma caricatura, como o meu texto diz.

  3. Gabriel Monteiro
    17/10/2015 at 15:37

    Que texto mais safe hein Ghiraaa!

    • 17/10/2015 at 16:32

      Gabriel será que você entendeu? Esse texto tem uma história dentro da minha produção intelectual.

  4. 16/10/2015 at 16:41

    Que interessante!

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