Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

“Tudo é político”, diz o passadista cabeçudo


Quando presidia o PT, o inteligente cientista político Francisco Weffort insistia em dizer que muitas forças do partido eram socialistas em um sentido pré-moderno do termo. Hoje em dia isso não está mais restrito ao PT, espraiou-se pela nossa sociedade, mas sem o adjetivo socialista. Principalmente agora que tantos os conservadores liberais quanto a direita mais frenética passaram a ter público. O mais engraçado é ver filósofo metido nisso.

O porta-voz das saudades do que não é moderno, e que nunca foi vivido por quem está vivo hoje, é aquele que politiza tudo. Trata-se daquele que busca “unidade no mundo”. Que uma concepção só que possa dar sentido e coerência ao que ele toma com a balbúrdia do “cada cabeça uma sentença”. Ou são aqueles que odeiam minorias exatamente à medida que elas podem trazer diversidade. Ou então os que acham que há visões demais na democracia, e que isso emperra tudo. Sem contar os que abertamente vivem se fazendo de blasés, justamente porque não têm coragem de dizer que são passadistas, que gostariam de viver no mundo que Weber chamou de pré-moderno. Pois o mundo moderno de Weber é aquele da “separação das esferas de valor”.

A modernidade que Weber descreve é aquela em que a capa jogada pela religião sobre o mundo se esfacelou. Trata-se do mundo em que a história chegou ao fim porque a arte, a moral, as ciências chegaram ao fim.  A arte não existe mais, pois os santos não mais são o objeto dos artistas plásticos. A moral não existe mais, porque passa a depender de indivíduos, não mais da igreja. A ciência não existe mais, porque a experimentação faz da nova ciência uma prática autônoma. Esse mundo de diversidade, o moderno, não admite nenhuma concepção de mundo capaz de fazer nossa vida voltar a ser coberto por um manto unificador e capaz de dar sentido e demanda para tudo.

Deveríamos nos acostumar a conviver com o moderno, tentando criar a partir dele, não do passado que passou. Estamos nisso faz no mínimo trezentos anos. A ciência caminha por si mesma, ainda que alguns achem que ela caminha por força do dinheiro. A moral caminha por si mesmo, embora alguns a confunda com a ética e ande dizendo por aí que ela tem ainda dono. A arte faz o que quer e o que não quer. Nisso tudo, cada pessoa acaba se criando como o personagem que deseja, ou que nem deseja, mas que vem de uma demanda que é “a moda”, que na verdade não é nada e é tudo. O desespero de encontrar um horizonte de sentidos ataca os passadistas, e então eles querem colocar nas costas da política a capa que foi a religião.

Como fazem isso? Simples: decretam que a politização é um saber e uma virtude. Então, tudo deve voltar a desmentir a separação, independência e autonomia das esferas de valor. Perguntam se sua arte é de esquerda ou de direita, se sua moral é de esquerda ou de direita, ou se sua ciência é de esquerda ou direita. São pessoas incapazes em ver uma bela bunda ou uma bela flor sem achar que há algo de político nisso. Querem encontrar concepções de poder, de administração da polis, e de posição relativa a ricos e pobres em tudo.  Não suportam ver o mundo funcionando com esferas autônomas. Se alguém diz que produz algo pela sua própria razão, acusam-no de despolitizado e, portanto, de ignorante. A esquerda acusa tal pessoa como sendo “de direita”. A direita não fazia isso, mas agora aderiu, acusa tal pessoa como “de esquerda”.

Não querem ninguém que esteja de costas para a política. Não querem ninguém que sinta perfume ou que coma goiabada. O que desejam mesmo é só acusar os que usam perfume caro como babacas da “elite” ou, pior, de detentor do “complexo de vira lata”, uma nova expressão de pensadores e políticos néscios. O que desejam é chamar de ingênuos, e até de falsários, cientistas preocupados com paraplégicos. É necessário se estar “engajado”. Não há mais um mínimo espaço para as pessoas como nós, filósofos de cabeça boa, que não deixaram de lado o mundo comum, que são capazes de fazer um sexo oral, de lamber até o fundo uma boceta, na boa.

