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25/07/2017

Um novo paradigma em filosofia social


Sloterdijk para além de libido e luta de classes

Sou responsável pela tese de que vivemos em uma sociedade altamente sexualizada, porém completamente deserotizada. Somos bombardeados por sons e imagens a respeito de sexo em um volume nada diminuto, e mesmo assim seguimos nossas vidas rotineiras. Eros já foi um deus, mas, entre nós modernos, não está com nada. Como as imagens e sons não fazem efeito, então os laboratórios resolveram nos acordar por meio de algo como o Viagra. O consumo desse ingrediente entre os jovens é assustador, e assim mesmo nossos hábitos de cadáveres ou de baratas rápidas, mas tontas, não muda. Os desejos estão em baixa. Já faz tempo. Uma sociedade que foi a do “trabalho” (Marx, Weber, Durkheim) e, agora, é a dos “empregados” (Hannah Arendt), não tem nada a ver com erotismo. Não pode ter mesmo!

Qualquer outra sociedade – no passado ou no futuro ou apenas como utopia – que viesse a receber a massa de estímulos sexualizadores que a nossa recebe, explodiria em revoluções desejantes e num estupor de excitação incontrolável. O que Adorno chamou de “apatia burguesa” reina entre nós e nos faz conviver com o sexo como quem convive com quadros e mais quadros que estampam “natureza morta”. Aliás, podemos dizer quase o mesmo que a respeito de questões de sobrevivência. Nossas sociedades possuem grupos suficientemente oprimidos para que não faltasse revoltas mensais ou semanais, mas não é o que ocorre.

Não tenho a intenção de jogar fora essa minha tese. Todavia, não posso desconsiderar a emergência de outras, em que o elemento sexo ou a energia libidinal não jogue um papel preponderante. Não estou pensando em deserotização da teoria, ou de uma desconflitualização de elementos históricos, mas de notar que a filosofia social, do modo que a faço, também pode aprender com uma perspectiva que passa ao largo da importância da libido ou de conflitos classistas ou semelhantes. Refiro-me aqui aos ingredientes trazidos pelos livros de Peter Sloterdijk.

O modelo teórico ligado a Hegel e Marx, que tem como elemento dinâmico central a “dialética do senhor e do escravo”, pode se casar – e assim ocorreu – com o modelo de Freud em que o dinamismo central é o confronto entre Eros e Thânatos. Esse casamento deu o modelo que se tornou hegemônico nos eventos que culminaram no Maio de 68, e que marcou todos nós, filósofos formados pelo vagalhão vivo daqueles tempos ou pelas marolas que se mantiveram ininterruptas depois. Peter Sloterdijk saiu do interior disso tudo, claro, mas já em clima crepuscular, diferente de nós, por aqui, alguns mais velhos e outros mais jovens que ele. O paradigma no qual trabalha pode muito bem dispensar a crítica de Foucault à “hipótese repressiva”, uma vez que de modo algum ele chegou a adotá-la.

Em seu livro Ira e tempo, Sloterdijk se indispõe claramente contra o modelo erótico. Ele acredita que seria interessante voltar aos gregos antigos não para recuperar Eros, mas para deixá-lo de lado mesmo, de uma vez por todas, e recuperar uma psicologia social e política de cunho timótico. Se o correto é evocar uma força grega como elemento da cultura ocidental, então que seja o ímpeto dado pelo thymos, não o jogo de querer, de domínio, de disputa que aparecer quando tudo é jogo erótico.

O thymos é a parte da alma platônica responsável pela coragem, aventura, irascibilidade. Com essas forças Platão quis não fazer o governo da cidade ou proporcionar o trabalho nela desenvolvido, mas sua guarda e cuidado. Os guardiões armados seriam os que, tendo o thymos desenvolvido, estariam aptos a ter orgulho de cuidar daquilo que tinham de cuidar, a cidade. Assim, estariam indiferentes ao querer e ao ciúme de eros, talvez envolvido com a filosofia que comanda a cidade ou com o apetites que estão junto da energia dos responsáveis pela produção. Trata-se sim de lidar com um impulso, uma energia, mas não erótica e também de não confronto, mas de aventura, orgulho do cuidado, dedicação.

