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17/08/2017

Uruguai na frente? Mas há uma corrida desportiva por aí?


Imaginei o professor Wladimir Safatle escrevendo seu artigo “Uruguai na frente”: uma mãoimage_large no teclado e a outra segurando fogos de artifício (Folha, 17/12/2013). Digitou comemorando entusiasticamente a descriminalização da maconha no Uruguai, mas não conseguiu perceber que o que colocou no mesmo saco são coisas bem diferentes. Afinal, junto da “maconha legal” ele festejou a legalização do aborto e o casamento homossexual.

São coisas completamente diferentes. Todavia, com uma lente pouco analítica, considerou tudo como a bem vinda “modernização dos costumes” inserida no centro da política.

O casamento homossexual diz respeito a decisões efetivamente individuais e não cria grandes problemas para terceiros. Todavia, a legalização do aborto e a descriminalização das drogas não implicam em atitudes exclusivamente individuais e privadas. No caso do aborto, temos a polêmica não decidida sobre o quanto uma sociedade guiada pela moral da não humilhação dos mais fracos, pode avaliar o feto antes como uma coisa que como alguém muito fraco e indefeso. No caso da droga temos a polêmica também não decidida sobre a questão do vício. No limite, dependendo do que é o vício, também aí estaríamos não deixando adultos indefesos, mas fazendo jovens se transformarem em indefesos sem saber.

O caso do aborto eu abordei em outro lugar. No caso das drogas, escrevi outros textos, mas retorno rapidamente aqui, para mostrar que o professor Wladimir Safatle talvez peque por ter certezas demais em sua vida. Ele parece tudo saber e tudo poder decidir com uma rapidez que não encontramos em outras pessoas até mais velhas e com estudos mais aprofundados no assunto.

Inicio pela sua argumentação que, penso eu, contém meia verdade.

Ele diz que nunca existiu sociedade sem drogas e ele conclui que ao invés de ficarmos procurando por uma sociedade que nunca existiu, então que aceitemos viver numa sociedade com drogas, onde o que resta é a legalização para o controle.

Bem, ele está certo ao dizer que nunca houve sociedade sem drogas, pelo que eu sei. Também creio, junto com ele, que a ilegalidade de certas drogas em determinados lugares e tempos cria não o controle, mas o completo descontrole. Mas o que ele parece não entender é que a questão da droga não é a droga, mas o vício. Sempre tivemos drogas, mas não necessariamente tivemos sempre o vício. O vício com a droga, como escrevi tendo como referência o filósofo alemão Peter Sloterdijk, é algo moderno.

Sociedades com deuses não emudecidos e com rituais presentes e vivos, tiveram a droga no interior da vida religiosa, e sem vestígios do vício. Os fenômenos que podemos resumir no interior da frase de Weber “desencantamento do mundo” trouxeram as condições para que a droga fosse para o consumo privado, descodificada, e se tornasse então o elemento da frivolidade geradora do vício. Fora isso, Sloterdijk também invoca uma questão que ele põe na conta de uma nova narrativa ontológica. Sua nova ontologia abarca a ideia de fenômenos que nos revelam com seres meios que namorados da inexistência, e ele diz que tais fenômenos não são completamente aleatórios, esporádicos, contingentes. Viemos à existência e vamos para a inexistência, mas, antes disso, desejamos enquanto existimos a não existência. Há uma cultura nirvânica necessária, notamos isso, se optarmos por narrativas ontológicas que não se restringem a dizer que descrevem a “mobília do mundo”. Ora, essa busca da inexistência tem nas drogas o seu momento correto para se expandir, o seu coadjuvante principal, e tudo só pode realmente caminhar como parece ser necessário, nesse caso, se o resultado é o vício, a constância, a entrada para o repetitivo.

O vício é o problema, não exclusivamente as drogas. Sabemos que há vício em jogos de baralho, em corridas de cavalo etc., Sabemos que a nossa sociedade atual tem um vício esquisito, que é o workaholismo e a contrapartida dos hobbies obrigatórios e frenéticos. Poderíamos, vendo isso, até secundarizar a questão das drogas. Todavia, entre várias coisas que produzem vícios, a droga é uma delas, poderosa, e associada a um elemento que não é determinante, mas que é poderoso na criação do horror, que é são as modificações químicas aceleradas.

Quando olhamos esses elementos todos, nossa certeza de que sabemos o que estamos fazendo ao descriminalizar a maconha tem de se apegar a razões de estado, e bem menos a razões ligadas ao indivíduo como Safatle quer fazer crer.

