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14/12/2017

Um mundo de gamers inteligentemente estúpidos


Atualmente no mundo há cerca de meio bilhão de pessoas gastando ao menos uma hora por dia em vídeo games ou coisa do tipo. Somente nos Estados Unidos são cento e oitenta e três milhões de pessoas nessa condição. Aos 21 anos um jovem americano, menina ou menino, já acumulou uma média de dez mil horas jogando. Isso é mais do que ele ou ela gastou na middle e na high school. Cinco milhões de jogadores nos Estados Unidos estão gastando atualmente mais do que uma jornada de quarenta horas por semana só dedicada aos games.

No Brasil não temos esses dados. Mas se eles são impressionantes na América, no Brasil já não devem estar longe disso. Isso porque a indústria que mais cresce no Brasil, e que não sabe o que é crise, é exatamente a indústria dos jogos eletrônicos, para PC e dispositivos móveis. O setor emprega quatro mil pessoas e fatura novecentos milhões por ano. Sessenta e um milhões de brasileiros têm o costume de brincar com jogos eletrônicos. Estima-se que exista oitenta e três milhões de usuários de Internet no Brasil. Acredita-se que 52% dos internautas brasileiros sejam usuários de games. Cerca de 58% deles jogam sozinhos. De todos os lançamentos disponíveis no Brasil, as modalidades de jogos preferidas são de ação/tiro (32,8%), aventura (26,9%) e futebol (17,4%).

O resultado disso é que o há menos tempo no mundo (e certamente no Brasil como ponta de lança) gasto com outros tipos de lazer e que, inclusive, há uma grande parte da população que invade o espaço de trabalho e estudo na utilização de jogos que, no limite, são para “passar o tempo”. Ou de modo mais assustador: “matar o tempo”.

Até pouco tempo os valores modernos e de uma sociedade democrática liberal de base Humanista tinha o tempo como algo a ser ganho. Vários filósofos chegaram a definir a vida humana como a melhor organização e utilização do tempo (Olgária Matos à frente, entre nós). Não é muito assim que a pessoais atuais, principalmente, pensam que é a vida. Eles não titubeiam em entrar numa atividade que as tire da vida real, que sufoque rapidamente o tempo e que, inclusive, não lhe dê nada em troca em termos de desenvolvimento de suas potencialidades a não ser a de voltar ao jogo e jogar melhor. Jogar melhor significa atingir metas do game que nada significam senão voltar depois e atingir mais metas.

É preciso para viver estar morto. Ou seja, a vida se define pelo lazer em que a leitura, a família, os laços afetivos, o desenvolvimento da capacidade de observação e admiração perdem para o trabalho da atividade aparentemente inteligente, mas que nada é senão uma forma de repetição. Assim, entramos para uma fase da modernidade em que o problema da coisificação não se verifica no trabalho, mas pelo trabalho. Um tipo de trabalho nos criou para termos o tipo de férias ou lazer que temos. E o lazer que temos é mais pobre que o trabalho que temos – invertendo então a lógica que os teóricos do capitalismo e do anti-capitalismo previam até pouco tempo. Adeus ao crítico, pescador, caçador e artista do comunismo de Marx! Estamos mesmo é para “o especialista sem inteligência e o hedonista sem coração” de Max Weber, ainda na modernidade capitalista. Todavia, com uma diferença: o especialista nesse caso não é só sem inteligência, ele é especialista num apertar botões do lazer! Lazer que faz o mesmo do trabalho!

Teremos então uma humanidade mais burra é menos afetiva? De certo modo sim. Mas, por outro lado, como o trabalho imitará o lazer e, portanto, os jogos eletrônicos, essa humanidade entrará no trabalho até mais treinada, e parecerá mais inteligente porque será mais eficiente.

É inevitável? Sim, se tudo seguir nessa ordem, sem nenhum meteoro cósmico ou social imprevisto. E até na filosofia que seria a antítese disso já aparecem os sintomas. Idiotas que fazem stand up posam de filósofos por aí em “Casas do Saber” – o próprio nome disso já é uma piada de game! Pessoas que cultivam a falta de generosidade e desprezam a utopia são consultores filósofos, traindo a própria filosofia. Só que elas não são só gamers, nesse caso elas se parecem, inclusive, com os personagens internos dos games. Talvez possam morrer já e deixar seus ícones e avatares por aí funcionando. Quem sabe já não estejam mortas?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez).

PS: Sinto decepcionar os que acham que estou desaprovando games. Não estou. Fiquem tranquilos, podem jogar. Meu texto não é sobre games, é sobre entretenimento. Sobre como nossa sociedade igualou os mecanismos mentais de lazer e trabalho, e como nosso tempo é sequestrado por essa monopolização afazeres de uma certa ditadura invisível. (Gostaria de não ter de explicar isso num post scriptum!).

