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25/07/2017

Um intelectual conservador sofre muito


Estou longe de dizer que rico sofre. O que digo é que um conservador sofre. Não um conservadoraristocrataqualquer, mas aquele que quer se manter conservador como intelectual. É que o mundo – Nietzsche bem disse – não está nem um pouco caminhando para o conservadorismo. Mesmo que a direita ganhe todas as eleições na maioria dos países, o mundo dos conservadores já acabou. Defendê-lo é um sofrimento atroz.

Dois elementos tiram o sono do intelectual conservador. O primeiro é a maneira como o Ocidente dominou o mundo e impôs a democracia não só como forma de governo, mas como valor. O segundo é como que, já antes mesmo da democracia, o cristianismo se tornou uma religião importante e passou a influenciar todas as outras. Esses dois elementos criaram o que chamamos de modernidade, e nesta, os valores aristocráticos, nobres, foram perdendo espaço até chegarmos aqui, onde estamos.

Ainda que neste mundo os mais ricos estejam cada vez mais ricos e exista uma massa enorme que nada possui de bens materiais e que, agora, também já não tem mais nada para cultivar do ponto de vista espiritual, o nosso mundo é “o mundo de todos”. Não importa se a democracia funciona bem ou mal, “o mundo de todos” não tem como não ser o mundo da democracia. Todos querem decidir sobre tudo, até mesmo sobre questões técnicas! A votação para tudo se instaurou como regra: os estudantes querem votar de modo a decidir o que aprender e os filhos querem votar e decidir quem será o namorado que vão aceitar para a mãe viúva. Do modo que caminhamos, logo teremos votação dentro dos aviões, para escolhermos o piloto. E tudo isso sem nos perguntarmos se há conhecimentos técnicos envolvidos em cada uma dessas questões. Há algo de muito bom nisso, às vezes. Mas só às vezes.

Ainda que nesse mundo cada um tenha lá sua religião e exista um número incontável de igrejas, seitas, grupos, confrarias e crenças de todo tipo, o cristianismo se tornou uma religião de comando moral muito forte. Por mais que o cristianismo esteja preso às hierarquias de igrejas, principalmente a Igreja Católica, e isso implique em uma facilidade dele se relacionar antes com os mais ricos que com os mais pobres, ele é a religião universal de um sentimento de tipo democrático: o amor. Ora, a honra e a glória são elementos da moral nobre, da vida aristocrática, não o amor. O amor cristão, de irmanação, de bondade, de solicitude e de solidariedade implica na vida moderna. Na modernidade as relações não podem ser relações hierárquicas em que o “pathos da distância”, a que Nietzsche alude, se verifique. Não, há de se ter interesse pelo outro que é considerado um irmão. E esse interesse se faz mais forte pelo laço do amor, da fraternidade. Há algo de bom nisso, às vezes.

Nos dois casos, no espraiamento da democracia e na transformação do amor como imperativo, dentro do possível é claro, estabelece-se um mundo que nada tem de valores aristocráticos e nobres. O autêntico conservador não tem espaço nesse mundo. O conservador não tem espaço porque nesse mundo moderno não podemos conservar as coisas. A democracia é dinâmica. O amor cristão é dinâmico. Ambos são forças que fazem a história andar, criam mudanças, e então forçam qualquer conservador, principalmente aquele que possui um pé no campo aristocrático, a fazer coisas que ele não quer. O intelectual conservador, então, que precisa sempre lembrar o quanto valores não democrático e valores que não são o do amor são importantes, sofre demais. Ninguém o entende. E pior, quem o entende é frívolo, nem sempre sabe do que ele está falando. Ou às vezes não é frívolo mas é apenas uma escroto de direita que o toma como um guru mais sofisticado que os gurus brutalizados do fascismo. Tudo isso o faz amargurado, pois ele não pode mudar; no seu sangue corre um sangue de antes dos sangues serem todos da mesma cor.

