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23/11/2017

Tudo é uma questão de ponto de vista, mas sem banalidade.


Falamos das coisas como divididas entre “características intrínsecas” e “características meramente relacionais”. Ou seja, há atributos de algo que avaliamos como pertencentes à própria coisa, que não podem mudar, e há atributos desse algo que são mutáveis, segundo nossa visão ou posição histórica ou geográfica, e que portanto podem mudar sem que o algo analisado se desconfigure por completo. Nesse modo de agir e falar, somos herdeiros da metafísica essencialista dos gregos, particularmente de Aristóteles. Nosso próprio dicionário assim estabelece e nossos professores nos ensinam assim.

Um exemplo: tome os dinossauros. Os dinossauros são ovíparos – assim estão definidos, de modo a serem dinossauros. Agora, por esses dias, há descobertas que dizem que eles são, também (e diferente do que se pensava) possuidores de penas (senão todos, ao menos alguns). Assim, dizemos que ser ovíparo é algo intrínseco ao dinossauro, mas que possuir penas ou não, é uma característica meramente relacional, depende de nosso conhecimento e de nossa visão atual sobre dinossauros. Há aí algo essencial do dinossauro, ser ovíparo, e há o que é dependente de nossa visão de momento, ter penas. Assim, ser ovíparo é alguma coisa do âmbito causal – um dinossauro causa seus ovos – e ser portador de penas é algo representacional – nós representamos um dinossauro com penas ou sem penas. Uma causa (ter ovos), indicaria um saber não relativo, enquanto uma representação (ter penas), indicaria um saber relativo. Causa não dependeria de descrição, penas seria algo de uma descrição. Assim pensamos, segundo nosso mestre estagirita que veio morar em Atenas para frequentar a escola de Platão.

Mas nossa filosofia contemporânea pensa diferente do senso comum essencialista, educado pela cultura grega (reconfirmada pela cultura cristã).

O que Donald Davidson nos ensinou, e que ganhou também Richard Rorty, é que em ambos os casos podemos falar em causa e em ambos os casos falamos em descrições. O que chamamos de intrínseco são relações-causais-sob-uma-descrição considerando uma coisa, os ovos; e o que chamamos de relativo a nós, ou seja, ao saber que muda, o de ter penas ou não, são também descrições-causais-sob-uma-descrição. Descrevemos dinossauros como ovíparos, descrevemos dinossauros com penas, ou não. Em ambos os casos são descrições, em ambos os casos temos causas, o que muda é a referência da causa e do efeito. Na descrição do dinossauro ovíparo, ele é causa de ovos, na descrição do dinossauro com penas, ele não é a causa das penas, mas nosso atual estágio de conhecimento. Você pode dizer, então: mas se um dia viermos a dizer que os ovos que encontramos como fósseis não eram dos animais que atribuímos? Ora, aí então também a descrição quanto a ovos terá como ponto de chegada não ovos, mas nós, os observadores (e nesse caso talvez nem tenhamos mais como falar de dinossauros).

Tudo está sob uma descrição. E as descrições de situações sempre causais. Algumas descrições de causalidades nos parecerão menos mutáveis, outras descrições de causalidades nos parecerão mais mutáveis. Ou seja, com a filosofia de Donald Davidson podemos dispensar a ideia de distinção forte entre intrínseco-não-relacional (nuclear, essencial) e extrínseco-relacional (periférico, não essencial, “meramente interpretativo”). Desfazemo-nos da ideia de peças no mundo montadas a partir de duas partes bem distintas e de origem diferente, uma que é o essencial imutável no centro e outra que é o periférico mutável. Uma dada em si mesma e outra dada por representação ou interpretação ou descrição de quem vê. Todo essencialismo cai por terra. O que é essencial é apenas aquilo que nos parece menos fácil de ser alterável no momento. Redefinimos então a palavra essencial. Assim, desaparece também a diferença entre o não-linguístico e o linguístico. O primeiro seria o essencial, o das próprias coisas, o outro seria o que vem segundo uma visão, uma descrição. Ora, nesse caso, não mais. Nos dois casos temos descrição e, portanto, o linguístico. E nos dois casos manteríamos a visão da relação causal.  Causa e representação não precisariam mais se indispor.

Assim, com Davidson e Rorty damos um salto para fora do campo de Aristóteles. Também deixaríamos de lado Kant – não faria qualquer sentido coisa-em-si e coisa-para-nós. Bebemos um cerveja com Wittgenstein.

A própria noção de verdade por correspondência, sempre problemática, também deixaria de existir. Não teríamos mais que ficar falando segundo a tautologia: “um enunciado é verdadeiro se e somente se corresponde ao fato, sendo que fato é o que corresponde ao enunciado e é dado por ele”. Nossa visão primeira de verdade é esta. Nós a utilizamos a contento. Mas, no âmbito do rigor filosófico, ela é tautológica, não explica nada. Com Davidson, não temos mais que nos preocupar com isso. Toda a verdade passa a ser interna à linguagem, sempre uma questão de coerência. Correspondência sim, mas como uma forma de coerência, pois tudo estaria no interior da linguagem. Ou melhor, não havia exterior à linguagem.

Paulo Ghiraldelli , 59, filósofo. São Paulo, 26/12/2016

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