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26/05/2018

Um tal Narloch e como ser caolho com a questão do prédio desabado em São Paulo


[Artigo para o público em geral]

Narloch é um nome estranho. Soa estranho. E o que esse jovem faz e fala é mais estranho ainda. Vi a foto dele, tem dois olhos, mas não sei por qual razão, talvez por algum tipo de lobotomia ou lavagem cerebral, ele só enxerga com um olho, o direito. Ele é aquele moço que não conseguiu entender nossos manuais de história, que mostram Zumbi como símbolo da luta de negros por liberdade.  Fez então o manual dele, publicado pela Leya, e que é um livro com mais erros que acertos. Algo meio inculto mesmo. Ele tem curso superior, diz que fez filosofia, mas coisas simples o escapam por conta de ser caolho. Uma caolho mental.

Desabou o edifício Wilton Paes de Almeida (inaugurado em 1968), do Largo Paissandu (aquele largo que tem o monumento da Mãe Preta) (1). Apareceu o que todo mundo já sabia e que por várias vezes saiu na TV: há sim taxa de manutenção de quem morava e mora em cortiços em São Paulo. Não há almoço grátis, dizem os economistas de direita que Narloch deveria ler. Por isso, o movimento dos Sem Teto cobra aluguel de cortiço. Isso se chama desgraça em cima de desgraça. Narloch esquece tudo que está em torno do ocorrido, da tragédia, da desgraça da moradia em São Paulo, e encontra seu demônio nos Sem Teto. É seu novo Zumbi. É sua tara por aquilo que pode lhe parecer “de esquerda”. Sua doença mental se manifesta. A Folha de S. Paulo lhe dá voz (02/05/2018), para que ele seja quem ele é, um tipo mesquinho e infeliz.

Vamos ao caso sem caolhismo.

Tudo fica claro quando pegamos a palavra de João Dória. Ele diz: lá no prédio “havia uma facção criminosa”. Dória diz isso como se ele nunca tivesse sido prefeito da cidade. Mas foi, até ontem. Ou seja, se havia facção criminosa lá no prédio, com ações intimidatórias e corruptas com pobres,  se ele, Dória, está fazendo a mesma denúncia de Narloch, por que ele não interveio? Por que há 80 prédios nessas condições no centro? Vi aquele prédio sendo construído. Nasci ali na Santa Ifigênia, fui batizado naquela igreja. Conheço a evolução do centro de S. Paulo e tenho profunda intimidade com as maneiras que os gestores de São Paulo trataram a cidade. Sei que o prédio é do Governo Federal (ali foi sede da Polícia Federal) e que os cuidados com o prédio, inclusive as questões relativas a perigo de incêndio, são da alçada da Prefeitura, que não toma nenhuma providência sobre essas questões se quem mora nos prédios é pobre. Há um total incentivo dos poderes públicos quanto a invasões, e isso não é obra do PT, mas de todos os governos que passaram pela prefeitura de São Paulo. Aliás, quanto menos petista, mais há incentivo às invasões. Tudo funciona no sentido de deteriorar a área para que o governo possa entregar para a especulação mobiliária o espaço. Isso quando não há, também, incêndios criminosos, para adiantar o processo. Quanto a isso, Narloch se cala. Ele assassina aí a sua função de jornalista, que ele diz ser.

Na prática, a questão toda não é de Sem Teto ou de prefeitos. Estes são apenas marionetes que tiram proveito – aceitando benesses – de algo maior, que eu poderia, parafraseando Padilha, chamar de “o mecanismo”. Trata-se da especulação mobiliária. Ela dobra líder de Sem Teto e ela dobra prefeitos, e não precisa, para tal, nenhuma cabeça pensante centralizando suas ações, embora em alguns momentos isso até aconteça e haja mesmo intenção de que tudo ocorra como numa trama adrede preparada. Mas, no geral, é o destino que se encarrega de tudo. Pois nenhum político mete a mão nesse cumbuca. Político que briga contra a especulação imobiliária, ou “o mecanismo”, em São Paulo, pode esquecer, não se elege prefeito nunca!

