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24/08/2017

Trump, Coutinho e a pretensão do realismo português


Trump pode ser o candidato republicano que irá enfrentar ou Bernie Sanders ou Hilary Clinton. Coutinho é o colunista português conservador, da área da ciência política, e que diz que (quase) todos estão errados ao falarem de Trump como “epidemia” ou coisa parecida (Folha, 01/03/2016). Erro de cientistas políticos, ele diz, que querem falar do mundo como ele “deveria ser”, e não “como ele é”. Coutinho é como Deus, ele sabe como o mundo é. E o mundo como ele é quer Trump! 

A dicotomia apontada remonta ao positivismo francês. Comte a invocou, mas foi Durkheim quem a explicitou: a filosofia fala do “deveria” e  a ciência, (a nascente sociologia) fala do “que é”. Todos acharam isso brilhante e Durkheim fez sucesso no mundo não só por esse lema e por suas excelentes pesquisas, mas também por um número considerável de parentes que circularam o nosso planeta (inclusive pararam aqui Brasil também) implantando seu sistema. (1) Afinal, Paris demorou para deixar de ser a capital intelectual do mundo e os exércitos napoleônicos da Revolução até hoje estão aqui e ali realizando o mundo burguês. Portugal fugiu de Napoleão, mas, enfim, o aproveitou nos “restos”. Coutinho é isso, um menino do resto do positivismo. Um positivismo meio que engraçado.

Coutinho acredita mesmo que a filosofia política é o campo do “deveria” e a ciência política o campo do “o que é”. Uma seria normativa e utópica, a outra realisticamente ontológica. Max Weber, Simmel, Pareto, Wright Mills, os marxistas não dogmáticos, toda a escola historicista, Dewey e Foucault e, enfim, dezenas de contemporâneos, sabem bem que Durkheim falou mais do “deveria” do que do “é”. Ou seja, logo se percebeu que o positivismo era um esforço, não uma prática possível no que ele prometia de isenção e rigor realista. Sempre quando descrevemos “o que é”, colocamos uma pitadinha do “deveria”, ainda que possamos fugir da filosofia por conta de qualquer questão psicanalítica pessoal, ou por uma fé religiosa no sistema gerado por Comte ou na sociológica política calçada em estatística, dominante na América.

Assim, seguindo um raciocínio realista positivista (não propriamente o de Coutinho, ele, claro, não fala de Bernie), teríamos de dizer que os americanos querem Trump, e do mesmo modo teríamos de dizer que os indicadores mostram que Bernie poderia vencê-lo, e Hilary Clinton não. Quem age assim, está calçado em estatísticas que mostram que, hoje, os americanos querem alguém que foge do time político dos “sempre os mesmos”. Os americanos, como nós aqui, estão cansados do caciquismo (claro que o daqui é autoritário, e o de lá permite prévias que aqui foram praticamente abolidas). Mas, se estamos com a filosofia e com uma boa ciência política nas mãos, podemos introduzir uma outra variável, que reaparecerá em forma de pergunta, caso a decisão vier carregada de dramaticidade: “o que irá acontecer efetivamente com a minha vida, caso Trump vença?” Nessa hora, tudo muda. Aspirações tresloucadas tendem a baixar a bola.  Abre-se o campo que Coutinho não sabe que existe, o que diz que a história é uma caixinha de surpresas sem ser uma caixinha. A história é um aberto, uma terra de ninguém.

Na reta final, McCain apontou a cabeça e iria vencer Obama, o preferido. Mas, nos últimos dias a crise americana se aprofundou e os americanos começaram a perceber que só Obama iria fazer uma intervenção nas empresas e bancos, só ele iria quebrar a ordem liberal de “não passe da soleira da porta de minha casa”. Deram o voto a Obama numa coragem incrível, e ele fez o que tinha de fazer para salvar a nação. Salvou. A América está aí de novo. E a China e o resto do mundo não são, de novo, o que queriam ser. O farol da América brilha, ainda que os problemas sociais dos americanos de classe média sejam maiores e tenham possibilitado a campanha de Bernie Sanders – que fala o que não se quer ouvir, mas que pode soar razoável em momentos de decisão aguda.

Assim, o positivismo da ciência política de Coutinho se torna um realismo ingênuo. E ele próprio, como sempre, se apresenta muito jovem para falar grosso como sempre quer falar. Ainda não dá. Precisa viver mais e dar um salto para além do lusitanismo, ou seja, essa maneira de dizer coisas sem variáveis, sem relativismos, sempre num sentido que faria outros positivistas rirem e dizerem: vocês em Portugal entendem tudo demais ao pé da letra.

A piada de português é isso: para nós eles são um povo que não sabem o que é uma metáfora e o que é o mundo fora da lógica formal. Tomam tudo literalmente, e nos fazem rir. Têm mérito, mas, exageram.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

(1) Durkheim deu um curso longo, rigoroso, sobre o pragmatismo americano. Identificou-o como uma variante do doutrina de Nietzsche, um “irracionalismo”, e que deveria ser combatido por uma razão de “segurança nacional” francesa. Não riam, juro que isso é verdade. Leiam de Durkheim, É. Sociologia, pragmatismo e filosofia. Porto: Rés, s/d.

Foto de capa: Ivanka Trump, filha do candidato republicano.

filha de Trump

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6 Responses “Trump, Coutinho e a pretensão do realismo português”

  1. angelo
    01/03/2016 at 20:24

    Para as feministas a Ivanka Trump “deve ser” o macho alfa.
    rsrsrsrsr.

    Se o Trump ganhar aguenta o movimento estudantil, querendo lutar contra o imperialismo, o americanismo e o fascismo. rsrsrsrsrs

    E é capaz da direita querer uma ditadura militar com medo do comunismo. rsrrsrs

    Vamos ver o que vai dar!

  2. Wagner Santos
    01/03/2016 at 14:24

    Obama não falhou, acho difícil Trump levar essa. Gostaria de ver uma figura como Sanders a frente dos EUA. Gostaria de vê-lo dialogando com o Francisco…
    Seria um papo interessante!

    • LMC
      01/03/2016 at 15:22

      Wagner,Trump é o Hitler dos anos
      30 e o Sanders é o Brizola de 89.
      Os dois culpam os bancos por
      todos os males do mundo.kkkkk
      A melhor coisa de Portugal é
      que este país fica na Europa.

    • 01/03/2016 at 15:34

      LMC o Sanders não é o Brizola, e seu erro é feio meu caro.

    • LMC
      01/03/2016 at 16:58

      A diferença do Coutinho e o
      Pondé é que o Coutinho é
      português,PG.

    • Matheus Kortz
      04/03/2016 at 01:12

      Olha acho dificil alguém aer pior que o pondé porque de um “cientista” politico, a gente até espera essa postura magistral da “ciencia do que é” (positivismo) agora esperar isso de um filosofo? Aí já começa a complicar

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