Em outras palavras: quando olhamos para a porta do vício e para o que ele significa efetivamente na vida das pessoas, temos de rapidamente correr para a janela para tentar enxergar a droga na sua significação para os gastos do estado. Por essa segunda via, tornamo-nos mais confiantes no desejo da descriminalização, mas, pela primeira via, quem estiver esfuziante ao achar que é uma decisão certa, pode estar dando uma de pedante ou de ingênuo.

Continuo achando que se temos o que comemorar, é mais pelo nosso egoísmo que por qualquer outra coisa. Ou seja, vamos assistir a experiência uruguaia para decidir sobre o nosso caminho. Assim, podemos comemorar, de maneira pouco nobre, o fato de termos um país vizinho, pequeno, disposto a nos dar parâmetros para o nosso futuro. Isso é completamente diferente de dizermos, já como sabichões, que quem saiu na frente está certo. Calma! Muita calma nessa hora. Vamos precisar de alguns anos para ver se quem saiu na frente vai ou não querer voltar atrás.

Nossa sociedade legalizou o álcool e o cigarro. Depois, começou a censurá-lo. Nossa sociedade legalizou o uso de vários medicamentos, hoje, tende a pedir receita médica para tudo. Não devemos agir a todo momento como militantes políticos juvenis quando o que nos cobraram e certa serenidade filosófica.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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28 Responses “Uruguai na frente? Mas há uma corrida desportiva por aí?”

  1. Rafael Costa
    24/12/2013 at 19:41

    Pessoalmente sou favorável à legalização da Maconha, porém, seria bom esperarmos alguns anos e verificar as consequências no Uruguais, antes de tirar uma conclusão favorável ou contra tal legalização.

  2. Thiago Leite
    19/12/2013 at 21:05

    Paulo, como saber se um condicionamento não é um vício? A educação cria condicionamentos também.

    • 20/12/2013 at 01:42

      Thiago, basta ir no dicionário, condicionamento é condicionamento vício é vício.

  3. Loock'
    19/12/2013 at 12:11

    Ghiraldelli é uma Anta mesmo, Pensa que é o único quem pesquisa e estuda sobre esses assuntos, Eu nunca vi tanta idiotice em um texto tão pequeno. Usa o preconceito do aborto e do homossexualismo, para falar contra a cannabis.

    • 19/12/2013 at 12:57

      Amigos, deixei o post do covarde Loock para mostrar que sabemos pouco sobre a maconha, alguns dizem que ela torna a pessoa amável, mas vejam como o maconheiro ficou agressivo nest post. Agora, o efeito de prejudicar o entendimento, este se confirmou.

  4. MARCELO CIOTI
    19/12/2013 at 11:44

    Claro,o FHC não quis fazer igual o Uruguai está fazendo,porque
    seus aliados da direita não deixaram.É igual ao Al Gore,que fez
    um documentário sobre o aquecimento global,mesmo sabendo
    que os EUA são,junto com a China,os maiores poluidores do
    mundo.Os conservadores,claro,vão tirar o maior sarro do Safatle
    e chamá-lo de “comunista”,”petralha” e outros adjetivos.Virou
    moda caçar pedófilos e usuários de drogas-não os traficantes-
    como os vilões do universo.Prender mais de 700 mil usuários
    de drogas como fazem nos EUA,é um acinte.Só as viúvas do
    Reagan concordam com esse autoritarismo bocó.

    • Hilton Neves
      19/12/2013 at 13:55

      Marcelo, não acho que estejamos acorrentados a essa dicotomia obtusa. Sou fã do Gipper, e desejo a maconha descriminalizada. As pesadas? Sou contra, seus usuários farão mal a outras pessoas.
      Só consigo ver, no lance da maconha, como conservador do ponto-de-vista histórico e até fiscal; quem a prefira descriminalizada. Afinal, não faz sentido gastar zilhões, guerreando com uma planta.

    • 19/12/2013 at 17:02

      Hilton, acho que é cedo para conversarmos de modo plebiscitário, como o Safatle insiste, entende?

    • Hilton Neves
      19/12/2013 at 18:10

      Acho que sim, Paulo. Por coincidência, ao voltar, vi no alto da página uma frase sobre a filosofia não combinar com isso.