O conservador diz que as hierarquias são necessárias. As pessoas riem. O conservador diz que o amor atrapalha e que devemos agir antes racionalmente que emocionalmente. Ora, as pessoas o tomam como alguém que prega o ódio. O conservador é visto, então, não só como deslocado, mas como uma espécie de demônio, de diabo velho. É

Volto a dizer, não estou falando aqui da direita e da esquerda, ainda que existam relações entre o que digo e a política. Estou falando do intelectual conservador, daquele que vê na democracia a igualação de todos no nível da plebe e da profusão de uma cultura padrão medíocre. Estou falando do intelectual conservador, daquele que não entende laços de amor e, quando entende, acha tudo isso uma hipocrisia, um romantismo ingênuo que presta um desserviço à vida racional. Afinal, o conservador sempre acreditou na razão, e agora acaba tendo de conviver com uma razão que não é o Logos, Deus, mas a razão científica. Mas, na falta de algo melhor, ele faz a apologia da ciência – uma ciência estática, quase que imitando uma religião velha.

Esse intelectual sofre porque ele odeia a democracia e, no entanto, ele só pode viver, nos tempos atuais, em uma democracia liberal, onde ele tem de se situar no lado liberal conservador. Esse intelectual sofre porque ele é cristão, como todo mundo (ou quase), mas essa religião é a religião do amor e o amor é um sentimento degradante para ele. É um sentimento incompatível com o “pathos da distância”.

Por tudo isso, sinceramente, eu vejo o intelectual conservador como alguém que vive amargurado nesse mundo. Não à toa ele opta por filosofias que possam representar socialmente essa sua angústia, essa sua tentativa de se manter blasé, essa sua disponibilidade para viajar, tentar sair do mundo. Eu compreendo como ninguém o sofrimento do conservador. Mas eu também me irrito com ele. Pois às vezes ele não é culto e benévolo, ele é mesquinho, sorrateiro, magoado, ressentido. Ele já foi ganho por tudo que é degradante no mundo do democrata e cristão. Aí, ele perde o charme. Deixa de ser um filósofo liberal conservador para ser um jornalista nem mais liberal, apenas conservador e ranheta – um apelão. Na pele dessa figura, ele não tem nenhuma graça.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

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34 Responses “Um intelectual conservador sofre muito”

  1. Rafael
    13/11/2013 at 21:17

    Paulo, quais são os principais intelectuais conservadores da atualidade?

    • 13/11/2013 at 22:58

      Olha, os conservadores políticos são mais difíceis de se darem bem com a filosofia. A filosofia exige criticidade e eles possuem uma dificuldade imensa com isso. Aderem à propaganda com muita facilidade. O britânico Roger Scruton é bom, ele procura escapar de toda a maneira da propaganda. Infelizmente a Veja fez uma péssima entrevista com ele aqui no Brasil, transformando-o em um cara que dizia só o que a revista queria ouvir.

  2. Felipe Franco
    12/11/2013 at 02:39

    As pessoas comentam coisas que não tem nada a ver! calem a boca e vão ler outras coisas (tititi) ficam fazendo referências com o que nem é referente ao tema e comparando foto. Querem ler filosofia mas ficam ofendidos.

    • 12/11/2013 at 15:37

      Felipe, você me consola. É verdade isso. Chato né. Eu escrevo com vontade colaborar com o leitor e aí vejo alguns comentários de gente tão tristemente perdida.

  3. Dona Lêda
    06/11/2013 at 15:38

    Paulo, vc não é daqueles que acreditam que houve dissidentes suficientes para resguardar o país de uma ditadura comunista na década de sessenta, né? A viagem de Jango à China, condecoração de Che, Cuba… O argumento dos conservadores para justificar o golpe de 64 entre outros, é esse.
    Se vc não acredita nessa versão, me responda onde posso encontrar artigos desmentindo esse hoax que venderam para o público que até hoje ecoam por aí. Mas se vc acredita, desconsidere o meu post.

    • 06/11/2013 at 16:58

      Dona Lêda, Jango nunca foi comunista. Eu sei história. Sou uma pessoa culta. Além do mais, não sou jovem. E depois, meu artigo nada tem a ver com isso e creio que você não o entendeu.

    • gustavo leite
      18/05/2014 at 10:07

      Quem condecorou Che Guevara foi Jânio Quadros, – político conservador – não Jango.

  4. Robson de Moura
    01/11/2013 at 17:54

    Valeu por mais essa, Paulo.