Narloch ou é caolho mesmo, com algum defeito mental, ou então é militante de movimentos de direita que se aliam tacitamente a uma pseudo-esquerda que administra desgraça. Esses movimentos de direita são sim ideológicos tanto quanto os de esquerda. Mas o “mecanismo” não é intencionalmente ideológico. Ele apenas funciona como … mecanismo. Para que se entenda o que eu digo basta ver quem são os moradores do prédio desabado. Muitos são pessoas que já fugiram de incêndios de favela. O poder público brinca com os mesmos, sempre. E gente como Narloch imita Boulos, brincando com os pobres também, sempre. Desgraça atraia desgraça e junto com ela urubus que escrevem em jornais.

Temer foi até o local e se deixou trair pelas palavras: “estou em São Paulo, por acaso, e vim aqui pois pegaria mal se não viesse”. Isso é declaração? Não veio pelas vítimas, mas porque “pegaria mal”. Eu poderia colocar essas palavras na boca de Narloch: “não escrevi sobre o prédio por conta das vítimas, mas pegaria mal, diante de meus patrões, se não continuasse sendo de direita até mesmo na desgraça. Outros fizeram diferente de Narloch e Temer. Foram lá nos escombros oferecer roupa e comida para os desabrigados. Há muitos e muitos paulistanos que não são bandidos, e que não esqueceram de algo chamado solidariedade. Felizmente São Paulo é maior que jornalistas de direita, pseudo-líderes de esquerda, presidentes e prefeitos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

(1) A história desse edifício se confunde com a história do destino das grandes cidades no Brasil: foi inaugurado pelo empresário Sebastião Paes de Almeida para ser sede de suas empresas e depois virou sede também de várias outras empresas de grande porte. Por dívidas do empresário para a Receita Federal, o edifício caiu nas mãos do Estado, foi sede da polícia federal e, enfim, abandonado, foi invadido pelo Movimento dos Sem Teto. O local é o centro velho de S. Paulo. Um espaço de terra ali vale muito. O serviço de limpeza do local já foi feito, agora, pelo fogo. Sob os escombros, estão os pobres. Sobre os escombros, estão ricos. E que ficarão mais ricos com esse destino.

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8 Responses “Um tal Narloch e como ser caolho com a questão do prédio desabado em São Paulo”

  1. Hilquias Honório
    03/05/2018 at 19:51

    É impressionante como políticos e líderes pelegos nunca assumem qualquer responsabilidade. Boulos, Dória. E muitos de nós ainda damos IBOPE pra esse tipo de gente.

  2. EDSON DE MELO
    03/05/2018 at 16:56

    A conjugação verbal. O prefeito não interveio E é ligado à especulação imobiliária

  3. EDSON DE MELO
    03/05/2018 at 16:53

    Por favor , intervir, interveio .

    • 03/05/2018 at 21:26

      Obrigado Edson, o correto é interveio, claro! Vou ver onde está e corrigir

  4. Gintoki Sakata
    03/05/2018 at 12:56

    Boa tarde, Prof. Ghiraldelli.

    Esse cara é (só mais um) partidário do “historialismo”: doutrina que, como o MiniVer de “1984”, “modifica” a história para os interesses do seu grupo político e a coloca como verdade absoluta. E disso aí até o PCO e o MBL tem (e muito).

    • 03/05/2018 at 13:09

      Sakata! É a onda da Ignorância Pondé fazendo volume.

  5. Anderson Silva
    03/05/2018 at 12:49

    Então, o que achei impressionante foi a quantidade de pessoas, nas redes sociais, postando a lógica desse “caolho”. Não sou um bom avaliador social, mas a impressão que tive é que todos já estavam esperando algo do tipo “olha, os sem teto pagavam alugueis para os movimentos sociais de sem teto”. Muitos estavam esperando uma oportunidade para deixarem de ver a tragédia, já esperavam um culpado, o próprio miserável.

  6. LMC
    02/05/2018 at 11:18

    Só encheram o saco do Temer
    quando ele foi ver o prédio
    que desabou por causa dos
    puxa-sacos do Lula e Guilherme
    Boulos que estavam lá.Aqueles
    que ficam xingando “Globo golpista”,etc.

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