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14/12/2017

Não se nasce estúpido, torna-se! Sobre o vazio do militante


Sem o feminismo teríamos uma sociedade pior, em todos os sentidos. Ainda estaríamos vivendo a época do desconhecimento da mulher. Com o feminismo militante que vomita clichés temos uma sociedade melhor pelo que já foi feito, mas uma sociedade que começa a emperrar cerebralmente. 

O militante fala muito e diz pouco.

Quando usamos a palavra “machismo”, estamos dizendo algo? Machismo revela o comportamento no qual alguém avalia uma mulher pior do que um homem, em alguma atividade, única e exclusivamente porque ela é mulher (e mulher aqui é gênero, não sexo). Portanto, em geral, quando descrevo uma situação em que uma mulher é posta para escanteio diante de um homem, por este ou por um terceiro, já falei tudo que tinha que falar. Batizar essa situação de machismo não explica nada, apenas dá um nome único para aquilo que a descrição já fez, e até melhor. Nessa hora, o nome “machismo” é desnecessário. Mas, se aplicado, não só se esvazia como acaba virando cliché. Após isso, outros que o repetem se revelam como usuários de clichés. Joga-se fora uma preciosidade que temos, que é a atuação na revolução semântica para mudar como falamos e, assim, como agimos.

O mesmo ocorre quando simplificamos tudo, no enfileiramento de clichés ou termos que já se esvaziaram: “sociedade machista, patriarcal e sexista”. O valor dessa expressão é menos que zero. Que vivemos no patriarcalismo todos sabemos. Que somos todos os bípedes sem penas meio sexistas, também o sabemos. Então, conta outra tá? Mas não!  Diferente do filósofo ou do intelectual, o militante emburrecido já não quer a explicação de nada, quer apenas usar das palavras de ordem que ele pensa que são palavras mágicas. Solta seu “abracadabra” e tudo fica claro, tudo se resolve, tudo é denunciado como mal moral e o bem moral irá imperar. Caso não, ele chama a lei ou a falta da lei. Esse tipo de pessoa, quando vê o filósofo tentar uma narrativa explicativa, age igual ao nazista que dizia “coloco a mão no coldre quando escuto a palavra cultura”.

A direita chama as feministas atuais de “feminazis”. A direita é especialista em rotular para não explicar, coisa que a esquerda aprendeu a fazer vendo o seu espelho, a  própria direita. Mas o triste é ver que as feministas aprenderam a conduta da direita. As militantes não acreditam que os problemas das mulheres sejam novos, que devemos analisar caso a caso, em geografias e histórias diferentes. Justo essas feministas que deram força aos chamados estudos culturais, que surgiram contra posturas filosóficas que tinham um resposta única para tudo (em geral uma metafísica da natureza humana), agora não querem usar dos instrumentos que prestigiaram. Estudos culturais são estudos, não estudo. E culturais são culturais, não cultura. A diversidade do tempo e lugar precisa ser considerada. A peculiaridade também. Os mecanismos que amarram condutas e semânticas também. Dar nomes vagos como “machismo” ou “sociedade patriarcal” resolve tanto quanto resolve aquela situação na qual você vai no médico com dor de garganta e ele diz que é uma laringite. Ora, o que seria senão esse nome? Uma faringite?

Talvez o médico ainda tenha uma utilidade ao dar nomes tautológicos, pois o nome ajuda você ir no campo da farmacologia, segundo um manual, e então encontra a substância química que deverá atuar no sintoma. Mas veja como no caso do nome dado pela feminista, não adiantada nada. Chamo algo de “machista”. E daí? Não há uma manual farmacológico com indicações químicas para amenização de sintomas de machismo. Entende isso?

Por meio da crítica da cultura via filosofia, tenho tentado antes de pegar o conteúdo dos assuntos, segurar pelo colarinho a própria linguagem dos assuntos. Nesse sentido, a filosofia como crítica da cultura é uma crítica da mídia, uma crítica da semântica, uma narrativa sobre a narrativa, uma forma de com a linguagem dar trança-pés na linguagem. Tenho usado a mídia para fazer isso. Não raro, faço isso no meu blog. Testando essa entrada oblíqua, faço uma experiência do pensamento, aprendida com Richard Rorty. Um pouco diferente do que faço na filosofia acadêmica. Tenho insistido nessa postura, ela é a fórmula que tenho para combater a burrice, a burrice que se espraia entre militantes de quaisquer causa quando eles se tornam exclusivamente militantes.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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11 Responses “Não se nasce estúpido, torna-se! Sobre o vazio do militante”

  1. 08/02/2017 at 14:53

    Concordo com você, Paulo. Pretendem explicar algo complexo de maneira simplista, com esses clichês tirados da cartola, assim, a tempo e a hora. Redação do ENEM 2015 que o diga. Todas elas nota 1000, generosamente conferidas pelos examinadores do INEP.