    • MARCELO CIOTI
      20/12/2013 at 10:18

      Hilton,também sou contra as drogas pesadas.Mas
      não acho que se deva resolver todos os problemas
      do mundo chamando a polícia.O Safatle acha o sr.
      Snowden um herói,e acha que o Obama e o Bush são
      iguais.Ele critica tanto o Obama que,se ele fosse
      americano,trabalharia na Fox News.No fundo,ele não
      passa de um Paulo Henrique Amorim careca e
      barbudo.

  5. Nelson
    19/12/2013 at 09:10

    Exato, esse momento exige cautela e serenidade. O assunto é complicado e envolve algumas camadas. Não dá pra arrotar sapiência nem determinar qualquer verdade sobre a questão. Não é muito honroso de nossa parte usar o Uruguai como ‘lab rat’, mas é o que temos de cartas no momento…

    • 19/12/2013 at 11:25

      O Uruguai é pequeno, é um bom laboratório. Bem, temos a desculpa que já foi um estado nosso.

  6. João P.
    19/12/2013 at 01:10

    Pretendi ir mais na linha: não sei se o que o Uruguai fez é, por si, algo bom, mas, pelo menos, é diferente do que temos feito repetidamente e sem sucesso.

    Não pude deixar de me lembrar do burro, aquele que, uma vez empacado, não pode ser demovido. Nesse sentido, o Uruguai não é burro como somos. Vá lá, talvez o plano implantado seja igualmente desastroso e o Uruguai tenha de buscar outro caminho, mas está bravamente tentando.

    Se o FHC, que se acovardou de seguir adiante com Portugal, com quem traçou o plano implantando lá (era para ter sido conjunto), estiver certo, há outros caminhos autênticos, também não policialescos, que tem mostrado algum valor. Caso mesmo de Portugal.

    Faço votos de que o Uruguai do velho Mujica obtenha sucesso e de que possamos,por ele inspirados e a partir da observação dos seus resultados, encontrar um caminho que igualmente não implique o encarceramento massivo de negros favelados.

    • 19/12/2013 at 02:15

      João P. Só porque não demos o passo que você acha o certo estamos empacados? Acho que você não está lendo os jornais ou então é muito jovem. Fizemos o filme que o FHC participou, tivemos a manifestação dele, apareceram várias marchas etc. São passos. Há um certo autoritarismo no seu pensamento, que é o autoritarismo do Safatle, igualzinho. Percebe? A democracia é uma experiência que se faz de experiências. O Brasil é o Brasil, não é o Uruguai. O amadurecimento nosso sobre o assunto está ocorrendo, mas não vamos ser mais maduros (ou menos) se seguirmos (ou não seguirmos o Uruguai). As pessoas de esquerda deveriam ter um apreço maior pela democracia e entenderem que a criatividade não precisa de pressa, não se alimenta de pressa. O juvenilismo do artigo do Safatle em a ver com a idade dele. Mas o Brasil não pode ser jovem como ele, tem de ser mais ponderado. Pode ser.

    • João P.
      19/12/2013 at 20:17

      Enquanto sociedade, estamos traçando caminhos,discutindo possibilidades, enfim, amadurecendo nossa própria experiência.

      O que me aflige, no entanto, é o fato de nossas políticas públicas estarem caminhando no sentido do enrijecendo do que é objeto de inúmeros questionamentos no debate público.

      É nesse sentido que falo em estarmos empacados. Enquanto discutimos a eficácia e, no limite, o valor ético do encarceramento como solução, caminham a passos largos no congresso propostas de endurecimento de penas e expansão de tipos penais.

      Há um grande descompasso entre o debate público e as politicas. Ele aponta aponta que, no mínimo, o legislador deveria ser cauteloso. Mas os congressistas — puxados pela bancada evangélica — agem como se tivessem a chave da historia, ignorando o processo dialógico de construção de nossa experiência.

      .

  7. João P.
    18/12/2013 at 20:31

    Os novos modelos de política para as drogas, como o do Uruguai, se, por um lado, representam experiência cujos efeitos sociais devem ser esperados com cautela, por outro, representam avanço em relação ao que faz o Brasil e, a rigor, a maioria dos países do mundo.Seu mérito reside na tentativa de abordar o problema por uma via diferente da policial, que tem se mostrado absolutamente desastrosa.

    Há muito que se poderia falar sobre os efeitos perversos da atual política de “guerra às drogas” e que tornam quase que qualquer caminho alternativo um avanço, ainda que possam, por exemplo, aumentar o número de viciados.