Claro que gente assim, como eu, com essa disposição comum, têm a nítida consciência de que os passadistas irão procurar um sentido maior nisso, a besteira de cobrir tudo com uma certa politização. Mas, continuarei achando, sem dar bola para eles, os passadistas, que a boceta na minha frente, prestes a sofrer agressões de minha língua,  não tem nada a ver com esquerda ou direita ou com qualquer tipo de política. Nem acharei isso da dona da boceta, enquanto ela estiver na horizontal e, às vezes, na quase vertical.

Sou aquele capaz de olhar patinhos na lagoa e saber que há ali algo que a política não abarca, não compreender, como também a religião não conseguiu fazer.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

Tags: , , , , , ,

19 Responses ““Tudo é político”, diz o passadista cabeçudo”

  1. MARCELO CIOTI
    30/06/2014 at 12:17

    Só a Marilena acha que o
    eleitor de SP é conservador.
    SP já elegeu três prefeitos
    do partido dela,além de
    três senadores também
    do partido que ela pertence.

    Tem um ótimo artigo no
    Estadão do último
    sábado,do Marcelo
    Rubens Paiva sobre
    essa Copa que foi
    feita apenas pra quem
    tem muito dinheiro.

    • 30/06/2014 at 12:58

      Marcelo, você está só falando coisa da sua cabeça sem análise. O perfil do eleitor paulista, por todas as pesquisas, é conservador.

    • MARCELO CIOTI
      01/07/2014 at 11:09

      Só fazendo um registro:o
      Inácio Araújo,semana
      passada,na Folha,
      falando sobre um filme
      brasileiro,usou a
      palavra “alienado” duas
      vezes.Acreditem se
      quiser,ele escreveu isso!

    • 01/07/2014 at 16:35

      Alienado não é uma palavra proibida, basta usá-la corretamente.

  2. 29/06/2014 at 13:39

    Não tô te reproduzindo.

    • 29/06/2014 at 13:43

      Que bom! Pois se fizer a mesma distorção e não compreensão que faz com o Pondé, tô perdido.

  3. Valdério
    27/06/2014 at 18:13

    Paulo,

    Nisto estou com você, num nível mais baixo é claro. Tenho um amigo que nos tempos de universidade, compartilhou bolsa bandeijão e esteve alojado na moradia estudantil comigo. Hoje, formado e no mercado de trabalho, é contra qualquer política de assistência social e acha que os beneficiários destas políticas são vagabundos. O cara leu clássicos da sociologia, visitou países europeus com políticas sociais muito mais amplas que as nossas (impressionado com a civilidade deles) e, quando volta pro Brasil, não perde a chance de chamar pobre de vagabundo.
    Não entro nem no mérito de se questionar uma política pública ou não, pois tudo merece uma reflexão ou crítica bem feita. Porém nem preciso dizer que não é isso o que acontece.
    Uma pena, embora como eu disse no início, em um nível mais baixo, gostaria de ter conversa com amigos sobre estes assuntos, mas a ideologia política tem transformado pessoas de suposta boa formação em donas de casa malufistas dos anos 80.
    Acho que pessoas como Pondé e Marilena Chauí emprestam um pouco de seu prestígio como um selo de qualidade de um produto pior do que eles defendem para pessoas como o meu amigo.

    • 27/06/2014 at 22:21

      Marilena tem prestígio adquirido. Pondé jogou fora seu possível prestígio inicial.

  4. Afonso
    27/06/2014 at 15:26

    Ótimo texto, muito elucidativo, e descreve exatamente o que se tem vivido diariamente – essa necessidade de classificação de “direita” ou “esquerda”, do “se não é a favor é contra”, enfim, uma ‘partidarização’ da própria vida.