Nos textos sobre subjetividade e no “projeto das esferas”, cujo primeiro volume, o Blasen, é sobre uma “arqueologia da intimidade” e, portanto, também um tijolo a mais em uma espécie de teoria da subjetividade, as formas de confronto social-econômico (Hegel-Marx) e as formas de confronto libinal (Freud) não têm vez. O fio condutor é, digamos assim, pouco conflituoso, e tem sua melhor expressão na noção de “ressonância”.

As esferas são sempre campos formados por ressonância entre no mínimo dois polos, e se constituem em um “dentro”, um espaço de interpenetração e fundamentalmente um lugar de auto-imunização. Tomada como elemento para pensarmos a subjetividade, a esfera nos mostra uma díade, um duplo, como base; mas não há aí uma interação simples entre dois elementos, e sim uma ou várias maneiras de interpenetração – que para ser notada requer a observação de várias formulações vindas de várias narrativas. Essas narrativas seguem a ressonância entre, por exemplo, o que será o feto e o que é a placenta até a ressonância existente na perichoresis da Santíssima Trindade. O comum entre essas narrativas é, sem dúvida, a ressonância como o que não abriga o confronto, que é típico da relação sujeito-objeto. Assim, a própria subjetividade é fruto de uma esfera em transição, que amplia seus polos ou os substitui, e isso não corresponde de modo algum aos modelos de intersubjetividade ou de interacionismo conhecidos. Esses modelos já conhecidos, aliás, se adaptam, antes, ao esquema da “dialética do senhor e do escravo” e ao “conflito entre Eros e Thânatos”.

Qual a vantagem desse paradigma criado por Sloterdijk? Há várias vantagens, mas destaco duas delas: uma que salta aos olhos é a de não ter de pressupor conflitos onde eles não existem e, além disso, a de poder descrever o que ocorre a partir da imanência, não da transcendência. No modelo sujeito-objeto ou nos modelos de intersubjetividade a descrição começa pelos polos, de modo que a própria atividade se perde. No modelo de Sloterdijk a atividade é o importante, ou descrevemos a ressonância ou não se está descrevendo coisa alguma. Não há que se procurar o que é o objeto, que transcende o sujeito, mas apenas o que é imanente do imanente – o que ocorre no campo observável. É como se quiséssemos evocar a práxis enquanto práxis, e não como uma atividade do sujeito em relação a outros sujeitos e objetos, onde antes de tudo o retrato do sujeito e o do objeto se impõe quase que aprioristicamente. Tem-se aí uma ontologia talvez mais rica, menos descontínua, quase que como uma espécie de cosmologia. Tem-se aí o que Sloterdijk às vezes chama de “uma teoria do meio”.

Os confrontos econômico-políticos e os da libido não ficam anulados nessa perspectiva. Mas se submetem a um quadro maior, mais amplo. Por exemplo: relações sexuais só são relações sexuais humanas, e não apenas luta num ringue qualquer, ou seja, interações que dependem de espaços surreais, onde o imaginário é fundamental, se todo um campo de intimidades já se fez antes. Falar da intimidade, então, não é falar de sexo, mas falar de sexo humano é, antes, necessário falar de intimidade.

O espaço do vivido é então o que a narrativa ontológica deve poder descrever. A vida é sua aventura narrada. Ou melhor, uma vida, não uma vida determinada, empírica, é o narrável e o que se pode deixar correr em uma ontologia de tipo sloterdijkiana.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015)

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3 Responses “Um novo paradigma em filosofia social”

  1. Adriano Apolinário da Silva
    12/07/2015 at 03:34

    Discussões de Facebook, geralmente politizadas, realmente ficam pobres depois dessas análises sloterdijkianas.

    • ghiraldelli
      12/07/2015 at 13:32

      O filósofo tem de funcionar com sonar, pega coisa pequena e grande.

  2. 10/07/2015 at 12:07

    Paulo,

    Provavelmente ainda não compreendi bem o conceito de esfera e ressonância no Sloterdjik. Vou começar a ler mais e participar dos hangouts para entender.

    Mas dentro dessa sua proposta poderia-se ver em Eros uma força propulsora de ressonâncias e construção de intimidade, no sentido em que você aponta que temos perdido nessa sociedade deserotizada?

    Tudo de bom!

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