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28/06/2017

Trump em guerra revela “a outra América”


Cinco pensadores entenderam a América: Tocquevile, Dewey, Rorty e Sloterdijk. Mas só dois, Dewey e Rorty, compreenderam sua dupla face no seu cotidiano. Eles foram filósofos americanos no sentido mais autêntico da palavra. Viveram os dramas da criação dos chamados Founders Fathers.

Dewey deixou claro que a “América” era uma coisa e os “Estados Unidos” outra. E ele não estava falando de geografia. Ele estava falando de dois tipos de representações e dispositivos. A América é um sonho de liberdade. Assim começou e assim ainda é. Milhares de pessoas todos os anos querem, ainda, “fazer América”. É a maior democracia do mundo e realmente a mais bem sucedida. Os Estados Unidos, em contrapartida, são um país com uma das pernas e um dos braços dominados pelo aparato industrial-militar, uma aliança de políticos de todo tipo com o Pentágono e com os capitalistas “senhores da guerra”. Esse país gigantesco e extremamente rico, a pátria dos americanos, não consegue não ser um Janus, é assim que ele funciona.

Por sua vez, Rorty não via, ao menos nos seus últimos anos de vida, outra coisa senão o declínio americano, mas ao mesmo tempo acreditava na possível salvação da democracia de tipo americano. Faleceu dizendo que Janus acabaria tendo uma das face mais forte, a face bélica e populista, e que outros países deveriam segurar a bandeira americana da democracia. Em um prefácio especial, mandado para mim, para um livro dele que traduzi (Pragmatismo e política, Martins Fontes, 2005), Rorty chegou até a pensar no Brasil, em contraponto com a China, como quem poderia carregar a bandeira da democracia. Rorty errou sobre seu país, pois depois sua morte veio Obama, e a democracia americana como bandeira americana voltou a tremular no mundo como coisa dos Estados Unidos. Rorty infelizmente também acertou, porque o tipo Trump, que agora governa, é a descrição do que ele fez do populista que poderia a qualquer momento assumir o comando do país.

Trump volta a dar força para o aparato industrial militar. Prometeu que não ia interferir em negócios externos, mas não conseguiu fazê-lo. Enroscou-se com os russos a ponto de estar sendo seriamente investigado. Precisava desobedecer Putin, e  assim o fez atacando o governo sírio. Mas isso é política, a economia corre mais forte por outro rio. A empresa dos mísseis viu suas ações estourarem na Bolsa após o ataque à Síria. Os republicanos ligados aos donos desse negócio vibraram. O Pentágono em seus setores tradicionais, também – afinal, uma máquina de guerra é feita para a guerrear. A posição de Trump ao patrocinar tudo isso foi a pior possível, abandonando o diálogo, marca da Administração Obama. Mas Trump não faz nada que não seja em benefício próprio, pessoal, na busca desesperada de se manter no poder. Seu filho é um autista que merece amor, ele é uma criança autista perigosa.

Trump vai passar, como Bush passou. O modo como está governando é atabalhoado. Até as próximas eleições o Partido Democrata já terá se livrados dos Clinton, os Obama podem voltar à Casa Branca. É torcer para que uma das faces da América, a melhor, volte de novo a dar o tom.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 09/04/2017

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4 Responses “Trump em guerra revela “a outra América””

  1. Cristiano frota
    10/04/2017 at 03:20

    Paulo, concordo com seu texto, com a perspectiva histórica indústria militar-Obama-trump… Agora, não dá para colocarmos stokerdijk e questionar se há uma espécie de suavização da vida que leva a possibilidade de termos um presidente como o Obama que traz participações para além da indústria militar e conservadorismos extremos? Pergunto isso, porque imaginei que, ao longo dos anos, vimos os EUA e Europa para além da questão das guerras e dá resposta militar, ou seja, imagino que temos um conjunto de dispositivos que “desligam” algum entusiasmo por decidirmos coisas através da guerra. Bem, essa minha leitura também é foucaultiana, do trabalho dele sobre governamentalidade.

    • 10/04/2017 at 07:45

      No caso da tese de Sloterdijk, o movimento é da “história da grande duração”, para usar um termo francês. Claro que as democracias liberais tendem a eliminar a violência ou fazer da violência algo “limpo”, como a guerra de drones. Agora, para nós que vivemos na pequena duração, a glória da vida é Obama.

  2. 09/04/2017 at 10:43

    Bom dia, professor,

    É evidente que todas as análises sobre o incidente, sobretudo as facebookianas, estão sendo feitas conforme o binarismo em voga no Brasil atualmente: se se é liberal/(ultra)conservador/direitista elogia-se Donald Trump por condescender com o sofrimento de crianças e demais inocentes; no caso dos esquerdistas ataca-se o imperialismo yankee intermitente.

    Para quem aguardava o seu posicionamento conforme tal binarismo creio que houve uma decepção e vc tocou num ponto importante da questão, que é o lucro da indústria armamentista.

    Não vou além daqui, pois desconheço o que ocorre no Oriente Médio. Mas vou aguardar mais posicionamentos para aprender com eles, inclusive os seus.

    Até.

    • 09/04/2017 at 10:57

      Sulo, eu apenas recordei meus mestres, principalmente Rorty. Trump estava marcado por Deus para vir existir.

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