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22/09/2017

Veganismo não é modinha, nem é militância ou “regime”


A vida nua vale mesmo a pena ser vivida?

Na esteira de Foucault, o filósofo Giorgio Agamben tem mostrado que a vida antiga era vida moral e que só a vida moderna se tornou vida biológica, vida nua. Antes, a vida era a vida segundo posições sociais, sacramentos e liturgias, hoje todos adquiriram vida, pois esta nada mais é que estar respirando. Desse modo, ao falarmos em “preservação da vida” como regra essencial da modernidade, aparentemente ganhamos muito. O liberalismo trouxe à tona tal direito,  o direito de propriedade e, contido nesse, o direito de preservação de uma propriedade importante, a vida biológica.Toda vida deve ser preservada.

No termos de Foucault, isso é a biopolítica: a entrada da vida biológica na esfera da política, a mudança do conceito de vida, que se despe completamente de adornos morais. Muitos ganharam com isso direitos com os quais jamais sonharam. Mas, ao mesmo tempo, tirou-se de todos a ideia de dignidade. Abriu-se espaço para um mundo onde o campo de concentração é a regra, pois todo crime foi permitido desde que a vida permanecesse. Toda dignidade poderia ser arrancada, toda moral viria a ser extirpada e toda honra nada valeria – o que vale mesmo é viver ou, nesse caso, sobreviver. A vida biológica não é vida, é sobrevivência. Eis que temos então alguém que pode dizer com clareza e ser aplaudido: “estupra mas não mata”. Num mundo assim, aquele Kant que falava que a mulher estuprada tinha só um caminho, o suicídio, não soa como quem possui razão. Todavia, deveria fazer sentido. O certo seria entendermos a honra, a moral, a vida como não vida exclusivamente vida biológica, para realmente compreendermos a distinção entre o que a vida autêntica deve ser e a vida reduzida está sendo.

Com a biopolítica, então, já que todos com vida biológica é que importam, eis que os animais entraram para a categoria dos que importam. Mas isso só à primeira vista. Pois não é por esse critério, na prática, que os integramos e então nos tornamos veganos, para não matá-los. Não é só pela biopolítica, no exclusivo uso de Foucault e Agamben, que isso veio a se constituir. Não atuamos com eles na base de nossa vida nua, vida biológica. Na verdade, quando atuamos por eles estamos dando um passo na reaquisição da vida nossa como vida moral, como vida mais ampla que a vida nua e biológica. Podemos falar “todos têm direito à vida”, mas, na prática, não é isso que nos move. Nem  é a questão de amenizar a dor do mundo. Também não é a questão de combater em geral a crueldade, ainda que isso possa estar no horizonte e ser um mote falado. O que nos move é algo bem além da biopolítica. É o que a filósofa neozelandesa Anette Baier, na esteira de Hume, movimenta para explicar nossa ética. Agimos por costumes, por acomodação psicológica direcionada por empatia. Isso envolve identificação, gosto e beleza. Protegemos animais quando temos, diante de alguns deles, a necessidade de dizer “é um de nós”.

Foi tendo o “é um de nós” nas mãos que incorporamos aos nossos cuidados grupos humanos antes excluídos da condição de serem bem cuidados: crianças, pobres, mulheres, negros, velhos, índios, gays, aleijados etc. Antes excluídos, fomos percebendo, por empatias várias, que esses grupos continham elementos que podíamos tratar como é “um de nós”. Não podemos chamar tal regra de hipócrita, pois ela não é escolha, ela é nossa regra de sempre. Agimos assim antes mesmo de sermos homo sapiens. E assim estamos fazendo, agora, com os animais. Desse modo, os cães têm tido mais sorte que os também afortunados gatos e cavalos, enquanto que vacas, baratas e o pernilongo da Zika estão ainda na berlinda. Se forem incorporados também, juntamente com a aranha e o escorpião, certamente será por conta de mostrarem para nós alguma beleza ou algum comportamento provocador de empatia. O mesmo ocorrerá com os nossos robôs. O critério da para-olimpíada não é o dó, mas o fato de termos ali, competindo, gente que agora “é um de nós”.

Desse modo, o veganismo, o ethos de não comer defuntos, não tem como se defender dos energúmenos que dizem que queremos “proteger vacas mas não cenouras”. Por uma razão simples: nós veganos nunca quisemos proteger nada que não aquilo que podemos, no momento, proteger. Nossa empatia com vacas é maior do que com cenouras. Podemos ver na vaca em cima da mesa um cadáver, mas ainda não vemos isso em cenouras e pepinos. O veganismo cria um ethos na linha de toda e qualquer criação de um ethos. Não é moda e nem militância, é apenas comportamento que se desdobra em determinando momento a partir de uma mudança de sensibilidade. É igual ao tempo que os romanos deixaram de sorrir ao ver cristãos na arena, e resolveram acolher o cristão como “um de nós”. Isso porque muitos romanos já tinham, em suas casas, como parente, um cristão.

É preciso notar que não matamos uma joaninha, embora a mosca varejeira, ao lado dela, seja nossa vítima.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 22/11/2016

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15 Responses “Veganismo não é modinha, nem é militância ou “regime””

  1. 01/03/2017 at 10:34

    Legal.

  2. Hermes Furtado
    24/11/2016 at 17:40

    Gostaria de saber se quem se declara vegano pela prática do costume de não consumir produtos de origem animal se considera moralmente superior às pessoas que consomem carne e demais derivados de “cadáveres” de seres sencientes? Pergunto porque percebo um certo fundamentalismo de quem pratica veganismo ou vegetarianismo radical que a mim ser muito semelhante a determinados grupos fundamentalistas religiosos que sempre partem do princípio de que eles possuem razão em detrimento dos demais grupos que possuem crenças ou pontos de vistas diversos.
    Aproveito para perguntar, fazendo uma correlação com o veganismo, até que ponto a ética utilitarista (ética baseada no sentimento) é superior a ética deontológica (ética baseada na razão)? Pergunto, porque com base na ética utilitarista, se por um lado podemos colocar todos os seres sencientes na mesma comunidade moral, abolir o consumo de carne ou a utilização de de matérias primas derivadas e assim banir o sofrimento animal, por outro lado podemos admitir a pena de morte de humanos para crimes hediondos (inclusive contra animais), trazendo assim uma maior satisfação a comunidade moral de todos os seres sencientes.

    • 24/11/2016 at 17:56

      Hermes sua pergunta é super pertinente. Mas, veja, será que precisamos de “fundamentalismo” para se imaginar superior? Será que uma ética pragmatista, caso se torne militância de grupo, também não leva a tal coisa. Veja o cristianismo: é a religião da humildade, assim, nasceu, mas logo deu origem à questão “quem é o mais humilde?”, e eis que entrou por um buraco sem fim. Se o veganismo crescer logo, e isso está acontecendo, vira um prática comum e o fundamentalismo se esvai.

  3. josé fernando da silva
    24/11/2016 at 00:11

    Parabéns pela força do texto. Bem articulado e contundente.

  4. 23/11/2016 at 08:04

    Do ponto de vista especificamente histórico, lembro que os veganos existiram antes da época moderna. A comunidade de qumran, os essênios cristãos vegetarianos, acreditavam na purificação pela comida. Modernamente existe também o argumento de que não comer carne é bom para o meio ambiente. A ciência prova a relação entre o consumo de carne e a exaustão de recursos naturais para manter os rebanhos bovinos, além, obviamente, do fato de que a carne, principalmente a vermelha é causa de inúmeras doenças, inclusive o câncer. Logo, além do argumento filosófico sofisticado do “é um de nós” temos boas razões para substituir uma dieta de carne por legumes, frutas e hortaliças.

    • 23/11/2016 at 08:49

      Sérgio eu tenho lá, pessoalmente, também motivos de saúde própria para não comer nada animal. Mas isso é secundário na minha vida. Meu argumento pessoal é apenas o fato de que sou amigo dos animais. Gosto deles.

  5. Joao Pedro Dorigan
    22/11/2016 at 22:48

    Emburrecemos com os malucos da filosofia moderna culminada em Kant. Depois vem esses outros experimentos da bicha louca que foi Foucault.

    Aí tudo virou bio e fomos lançados à condição de irracional vivente.

    Bom, agora por alteridade ou (em)(sim)patia sentimos os pensamentos dos animais e eles são um de nós.

    Tudo isso é bem humano e individualizante. Bom, logo logo não serei eu que tenho o animal, mas ele que me terá.

    Eu fico pensando: se às madames piriguetes quando chama seu cãozinho de bebê e os levam para o spa day com direito aos programas televisivos para cães, estão consciente dos ensinamentos de Foucault.

    Bom, bestialismo também parece uma opção para quem entende que é um de nós.

    Como diziam os mamonas: “comer tatu é bom, que pena que dá dor nas costas, porque o bicho é baixinho, é por isso que eu prefiro as cabritas…”

    • 23/11/2016 at 00:08

      Dorigan uma bicha louca tinha um pedaço de unha que sabia mais filosofia que você. Termine o ensino fundamental, talvez chegue à altura da sujeira da unha do Foucault.

    • Joao Pedro Dorigan
      23/11/2016 at 06:49

      Legal. Bom, o que tinha nas unhas delicadas de Foucault nem imagino, depende de onde ele enfiava.

      Espero que não seja no seu “outro eu”: a cabrita.

    • 23/11/2016 at 08:50

      Dorigan tudo indica que você lambe unhas do tipo.

  6. Pedro
    22/11/2016 at 18:58

    Concordaria Paulo com o Derrida de “il fault bien manger” que o fato de comer/não comer carne se relaciona com um processo de construção da subjetividade humana

    • 22/11/2016 at 19:07

      Pedro, estamos vivendo o “parlamento das coisas”, de Latour, e temos de entender nossa história como uma história de coisas, não uma história de nossa vontade humana imperativa, sem coisas.

  7. Pedro
    22/11/2016 at 18:39

    Olá, Paulo!

    Acompanho seu trabalho desde que o conheci naquele programa “Loucuras Filosóficas de Alexandrelli”. Sempre acompanho seus escritos pelo blog.

    Gostaria de compartilhar com você um conto sobre a idéia de veganismo, escrito pelo Neil Gaiman (essa é uma versão ilustrada):

    http://imgur.com/gallery/sQFgt

    Abraços!

  8. Leonardo
    22/11/2016 at 17:39

    Pode ser que um dia comer carne se torne algo absurdo e proibido. O sentimento de identificação com animais e outros grupos vai continuar na modernidade.Mas nem todos têm esta visão. A maioria dos veganos utilizam o argumento de que como todos os animais são serem sencientes, a sua exploração para consumo seria errada. São como nós porque sentem dor e sofrimento.
    Mas será que isto é o suficiente? Devo abdicar do gosto de comer por conta disto? Por enquanto acho que não.

    • 22/11/2016 at 17:56

      Leonardo o fato de você querer matar para comer é algo seu, ainda não é crime. Agora, meu artigo nada tem a ver com isso, pena você não ter conseguido entender. Você não é o umbigo do mundo.

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