  2. 08/02/2017 at 13:03

    “Sociedade patriarcal”, professor, nem nos rincões da África, nos remotos sertões do Nordeste brasileiro ou nos confins da Mongólia, onde, “o “vento faz a curva”?

    • 08/02/2017 at 13:43

      FEMINISMO. Eu não tenho nenhuma dúvida da validade do conceito de “sociedade patriarcal”. Eu tenho dúvidas sobre a validade dele quando na boca de uma moça que é estudante de “relações de gênero” ou feminista. Em geral vira explicação para tudo e, portanto, algo energúmeno.

  3. Daniel Ricco
    09/11/2015 at 21:52

    Olá Paulo! Sou estudante de filosofia da UFMS em Campo Grande/MS. Li este artigo e pensei: Nietzsche e Heidegger já estavam pensando cada um em sua época sobre como é perigoso e imperativo entender as pessoas ou as coisas pelo viés do conceito, ou podemos chamar aqui pelo artigo, pelo gênero. Ambos concordariam que se torna fascista aquele que aponta por julgamento de certo ou errado, verdadeiro ou falso simplesmente porque não gosta. Quando Nietzsche reflete sobre o cristianismo, deixa claro que não está atacando pessoas mas está tentando derrubar as concepções que as fundamentam, ou seja, tentando superá-las e não eliminá-las, justamente porque elas servem de exemplo para seu aprendizado.

  4. 09/11/2015 at 12:50

    como prometido, eis o meu comentário sobre clichês ou sua raiva diante dos meus comentários [sim, o sr. pertence a uma tribo raivosa].
    interessante que o sr lançou a analogia do diagnostico médico. o medico possui todo um conhecimento que o torna apto a detectar qual doença, especificamente, mediante os sintomas apresentados, seu paciente está contaminado.
    ora, a função do intelectual, do pensador, do filósofo é exatamente um conhecimento que o capacita em detectar nos sintomas de nossa sociedade quais são seus males.
    para a inflamação de garganta existe amidalite, faringite e laringite. não seria engraçado então se eu protestasse contra o diagnostico do médico reclamando que isto é um “clichê”? por acaso contestar o diagnostico é contestar que a doença existe, ou que não convém apontar os sintomas? pois aí está, professor. dar o nome ao que deve ser nomeado nos dá poder sobre ele. toma-se anti-inflamatório para a inflamação na garganta. para resolver o machismo, apenas apontando para ele e curando essa discriminação. para melhorar nossa sociedade, apenas apontando para sua estrutura sexista e patriarcal. não há outra forma de fazê-lo senão usando o nome dos sintomas. reclamar que isso é clichê é igualmente um clichê. ser capaz de usar a filosofia para criticar a cultura, a linguagem, a mídia, a semântica mas ser incapaz de autocrítica é igualmente burrice. fazer um discurso ex-cátedra no alto de seu pedestal de professor é uma forma de militância.
    eu não me importarei se meu comentário for censurado. eu entenderei. afinal, é necessário ter alguma inteligência para entender o que escrevemos.

    • 09/11/2015 at 12:59

      Roberto, você não sabe o que é cliché. O exemplo do médico mostra isso. E seu texto é magoado e raivoso. A minha raiva era de cansaço, não aguento a burrice do cliché. A sua raiva é a de quem usa o cliché por não saber o que é cliché. Mas dá para aprender. Basta refletir, não responder, ir ver onde errou. Faz-se isso é crescerá.

  5. 09/11/2015 at 01:25

    Paulo, o que pensa sobre os discursos e escritos de Marcia Tiburi e do Jean wyllys?

    • 09/11/2015 at 12:43

      O livro que lançaram juntos sobre “Como conversar com um fascista” é simplesmente um livro quase-fascista. Só dogmas, sem conversa.

  6. Silvana
    09/11/2015 at 00:08

    A MULHER É FRUTO DA CONSTRUÇÃO DO PODER MASCULINO

    • 09/11/2015 at 12:44

      Não, Silvana, ela é fruto da costela de Adão, que não era tão masculino. Aliás, nem Deus. Dogma por dogma, posso usar este, não?

  7. João Pedro
    08/11/2015 at 19:02

    Paulo, puxando aqui p/ outro assunto. Viu o edital de para professores no Maranhão? R$ 5000,00

    Enquanto isso SP fecha escolas…

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