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19/11/2017

O senso comum simplório e a verdade


O homem que vê os dois lados de uma questão é um homem que não vê – Oscar Wilde

O que Pascal falou contra Descartes foi que uma verdade (1) não recebe de uma afirmação que lhe é contrária uma mentira, mas talvez também uma verdade. Uma verdade ao lado de outra que não lhe endossa pode existir sem grandes problemas. Não necessariamente uma afirmação verdadeira ao lado de outra que a incomoda formam um casal que precisa de um juiz para algemar uma delas, destitui-la de sua condição de verdade, e glorificar a outra. 

Todos nós sabemos disso, mas não damos a devida atenção. Agimos como Pascal, não como Descartes. Todavia, em procedimentos de explicação do que fazemos diante de investigação da verdade, tendemos a adotar o critério jornalístico de entrega de verdade que, enfim, não segue nem Pascal e nem Descartes. Aliás, é talvez um dos piores procedimentos: ouvir os dois lados. O jornalista que se considera bom ouve os dois lados, dá voz para ambos, e então deixa o seu leitor julgar as partes. Acha que com isso está promovendo a verdade. Não está.

Por que ouvir os dois lados? O mundo físico tem mais que dois lados, por que então o mundo mesmo, ou seja, o mundo que é o mundo por conta de ser formado por histórias, teria dois lados? Talvez os jornalistas todos, principalmente os de política, tenham aprendido tudo através de radialistas de luta de Boxes. Ali sim, há dois lados, e um vencerá (ou deverá vencer!).

Em qualquer história que ouvimos ou que produzimos contando, criando ou vivendo, não há lado algum. Há as histórias da história. Sendo que a história mesma, aquela que imaginamos que seria a “dos fatos” nunca aparece, só as histórias. O conjunto talvez infinito de versões é o que forma a história. E uma enorme fila de verdades, junto com algumas falsidades e alguma mentiras, é esse conjunto. Ora, e se a história é uma teoria, então esperamos que o número de verdades aumente e o número de falsidades e mentiras tenha a tendência de ser zero, no conjunto exposto. Mas, de qualquer forma, um filósofo e um homem de ciências ou um historiador jamais iriam tentar fazer o que o jornalista faz. Achar dois lados e ouvi-los é alguma coisa que até cangurus já sabem que não dá certo. Da bolsa pode sempre sair mais um filho.

Filósofos vão para um lado, jornalistas para outro. Quando um filósofo começa a aprender com jornalistas, ele fica imprestável para a filosofia e mais ainda para o jornalismo. Pois, em geral, fica burro. E ele faz isso quando começa a achar mesmo que tudo  tem dois lados e, então, escorrega para o senso comum. O procedimento sofístico infiltra-se então por aí: trata-se daquele que ao ouvir algo, cobra que se fale de outra coisa que ele imagina que a posição antagonista da que ouviu. É quase uma forma de retroceder ao “vamos ouvir os dois lados”, mas de maneira piorada. Pois agora não se trata de ouvir, mas de produzir dois lados. É tola a contra-crítica que exige que o crítico, se criticou um lado, critique o outro lado.  “O partido X é corrupto” é a crítica contra a qual o contra-crítico, moído pelo senso-comum e, talvez, pela sofística, faz a observação: “mas você não falou do partido Y, o opositor de X”.

O senso comum nesse caso ganha uma pitada de sofística de má qualidade e, não raro, uma dose de desonestidade. “Você criticou fulano mas não criticou seu antagonista ou não criticou beltrano etc. etc.” Ora, a resposta a tal senso comum munido de sofística é simples: eu critiquei fulano e pronto, tá criticado, não sou jornalista, não vejo o mundo formado por dois lados, simplesmente critiquei fulano.

É interessante como que esse procedimento retórico que exige que o crítico iguale todos por meio da fantástica tese da qual canguru desconfia, consiga ganhar gente que tirou um diploma de filosofia. Pois uma das primeiras lições da filosofia é não ver o mundo de modo simplório. E esse modo de ver é o mais simplório dos simplórios.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

(1) Ver: Sobre noção de verdade e teorias da verdade

7 Responses “O senso comum simplório e a verdade”

  1. Matheus Kortz
    20/01/2016 at 12:55

    Parece que todo mundo conheceu Picasso mas não o cubismo, porque é a propria arte dizendo que nem os olhos enxergam só duas dimensões (e olha que uma dimensão é bem maior do que um “lado”, em tese)

    • 20/01/2016 at 13:05

      Kortz o problema é que não transferimos aprendizados de um campo observativo para outro.

  2. Raimundo Marinho
    18/01/2016 at 17:46

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    E o que dizer quando um historiador se mete a jornalista ?!!
    Vide um tal de Vila do jornal da cultura. Êita carinha chato.

    Obrigado.

    • 18/01/2016 at 19:35

      Marinho depois da notícia de hoje, que a Folha transformou o Kim Japa da direita em colunista, não há mais nada a dizer. Acho que os jornalistas com alguma formação estão em prantos. Talvez agora a gente possa entender um Vila. Qualquer um vira jornalista.

  3. G. DE JESUS
    18/01/2016 at 10:06

    Eu até pensei, quando adolescente, em cursar jornalismo. Conheci Hunter Thompson e seu Gonzo. Desisti.

    ‘Todo ponto de vista é a vista de um ponto.’ Não sei se li isso na traseira de um caminhão ou num livro do Leonardo Boff.

    • 18/01/2016 at 13:21

      Sorte sua que não fez, olha agora um jornalista tendo de conviver, na Folha de São Paulo, com o Kim Kataguri como colunista.

  4. Tony Bocão
    18/01/2016 at 09:46

    Lendo esse texto me lembrei do Rashomon do Akira Kurosawa e seus trocentos lados da história…

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