    Para ficar num dado prosaico sobre a política hegemônica, 1 em cada 5 encarcerados no Brasil cumpre pena por crime previsto na Lei de Drogas. Isso para não falarmos dos EUA. Lá, só por posse de maconha para consumo (!!), foram presos 700 mil seres-humanos. A maioria negros e hispânicos (75% do presos), ainda que a incidência de consumo nestes grupos seja similar daquela entre brancos…

    Se adotássemos rigorosamente o modelo à nível mundial — e ele fosse 100% eficaz –, teríamos atualmente cerca de 200 milhões de pessoas (estimativa da ONU para o número de consumidores de drogas ilegais no mundo) cumprindo pena de prisão apenas por consumir droga. A grande maioria usuários recreacionais de maconha, que tem taxa de vicio e impacto negativo sobre a saúde absolutamente inferiores ao álcool e ao tabaco.

    • 18/12/2013 at 23:33

      Esse é o problema: tem gente que já sabe tudo. Nem precisa do Uruguai. Eu preciso.

  8. MARCELO CIOTI
    18/12/2013 at 12:23

    Há leitores de jornal que fazem questão de ser burros e idiotas.
    É o caso do leitor que escreveu na Folha,o imbecil Ademir
    Valezi que disse,que,já que o Uruguai legalizou a maconha,São
    Paulo deveria legalizar o crack.Esse Ademir Valezi é um
    tremendo reaça que deve tomar cerveja ou uísque,um daqueles
    cocôs que acham que a polícia deve “dar umas torturadinhas”
    nos viciados em drogas,como fizeram com o Amarildo.Um
    bostinha.

  9. Ensaiador
    18/12/2013 at 12:11

    Como legalizar no Brasil sem fazer uma faxina na cozinha primeiro? Sem contar o resto da casa, na sua reforma e organização dos móveis. Concordo com você Paulo no ponto de convidar o Safatle a suspender o juízo e observar como será a experiência no Uruguai. Será que ele já leu Montaigne?

    • 18/12/2013 at 16:17

      O Safatle lendo Montaigne? Ha ha ha. Não consigo imaginar.

    • Ensaiador
      18/12/2013 at 16:28

      Ele mesmo! huahuahua

  10. Pedro Andrade
    18/12/2013 at 11:24

    Excelente texto! muito bom ler seu texto, nos faz frear o entusiasmo adolescente e agirmos com mais serenidade.

    • 18/12/2013 at 16:18

      Meu texto, Pedro Andrade, é algo que está sob o impacto dos outros que fiz sobre Sloterdijk, sobre o vício.

  11. Marco Vasconcelos
    18/12/2013 at 08:40

    Ótimo contraponto aos texto do Safatle, professor. Fico feliz de poder ler um debate tão interessante e inteligente sobre um tema tão polêmico.

  12. Hilton Neves
    18/12/2013 at 05:47

    Sempre fui contra o modelo uruguaio. Pois nele há presença excessiva do estado.

    A descriminalização que defendo, Ghiraldelli, é a do sujeito poder plantar em casa. E vender, comprar ou fumar o quanto quiser.

    Quanto ao vício, pelo que tento aprender, o risco é de 9%.
    De qualquer modo, Safatle e Mujica defendem que o estado trate quem tiver a saúde prejudicada pela droga.
    Como gosto da responsabilidade individual, vou com as idéias que você expôs nos 10° e 11° §os deste artigo.

    Sinto-me assaz frustrado porque no Brasil o mainstream nunca põe o lance do cânhamo em debate. Que é tido como útil em cordas, na parte têxtil, combustível, material de construção, fibras ou óleos.

    • 18/12/2013 at 09:15

      Hilton, maconha faz mal. E muito. E é irreversível o mal. O modelo uruguaio é um modelo, e o que escrevi vai no sentido contrário ao seu final aí, ou seja, acho que temos que aprender com o Uruguai para só então começarmos a conversar sem entusiasmo adolescente.

    • Hilton Neves
      18/12/2013 at 16:00

      Ela faz, sim, Paulo. Só que faz menos mal que a cerveja. E se olharmos o custo-benefício?
      Acho que podemos aprender também com os últimos 2.600 anos, em que ela foi fumada sem dano significativo. A proibição tem 76. Por que esta ganhou verniz de tradicional?

    • 18/12/2013 at 16:16

      Hilton, essa coisa de fazer menos mal é uma bobagem. Todos nós sabemos que açucar faz mal. Tudo depende. Agora, nós não vamos aprender com 2.600 anos por uma razão simples: nós aprendemos o que nos pomos a observar. A droga como vício é algo novo na nossa vida.

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