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19 Responses “Um mundo de gamers inteligentemente estúpidos”

  1. Henrique Eustáquio Pinto
    29/07/2015 at 14:35

    Não concordo com praticamente nada do que você diz e prega, e acho que é um direito meu assim como seu também, mas vamos aos fatos: O mercado de games no Brasil vive em uma crise constante, claro que ele cresce muito, mas não o bastante para se dizer que está fora da crise, prova disso é a relutância das empresas Sony e Microsoft investirem de verdade no Brasil, fazem sempre investimentos muito cautelosos. Dá pra dizer sem uma pesquisa profunda que 70% dos gamers consomem games piratas e compram seus consoles em “varejos duvidosos”, afinal, pouca gente tem dinheiro para pagar mais de R$150,00 no ultimo “Mortal Kombat” sendo que o encontra por R$35,00 em qualquer esquina,e muito menos R$4.000,00 em um Playstation 4, exemplo disso é a Nintendo que abandonou oficialmente o mercado brasileiro. E sem um hardware muito elaborado, qualquer um com um gravador de DVD’s básico e alguns minutos no google consegue copiar qualquer jogo de Xbox360. Outro ponto é que, você provavelmente não conhece os grandes títulos, por exemplo, você conhece a franquia “Assassins Creed” onde você encarna um assassino através de várias épocas diferentes, e onde cada jogo é uma verdadeira visita virtual à cidades como Roma, Constantinopla, Paris e no mais recente uma Londres em plena revolução industrial? Já ouviu falar de “Metal Gear Solid” uma franquia que tem uma trama super elaborada em um mundo pós-guerra fria e onde começam a aparecer soldados de exércitos privados? Conhece o clássico “Final Fantasy VII” que é uma história sensacional de um grupo de jovens lutando para preservar a principal fonte de energia do planeta contra a exploração de uma grande corporação? Concordo com você que, uma parcela enorme de jogos são produzidos para jogos multiplayers onde o objetivo realmente é se tornar melhor “num apertar de botões” sem nenhum tipo de conteúdo a mais, mas generalizar isso é um erro! Vários games são feitos com o mesmo capricho de um filme, dando muita importância à história contada, à experiência de se elaborar uma estratégia, às músicas que compõem a trilha sonora. Veja jogos de estratégia por exemplo, eu não acho que um jogo onde eu possa traçar a melhor forma de atingir um objetivo seja uma “diversão burra”. Já foi provado cientificamente que a prática de games melhoram as capacidades cognitivas, ( http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/02/1413746-jogos-melhoram-habilidades-cognitivas-e-ajudam-a-tratar-visao.shtml ) e por experiência própria, podem aumentar demais as interações sociais, pois eu mesmo fiz vários amigos trocando games, conversando a respeito e, claro, jogando. Existem jogos bons, ruins, fúteis, intelectuais, assim como no cinema, na literatura ou qualquer outro tipo de mídia, existem obras primas, obras boas e em sua maioria outras ruins e talvez até dispensáveis

    • ghiraldelli
      30/07/2015 at 19:04

      Caro Pinto, tudo que você escreveu NADA tem a ver com meu texto. Acho que você está jogando muito videogame. Não consegue mais entender um texto simples.

    • Nany Costa
      20/11/2015 at 14:14

      Ótimo texto. Não desvalorizou os jogos eletrônicos e deixou mais que claro que: a globalização que envolve todos os meios de tecnologia que estão sendo usados por todos nós, vem tornando os jovens( não só eles, mas também,os que seguem o exemplo) seres humanos desligados,incapazes de enxergar a inteligência dentro dos valores idealizados. ”Ser inteligente é ser eficiente”.

  2. Felipe Lara
    25/07/2015 at 08:45

    Como você mesmo disse, a ontologia atual é facebookiana. Dessa forma, podemos escolher com quem nos relacionamos. Certo de que essa relação pode, e comumeiramente, é volátil, a questão seria a forma como vamos faze-la. Ou não?

  3. Person Ventura
    14/07/2015 at 14:44

    Não é um pouco radical dizer que essa “evolução” é burra? Com certeza, em vários momentos da humanidade pesquisadores, cientistas e filósofo criticassem um modo de lazer dizendo que destruiria nosso futuro. Tento ser um pouco mais positivo, mesmo concordando em grande parte do texto, acredito que não é o fim, pois mesmo tendo milhões de alienados, sempre vai ter alguém que possa fazer a diferença. Existem jogos que estimula e ajuda crianças e adolescentes a se desenvolverem. Se pensar bem, de acordo com sua forma de ver, já estamos em uma geração inteligentemente burra.

    • ghiraldelli
      15/07/2015 at 11:00

      Person não consegui ser entendido neste texto. Confesso que o erro foi meu. Vou escrever outro. O ponto do texto é o mecanismo do game e o mecanismo do trabalho, que se tornam binários, “burros” e se igualam.

  4. Lobo Czarniano
    14/07/2015 at 14:16

    creio eu haver um equivoco sobre esse tema.usamos os games para nos distrairmos do mundo tanto quanto voces usam as redes sociais para o mesmo.prefiro passar quarenta horas semanais em frente a tv,do que correndo o risco de ser assaltado e até mesmo morto na rua…como o colega disse em um comentario,não,não ficamos burros jogando games,e sim ao contrario.pesquisas indicam uma melhora no nivel cerebral de quem joga video games…e sobre o fato da vida social,quem passa até tres horas na frente da tv pode e tem vida social sim,comum,nao somos monstros e nem ”estranhos”…tenho emprego,amigos,filho,namorada e tudo como uma pessoa normal…creio que voces estejam um tanto quanto desinformados a respeito dos gamers…

    • ghiraldelli
      15/07/2015 at 11:03

      Lobo confesso que errei. Meu texto não deixou claro seu propósito. Veja a resposta que dei a outros. Vou escrever outro texto para deixar claro meu ponto.

  5. claudio dionisi
    13/07/2015 at 15:08

    Paulo, a coisa esta muito séria mesmo. No Brasil, imagino ser ainda pior. Aqui os pais nem sabem, e quando sabem não fazem nada. Crianças de 11 anos passando 8 horas diárias em um jogo. Muitos viverão esta rotina até a velhice!!!! Jovens gastando suas férias inteiramente em um jogo online. As pessoas estão optando por uma vida virtual, ignorando totalmente a realidade. Sem exercício, sem leitura, sem convívio real!

    Muitos jovens entre 20 e 30 anos já trabalham somente para sustentar uma vida virtual em um jogo RPG online. Tudo isso com uma imersão superficial composta por mouse/teclado/monitor. Imagine quando estiverem submersos em uma realidade virtual, usando óculos 3D, fazendo movimentos físicos similares e quem sabe ainda usando drogas feitas para este fim!?!

    Daqui a pouco viveremos o pesadelo de Matrix, mas sem nenhum robô nos forçando a isso. Faremos por opção.

  6. José Silva
    13/07/2015 at 12:57

    “Teremos então uma humanidade mais burra e menos afetiva? De certo modo sim.” Sensacional isso que você falou. É muito fácil perceber jovens que passam dias inteiros no vídeo game, quando estão em um roda de conversa ou interagindo com outra pessoa. Geralmente, são seres travados, que não conseguem ter nenhum tipo de relação afetiva com outros indivíduos. Mesmo em relação às amizades, elas são restritas aos espaços que cultivem o vídeo game em detrimento de uma conversa “tete-a-tete”.
    Posso estar exagerando, mas em alguns casos mais latentes, os sujeitos se assemelham à autistas.

  7. Samuel Sales
    13/07/2015 at 07:23

    Concordo plenamente. Tenho 23 anos e vivi esta geração de jogadores compulsivos e hoje sinto os malefícios que isso proporciona do ponto de vista neurológico. Perceba a quantidade de ansiolíticos que esta geração velocidade consome, devido às cargas exageradas de liberação de dopamina e da rapida resposta de recompensa e fragmentação do recurso da atenção. Perceba o resultado nos diagnósticos antecipados de hiperatividade e déficit de atenção nas crianças que tem seus cérebros bombardeados pela fragmentação do multitarefa que as máquinas causam. Os sul Coreanos tem o maior mercado consumidor de jogos e internet em termos de hábito populacional e, já possuem estudos comprovando os males neurológicos e inclusive clínicas de desintoxicação digital. E por aqui no Brasil existe esse mito de que jogos só beneficiam o cérebro.

  8. Bruno Gonçalves
    13/07/2015 at 04:19

    Jogos online forçam a convivência de por exemplo crentes, ateus, satanistas ou simples bufões (aqueles que se divertem em apontar de forma grotesca os vícios e as características da sociedade). É um campo de observação/interação antropológica riquíssimo! Paulo Ghiraldelli! Bora jogar League of Legends!

  9. Marlin Rose Jones
    12/07/2015 at 23:43

    Ok, mas alguns jogos trazem boas historias e ensinamentos. N sao tds baseados em “competiçao” do tipo de ter q melhorar a tecnica e tal, Por ex os rpgs, em q mtos se precisa da interpretação da historia pra avançar.
    D qlqer forma, bom texto ^^

    • ghiraldelli
      13/07/2015 at 00:46

      Marlin eu já previa um texto de resposta igual ao seu .Mas, sinceramente, esse tipo de resposta não dá vontade falar nada.

    • Matheus Kortz
      13/07/2015 at 08:56

      Acho que a questão não é exatamente essa, não é uma avaliação a cerca dosn jogos, mas a observação sobre um fenômeno cultural e social. Existem jogos lúdicos, onde se pode aprender algo, jogos de azar, onde a experiência anterior nunca implica em sabedoria e agora os jogos eletrônicos que mais se assemelham aos de azar, porque a “sabedoria” apreendida só serve ao mundo ficcional e virtual.do proprio jogo… eu já joguei alguns rpgs ótimos, e God of War então que nos faz aprender algo sobre mitologia grega (lógico que numa versão completamente americana/moderna), mas é necessário entender que é um entretenimento e que nem é o único, e menos o de melhor qualidade.

    • Miguel Alves Siqueira
      13/07/2015 at 18:02

      Mesmo não concordando com esse texto, cite me três jogos.

  10. Marcelo
    12/07/2015 at 23:40

    Olhe, eu prefiro mil vezes perder tempo me masturbando num site pornô tipo xvideos a perder tempo com jogos

    • Hayek
      16/07/2015 at 13:26

      Oh, nossa, quanta inteligência fera!

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