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22/10/2017

Uma modinha conservadora do tragicismo está passando!


Alguns conservadores descobriram, há uns quatro anos ou cinco anos, que podiam fazer sucesso popular invocando teses trágicas. A ideia básica era a de reproduzir, em nível dogmático e quase de militância política, algumas coisas que encontraram em Cioran.

Cioran escreveu que tinha bem mais apreço por Pirro do que por São Paulo. Ou seja, antes seguir um cético que seguir alguém que sabe o que é o certo. Há uma grande verdade nisso. Os que sabem o certo, principalmente no grau de convicção de Paulo, o apóstolo que se fez apóstolo por si mesmo, não raro constroem um mundo mais cruel do que os que não sabem o certo. Ora, os conservadores adoraram essa tese e, com ela em punho, tentam destruir utopistas de todo tipo e benfeitores de toda espécie. Todo benfeitor é tomado como Fanático do Certo, o Lênin da vez. Esqueceram-se de um detalhe da filosofia trágica: como o ironismo pragmatista, o tragicismo não tem função positiva, só negativa. Ele não visa dar combate às pessoas semelhantes a São Paulo para, nesse contexto, eliminar quem quiser cuidar do Masp, quem achar que deve criar movimento sociais para a proteção de indefesos, ou aquela celebridade que quiser usar de sua fama para angariar donativos para a África. Pensar assim é antes de tudo querer combater a ideia da benfeitoria não pelo fanatismo que benfeitores possam adquirir, mas acabar por combater todo e qualquer projeto de benfeitoria. No limite, o trágico conservador, mal leitor de Cioran e pior leitor ainda de Nietzsche, mostra-se logo ele o fanático da política, o perseguidor de todo tipo de mecenas.

Quando os conservadores adotam o tragicismo não como filosofia de denúncia, mas como uma visão realista da realidade (“sejamos realistas!”), então eles próprios começam a assumir o fanatismo que denunciam nos que sabem o certo. Abandonam a narrativa trágica como narrativa, dão vazão a estranhos pensamentos sobre ontologia única – aquela descrição que não se vê como narrativa. O desfecho trágico se transforma em imperativo ético natural, e todas as pessoas capazes de se responsabilizar pelo que cativam (para usar a célebre frase de O Pequeno Príncipe) passam a ser gente perigosa. O fanatismo é tão ou mais perigoso quando é combate ao fanatismo do outro.

Esse conservadorismo está com os seus dias contados. Já perdeu adeptos e vai perder mais. Gente vomitando por aí teses capazes de se tornarem mais dogmáticas, até pouco tempo vistas como uma coqueluche salvadora, agora dão mostras de desgaste nítido. Qualquer Roger Scruton da vida que tiver adeptos ou imitadores no Brasil, declarados ou não, pode arrumar as malas para voltar para sua ilha.

Paulo Ghiraldelli, 59, fillósofo. São Paulo, 19/10/2016.

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5 Responses “Uma modinha conservadora do tragicismo está passando!”

  1. Mário Ribeiro
    20/06/2017 at 22:54

    Só li três textos seus, mas ja deu pra perceber que apesar de tentar passar por uma pessoa “desconstruida”, você não passa de um esquerdista

    • 21/06/2017 at 19:55

      Mário Ribeiro, após ler 3 textos meus e escrever duas linhas, sei que você não passa de uma besta. Uma besta de direita? Sim!

  2. 20/10/2016 at 08:51

    É chato, sempre ver a mesma coisa “destes trágicos”! E olha que comprei alguns livros dele! Seu ex-colega.

    • 20/10/2016 at 09:56

      “Colega”? Não trabalho nos lugares que todos trabalham.

  3. Maximiliano Paim
    19/10/2016 at 19:22

    Me parece ser o naufrágio trágico no oceano infinito do bem que o vence pelo cansaço.

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