  5. Robson de Moura
    01/11/2013 at 02:33

    Gostaria de pegar um caminho que sai um pouco do texto, Paulo. Depois de ler esse trecho de frase “Ora, a honra e a glória são elementos da moral nobre, da vida aristocrática”, me ocorreu te perguntar se esses dois, honra e glória, não se acomodam em algum lugar na modernidade (amor). Pode ser que você diga que não. Mas se disser que sim, mesmo que seja um sim parco, do tipo “sim, mas não leve muito à sério”, eu ainda gostaria de saber de ti onde essa acomodação ensaiou se dar (em algum autor, filósofo ou romancista? Alguma cultura particular?). Muito grato Paulo.

    • 01/11/2013 at 09:04

      Essas honras são ligadas às classes e ao ethos. Honra e glória são próprias de sociedades com hierarquias e com ethos que não cabem na vida democratizada. Os historiadores trabalharam bem esse tema. Creio que entre os filósofos, Renato Janine explicou isso com valor didático e com clareza. Norbert Elias também.

  6. Mario Luis
    28/10/2013 at 00:36

    Certamente, e eu o respeito muito. Gostaria de comentar seu texto, corroborando com ele. Me veio um pensamento à mente, de que esses conceitos – liberal e conservador – guardam correspondências cujas expressões se tornaram anacrônicas à luz de uma crítica pautada por um novo pensar. Esse novo pensar produz uma via de acesso à compreensão do atual. Sim, claro, vemos a democracia como um valor no mundo. Entetanto, ela mesma sofre os efeitos da homogeneização pós-moderna…

    • 28/10/2013 at 01:51

      Mario, não são anacrônicos, eles funcionam igualzinho nasceram no meu texto.

  7. Mario Luis
    27/10/2013 at 23:37

    Respeito seu ponto de vista, mas permita-me expor o meu. Bauman alerta quanto à maneira homogeneizante do pensar pós-moderno, em particular quanto à vida administrada. Dentro desse aspecto, a vida centrada no indivíduo, na tentativa de adequar-se às imposições próprias da sociedade de consumo, não raro, expõe uma lida um tanto conservadora quando o assunto é “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Se se trata de antinomias, em algum momento, o liberal escapa de seu próprio conceito e o engendra nos limes do conservadorismo.

    • 27/10/2013 at 23:53

      Mário Luis, o problema é que eu tenho 56 anos e uma boa formação Mário. Eu já li muita coisa.

  8. Mario Luis
    27/10/2013 at 11:51

    Bem, tentando comentar o texto – que é o que interessa- valho-me das referências sociológicas de Bauman. Reli o texto e compreendo sua assertiva.

    • 27/10/2013 at 13:08

      Bem, acho que o Bauman meio fraco. Ele é um repeteco do marxismo cultura, sem qualquer criatividade. Acho que você entendeu apenas porque releu.

  9. Rafael
    27/10/2013 at 00:37

    Acho o Paulo parecido com o Foucault,mas por que ele gosta mesmo é de uma piroca grande.

    • 27/10/2013 at 00:56

      Rafael, vou deixar seu comentário aí para que meu leitor perceba que gente como você faz parte daquele povo que é a ralé, o restolho, são as pessoas que acham que aludir a qualquer coisa que tem a ver com homossexualismo pode ofender. Em pleno século XXI. Cara, o meu leitor é um cara inteligente, ele lê esse seu comentário e já percebe que você é incapaz, é o cara que vem aqui e fica com raiva por não entender os textos. Tadinho.

  10. Maria Madalena
    25/10/2013 at 15:08

    O que acha da Sarah Palin? Ela será a candidata dos Republicanos à presidência contra a Hillary, né?

    • 25/10/2013 at 15:40

      Maria, tadinha da Sarah, ela não bate bem da cabecinha. Ela não é uma conservadora. Ela é uma daquelas coisas que a natureza nega que teve responsabilidade.

  11. Cibela Pires
    25/10/2013 at 05:30

    O Paulo na foto é o Foucault depois de comer um boi.

    • 25/10/2013 at 11:09

      Cibele, você não conhece nem a mim e nem o Foucault, nessa foto minha, comparada com a do Foucault com a mão na cabeça, ela estava mais de dez quilos a mais que eu. É gozado como as pessoas que erram em foto tem uma dificuldade com textos. É a falta de atenção mesmo, o sujeito não consegue focar.

  12. Mario Luis
    24/10/2013 at 23:02

    Mas dinâmica constituinte da democracia pode, em algum momento, reaver posições conservadoras…

    • 25/10/2013 at 02:20

      Mario Luis, se você ler meu texto mais uma vez, você verá que não. Não dentro dessa lógica. E olhe que eu cansei de falar, não se trata de direita e esquerda. Você tem alguma noção de sociologia, por exemplo, a maneira como a sociologia fala da modernidade? Isso ajuda.