  5. 27/06/2014 at 02:20

    Lembro da obra de Nietzsche Para Além do Bem e Do Mal, onde ele aborda sobre a alienação do rebanho perante imposições politicas ou religiosas, hoje é difícil expor algo na mídia sem que alguém que policie para dizer que tal forma ou maneira define uma posição política. Um filósofo que admiro que também não está nem aí para o que vão achar o que pensam dele é o Pondé, são aqueles filósofos raros que não apenas reproduzem mas produzem de forma autônoma seus pensamentos. Que tocam em assuntos com outra ótica, benéfica aos ouvintes de se desprenderem do politicamente correto que cerca todo nós, que ele cause ainda mais polêmica para tirar alguns do comodismo. Sem medo da nova “religião política” façamos ainda aquilo que permite ainda nossa frágil fisiologia, lamber bocetas e colocar a mulher de quatro sem temor da inquisição feminista por exemplo.

    • 27/06/2014 at 10:06

      Enoque sinto decepcioná-lo, mas o Pondé não entra em conversa pública exatamente porque não se compromete. E ele é alinhadíssimo com posição política. É de direita e acha marxismo e comunismo em tudo. Acorde!

    • MARCELO
      27/06/2014 at 11:13

      O Pondé acha,que,por
      exemplo,os ativistas do
      aborto são comunistas e
      comem criançinhas.
      Até ele sabe que isso
      não é verdade,mas
      como diz aquela
      música do Cazuza,faz
      parte do meu show…o
      show do Pondé,claro.

    • 27/06/2014 at 11:17

      Marcelo, infelizmente você está certo. Fico chateado pelo Pondé ser assim. Ele poderia não fazer isso. Acho! Ou talvez eu tente idealizar meus colegas.

    • 28/06/2014 at 11:08

      Pondé é de direita, por isso pensa de forma diferente e ele deixa claro o motivo de sua perspectiva de direita. Não, ele não vê marxismo e comunismo em tudo, algumas obras ele trabalha temáticas do cotidiano, e cita algumas vezes criticando a esquerda e no que ela abrange ( segundo ele em quase todo lugar). Mas minha admiração é sua postura única perante a forma de pensar, tenho três obras dele da editora LEYA. Muito bons. Agora já a Chauí fica pregando ódio à classe média, e ela é de esquerda, não que todos de esquerda sejam doidões como ela.

    • 28/06/2014 at 11:56

      Enoque, leia meu blog sobre Pondé, aí você vai entender o que NÃO está entendendo. E é incrível que admita a contradição: Pondé é de direita e deixa claro que é de direita. Ora, se ele confessa a burrice, ele melhora? Ele apenas repete o que Lobão faz. O fato de ter um vocabulário maior do que o Lobão não está ajudando nada. Além disso, ele não sabe que a sua perspectiva trágica fica quebrada pela sua adoção política? E você enoque, ainda não notou isso? Que leitor ruim heim? Olha aqui um pouco para você sair dessa o mais cedo possível: http://ghiraldelli.pro.br/ponde-tragico-pode-ser-ponde-de-direita/

    • 29/06/2014 at 09:17

      Contra Um Mundo Melhor, Pondé neste livro trata de sua perspectiva e acusa os prováveis sentido da vida, expõe suas preferências sem impor um mundo cor de rosa, não vejo que assim ele assume sem querer ou querendo como os outros que querem um mundo rosinha a mesma postura o lugar de ideologizados através do pensamento trágico. Ele fala as vezes (nem sempre) que enquanto democracia é menos ruim que ditadura, e prefere direita à esquerda por motivos os quais julga ter valores como liberdade, e começa a partir daí esculhambar os esquerdistas. vejo que no discurso ele consegue desviar política de filosofia, só quando trata de política por “obrigação” fala excessivamente. Mas se tudo é política? Como diz o professor Sergio Cortrella, encontrar alguém indiferente, autônomo? Se a filosofia abarca tantos assuntos? Pondé traz citando Cioran na coluna a Folha para aumentar segundo ele a “temperatura do jornal” e não adotar, reforçar política direitista.

    • 29/06/2014 at 10:55

      Enoque, o seu amor está atrapalhando sua leitura, se é que você está conseguindo fazer alguma leitura. Não me leia e não me reproduza. Por favor!

    • MARCELO
      30/06/2014 at 10:45

      A Marilena Chauí é a Ana
      Maria Braga e o Luiz
      Nassif é o Louro José.
      Um par perfeito.

    • 30/06/2014 at 11:14

      Não, eu garanto para você que você NÃO tem cultura para falar isso da Marilena.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *