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23/11/2017

As tribos raivosas: armas, maconha, Bíblia, pedofilia e ânus


Faz anos que, como escritor, trabalho não só com o texto filosófico acadêmico, mas também com o escrito opinativo de cunho jornalístico. Nas últimas duas décadas, graças à Internet, passei a exercer esse trabalho com a possibilidade do feedback diário. Pude assim saber de existência de pessoas que eu até desconfiava que existiam, mas que no passado tendíamos a não dar bola, deixar de lado, porque não tinham como se expressar. Tomávamos então os tais grupos pouco aptos cognitivamente como não existente. Víamos o Brasil do modo que queríamos, não do modo que é.

Esse pessoal menos apto cognitivamente agora tem como se expressar, e nos deixa conhecer melhor a população brasileira como um todo.

Tenho notado, de uns anos para cá, que há alguns assuntos que chamam a atenção desse tipo de gente. Esses assuntos, no meu blog, podem não ser os mais lidos, mas certamente são os que despertam as respostas mais raivosas, às vezes até me tratando de “filósofo” ao invés de filósofo, demostrando um atroz ressentimento (inveja até?) que alguém mais inteligente não ousaria revelar. Quais são esses assuntos?

São quatro assuntos: 1) quando digo que a facilitação de posse de armas não combate a violência e não traz segurança alguma; 2) quando digo que a maconha dever ser legal, mas que o consumo dela faz mal; 3) quando digo que pedofilia está classificada como patologia, e assim deveria ser tratada, e que isso é diferente de abuso sexual, que é crime; 4) quando digo que o estado é laico, mas o país não, e que a Bíblia é sim um poema e um documento histórico antropológico de inestimável valor, e que deve ser ensinada nas escolas.

Agora descobri que existe mais uma tribo militante, além das que se insurgem contra essas quatro argumentações minhas. É também uma tribo feroz, repleta de chiliques. Trata-se da tribo dos médicos  e médicas vigilantes de ânus. É um pessoal talvez menos numeroso que os de outras tribos, mas a raiva é igual e a incapacidade de pensar e ler textos simples também.

Durante anos a maior parte dos médicos tem aconselhado como exame de prevenção de câncer uma tripla atuação conjunta: clínica geral constante, exame de PSA e exame de apalpação de próstata. Nada disso é muito invasivo. Não se garante com isso 100% de prevenção, mas, quando esses três exames são feitos conjuntamente, e não em mutirão do tipo vacinação, ajudam bem todo mundo. É algo que já está se tornando comum, como o exame ginecológico da mulher. Todavia, há médicos que resolveram ficar magoados comigo porque eu disse que a desqualificação desses exames não tem muito sentido. Principalmente a desqualificação que diz que “exames de PSA e toque fazem mais mal que bem”. Aí já é demais. É visível que quem diz isso está com problemas psicológicos quanto ao toque, e disfarça bem ou confundindo textos que não dizem isso ou então simplesmente inventando baboseiras que fazem médicos bem formados rirem.

Ou seja, o problema é idêntico ao de outras tribos: alfabetização mal feita associada à incompetência para romper com preconceitos na leitura. Claro, preconceito é preconceito. Quem tem dificilmente sabe que tem. E se sabe, admitir é difícil, pois o preconceito tem suas diretrizes secretas mesmo quando é escancarado. Mas, se somos um pouco corajosos, notamos bem com funciona tudo isso.

Arma. O indivíduo que quer portar arma não se convence de que, com arma, a vida dele vai estar em risco e a vida dos familiares mais ainda: se acertar alguém vai pagar por isso pela lei ou pela vingança. Além disso, a polícia sempre diz: quem reage leva a pior. Mas, não adianta, o que está em jogo não é a segurança, mas a sensação de onipotência e a muleta para uma masculinidade que ainda não se firmou.

Maconha. O indivíduo que quer fumar maconha não raro é problemático, precisa de uma fuga, mas ao invés de aceitar isso como o que consome bebida alcoólica aceita, este não pode fazer o mesmo. Ele quer ter status de maconheiro, não a má fama de maconheiro. E em geral ele se torna doutor em maconha. Para ele os gênios só produziram o que produziram por terem sido maconheiros. Mesmo ele vendo que está ficando mais lento por causa do consumo de maconha, ainda assim ele teima em ser um sábio, um doutor. Fala mais em favor da maconha que evangélico quando senta ao seu lado no ônibus. De fato é um doutor em maconha, título que não existe na academia e que, por isso mesmo, ele dá a si mesmo e comemora.

Pedofilia. O indivíduo que não sabe que pedofilia não está no código penal, uma vez que é doença, e que crime é o abuso sexual; esse é realmente o cabeça dura mais difícil de lidar. Não raro, esse indivíduo pensa que relações com quaisquer moças novas é crime, e qualifica isso também como pedofilia. Aliás, mal sabe que nossos avós casavam cedo e que o costume árabe faz o mesmo etc etc. Nesse caso, isso não é nem crime e nem pedofilia. Mas ele não entende nada disso. É o personagem mais raivoso na Internet. Ele nem lê os textos. E não entende nem em dez leituras. Espuma de raiva. Em geral dá guarida para grupos de caça-pedófilos que funcionam como fachadas de gente que explora crianças, inclusive com trabalho escravo.  A Internet está infestada de grupos assim.

Ateu inculto. O indivíduo que é ateu e inculto acha que a Bíblia tem de ser lida como um texto científico. Ele não distingue gêneros literários. Ele não sabe que ela é um dos pilares da cultura ocidental. Então, a lê como tendo “contradições”. No limite, ele faz a mesma leitura daquela dos fundamentalistas que critica, dos que a tomam literalmente, os pastores analfabetos (ou espertalhões) das igrejas-caça niqueis. Esse tipo de ateu se torna um agente da anti-cultura na Internet.

Anjos da guarda de ânus. Junto disso tudo, então, há agora a tribo dos médicos que não querem fazer o exame de toque de próstata. É gente que não sabe (ou sabe demais) que a maior parte dos brasileiros faz “fio terra” com suas parceiras e parceiros sexuais, e que isso não faz mal algum. Exibem todo tipo de desculpa contra exames de prevenção de câncer, e começam sempre dizendo “sou médico”. Aí, com essa pretensa autoridade, querem proteger o próprio ânus, quando na verdade não há nada o que proteger. São bravinhos mesmo! Gritam e esperneiam e colocam links de documentos que não entendem.

Um bom ensino fundamental ajudaria essa gente toda. Mas, enquanto não temos tal coisa, resta agir aqui na base da água mole.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: existe mais uma tribo, mas que ainda não ganhou um número suficiente de néscios para ser posta aqui: os autodidatas, os doutores que não conseguiram terminar o ensino fundamental ou os frustrados que não fizeram a faculdade que queriam fazer etc.

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27 Responses “As tribos raivosas: armas, maconha, Bíblia, pedofilia e ânus”

  1. Daniel
    07/11/2016 at 08:48

    Antes de Paulo Ghiraldelli, só Janer Cristaldo havia tido a coragem de falar sem medo no Brasil sobre pedofilia. Sem medo e sem mentiras. Os autores alemães, entretanto, sempre falaram e escreveram.

  2. Adam Pinto
    14/07/2016 at 14:48

    “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mateus 15: 11) – citação de cunho religioso que explica parte da burrice que você expôs. Sem falar naqueles professores que usam o termo homossexualismo em sala de aula pra pegar os viados de supetão. Será que fazem isso para provocar ou ainda acham que a gente é doente mental? “O amor é uma grave doença mental” Platão

    • 14/07/2016 at 19:10

      Adam Pênis, é o seguinte, a gente precisa ter paciência e ver os casos de evolução da sensibilidade com certo olhar analítico (veja no blog o que falei sobre Pelé). Sei que tem hora que a gente se irrita, mas, é preciso esfriar a cabeça e voltar para a análise.

  3. Luciano
    02/05/2016 at 09:51

    Paulo, um dos pontos que você citou é importante. Médicos com ensino médio ruim cuidando da população. Pequenas cidades principalmente sofrem com esses profissionais.

    Abraços

  4. Wayrone
    24/12/2015 at 09:14

    Esclarecedor, provocador e divertido o texto! Hahaha Durante a leitura, fiquei imaginando a atuação dessas tribos numa peça teatral.. Suas críticas são bastante originais. Evidentemente, existem mais tribos que foram citadas….

    • 24/12/2015 at 10:26

      Wayrone então, tente ver outras tribos e ampliar a coisa.

    • vera bosco
      14/07/2016 at 15:48

      Qualquer hora quando estiver menos irada escreverei sobre a tribo dos peidagogos.

  5. Rafael Vedoy
    06/11/2015 at 22:21

    As armas e o fio terra não me entram na cabeça. O fato de andar armado não faz de mim um ser com tendências sexuais complicadas. Armas são até excitante. Penso que mulheres também deveriam aprender a manusear uma arma. Deveriam ter um serviço militar obrigatório como os homens, – não querem igualdade! Não é raro ver a figura do policial armado no imaginário erótico das mulheres. Não sei como vai ser quando eu for fazer esse tal de exame. Mas aqui no sul, fio terra! Bem capaz!

    • 07/11/2015 at 00:41

      Rafael você pode ter arma, o problema é a facilidade da arma e a ideia ridícula de que tendo arma você está protegido. Sobre fio terra, pode fazer o exame, a doença é bem pior.

  6. Edgar
    06/11/2015 at 19:29

    Paulo, acompanho seu blog hà alguns anos, e desde o começo não entendi qual o seu problema com o autodidatismo. Agora creio que você se refira ao sujeito que acha que pode se sentar numa privada, se concentrar e aprender Kant sem fonte alguma, pois as idéias brotam de sua “mente genial”. O sujeito que estuda fora da universidade, pesquisando por conta própria, não é autodidata. Alguém escreveu o material didático que ele lê. É comum popularmente dizer que um sujeito assim é “autodidata”. Em suma, o autodidata é um completo idiota, e o “autodidata” não é mais foda que o cara que estuda na universidade. Ainda estou enganado?

    • 06/11/2015 at 19:54

      Não existe autodidata em filosofia. Filosofia é atividade de confraria. No Brasil há um campanha pelo autodidatismo feita por fracassados escolares. Só aqui mesmo. Ou melhor, justamente aqui, que falta salário para o professor, se desprestigia o professor. Mas são sempre os mesmos, os eternos reprovados de vestibular, os desajustados e, enfim, os “gênios incompreendidos” que não ganharam o Nobel por injustiça (né?) que fazem essa campanha.

  7. Alexandre
    06/11/2015 at 18:02

    Concordo com você a respeito de todos esses pontos, mas sinto repulsa ao imaginar um homem transando com uma garota, nunca vi beleza nisso e nunca irei ver; por outro lado acho extremamente belo quando um homem se relaciona com um garoto ou uma mulher com uma garota, para mim é uma das coisas mais belas do mundo.

    • 06/11/2015 at 18:07

      Alexandre, cuidado que você pode encontrar isso na própria família sua. Nossas avós casavam cedo. E no caso de árabes brasileiros, mais ainda.

  8. 06/11/2015 at 11:54

    eu quase me encaixo no individuo #4. essa confusão é comum, eu sou taxado de ateu quando critico o Cristianismo e sou taxado de crente quando critico o Ateísmo. para não haver tal confusão, professor, saiba que eu sou pagão.
    eu sei que a bíblia é uma obra que pode ser lida de diversas formas [Roland Barthes – Obra Aberta] e que não parece fazer muito sentido o ateu insistir na interpretação literal levando em consideração que este é um texto cheio de metáforas e analogias. no entanto, não podemos deixar de lembrar que esta postura é razoável mediante a postura cristã em afirmar que a bíblia é uma Verdade, literalmente falando, pois foi inspirada por Deus.
    e por falar em obras que são os pilares da cultura oriental, eu prefiro Teogonia, Odisseia e Eneida, para ficar com os mais clássicos e conhecidos.
    da minha parte, eu posso garantir que possuo uma excelente alfabetização e eu tenho graduação em nível superior, o que me coloca além do ensino fundamental.

  9. José Silva
    06/11/2015 at 11:48

    Tem ateu na internet que publica mais coisas sobre Jesus e Deus do que muito religioso por aí. Esses caras são muito chatos e cansativos.
    O pior é o jeito arrogante deles, do estilo “eu percebi erros na Bíblia”. Esse tipo de gente é a mesma que lê um clássico, como Marx por exemplo e enche a boca pra falar “Eu encontrei erros nas ideias de Marx”. A vontade que dá é de falar “Nossa, gênio, quer que o tio te dê uma estrelinha na testa?”
    O pessoal das armas então, me causam arrepios com a frase “Todo cidadão deve estar armado”. Nunca consegui conceber as palavras cidadão e armado em uma mesma frase.
    Sobre a maconha, lembro de uma entrevista do Leandro Karnal ao Jô Soares que ele diz:
    – Quando alunos meus descobrem que tinha cannabis nos cachimbos de Shakespeare, eles me perguntam se fumando maconha escreverão como o dramaturgo inglês. Explico a eles que fumar maconha o torna maconheiro, não Shakespeare.

    Os protetores do cu alheio estou descobrindo agora…

  10. Maximiliano Paim
    06/11/2015 at 08:30

    Se esse pessoal deixasse a professora querida enfiar neles tudo o que ela tivesse por necessário do fundamental, eles desconheceriam problemas de fio terra e os potencialmente maconheiros evitariam a droga para relaxar, e consequentemente, passariam longe do tabu de conversar seriamente sobre a pedofilia, pois saberiam do que se trata.

    • Maximiliano Paim
      06/11/2015 at 08:32

      Afinal, quanto mais maconha, mais burrice e menos estudos.

  11. 06/11/2015 at 02:33

    Então você acredita que ser autodidata é necessáriamente ser um radical ?

    • 06/11/2015 at 02:34

      Ser autodidata é antes de tudo ser burro.

    • 06/11/2015 at 02:39

      Boa parte dos astônomos são amadores, autodidatas e responsáveis por descobertas incríveis como de vários meteoros recém-descobertos.

    • 06/11/2015 at 03:25

      Então crie seu filho sem ir na escola. OK? Ele será o grande astrônomo.

    • Thiago Carlos
      06/11/2015 at 12:34

      Cite os nomes dante villarruel

    • Antonio Carlos
      06/11/2015 at 15:59

      Michael Faraday, físico britânico, foi quase que completamente um autoditada em toda sua vida… Ótimo físico experimental, ele é considerado um dos pais do eletromagnetismo dando uma de suas maiores contribuições com o fenômeno da indução eletromagnética. Esse perfil não é regra, mas não se pode generalizar o auto didatismo, é claro que precisamos ter bom senso nessa questão.

    • 06/11/2015 at 16:01

      Antonio Carlos tire seu filho da escola e ele será um brilhante físico, tá?

  12. Alexandre
    05/11/2015 at 23:54

    Sobre a questão das armas, o que voce pensa a respeito do fato de uma população desarmada estar mais vulnerável ao estado e organizações militares (fanáticas por padrão) que concentram a força. A propósito, pensamentos muito lúcidos na minha humilde opinião. Meus parabéns

    • 06/11/2015 at 01:19

      Alexandre o monopólio da violência é do Estado. Sacou? Você vai se defender do ataque do Exército? ha ha ha!

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