  13. Marcos Nicolini
    24/10/2013 at 17:08

    Paulo,

    Duas coisas: primeiro, pena que vc tenha endereçado este texto apenas a nós, seus leitores habituais entendendo que é um texto frio, mesmo não sendo “caliente”. Segundo, concordo contigo que a oposição direita e esquerda tem suas limitações e que a relação conservador e liberal nos permite uma perspectiva menos burocrática e mais dinâmica. Acho mesmo, contigo, que estes conservadores-cristãos, vivem um pesadelo entre o ágape e o fundamentalismo.

    • 25/10/2013 at 02:23

      Estou pensando no conservador sociologicamente falando, no não burguês. No intelectual que se irrita com a modernidade porque ele perdeu seu mundo aristocrático. Alguém que herdou as atividades de caça da raposa junto com o rei etc.

  14. Rick
    24/10/2013 at 13:24

    Paulo, na foto, vc está parecendo o Michael Foucault com 10Kg a mais. rs

    • 24/10/2013 at 16:36

      Peso dez a menos que Foucault pesava e não estou nada parecido com Foucault. Acho que agora entendi sua dificuldade com os textos.

  15. MARCELO CIOTI
    24/10/2013 at 11:36

    Paulo,o Brasil é um país muito conservador.A maioria da população é
    a favor da Rota na rua,da redução da maioridade penal,contra o aborto,
    contra a união civil gay,etc.Então,alguns destes intelectuais vão
    atrás destas pessoas que são contra tudo isso pra ter ibope.Mas eu
    considero o Pondé como o melhor filósofo conservador do Brasil.

    • 24/10/2013 at 16:39

      Marcelo, você está mais que errado. E ser conservador não se define só por questões pontuais e conjunturais, ainda mais em um país com uma democracia tão nova. Agora, sobre o Pondé, talvez ele seja, atualmente, o único intelectual que se diz de direita que tenha uma formação que lhe permite ser criativo. Mas eu ainda acho que a filosofia não tem a ver com a política senão como ad hoc. Por isso, a filosofia, mesmo a filosofia social, é independente de posições políticas. Quem as atrela a priori a posições políticas, acaba deixando a filosofia manca.

  16. Allan
    24/10/2013 at 08:32

    Paulo parece que seu texto tem um destinatário específico. Olavo não pode ser pq apesar de se dizer jornalista e filósofo ele não é nenhum dos dois devido à falta de diploma, mesmo sendo apelão… E também ele não é nenhum pouco sofisticado, ta mais pra bruto fascista. Então seria o Pondé?

    • 24/10/2013 at 16:41

      Allan, para falar a verdade o Olavo não é nada, é um maluco. Agora, eu realmente não pensei em ninguém especificamente. Eu pensei no trabalho que ao longo dos anos os filósofos conservadores foram fazendo, e que Nietzsche mapeou como ninguém na sua teoria do niilismo.

  17. Rick
    24/10/2013 at 06:35

    Paulo, como você vê a “guerra ao terror”? Em nome disto os EUA criaram um monstrengo que realiza sistematicamente tortura de prisioneiros, julga presos em tribunais de exceção, pratica alimentação forçada destes quando entram em greve de fome, desaparece com pessoas, etc. Como você analisa essa nova fase em que a “América” se encontra?

    • 24/10/2013 at 16:48

      Muita gente já escreveu sobre isso, até mesmo Dewey! Já no tempo dele as coisas começaram a ficar duras. Dewey enfrentou vários governos americanos. Quando Rorty morreu, ele estava em guerra contra Bush. Obama prometeu o que não pode cumprir, que é desmantelar o estado dentro do estado, ou seja, o aparato bélico-industrial que faz dos Estados Unidos antes uma plutocracia que uma democracia (mas não sempre!). A população o apoia. Mas a briga é duríssima, e olhe que ele vem de dentro de um setor da elite. Ele é harvardiano e altamente conciliador. Os Estados Unidos são a “América” (o sonho) mas são os Estados Unidos (o aparato industrial militar) também. O médico e o monstro. Roma também foi assim quando foi a capital do mundo.

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