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25/06/2017

O intelectual trágico e seu namoro com a catástrofe


Crítica da razão cínica é um livro de 1983. Não está entre o que Sloterdijk faz hoje. Retomei essa peça por esses dias e encontrei lá algo que, pela mesma época, eu havia posto em um livro meu, O que é pedagogia, que vendeu até hoje mais de 25 edições.

Na primeira versão desse meu livro (ele tem três) eu escrevi sobre “concepções de história” e falei de uma que funciona como uma curva num plano cartesiano, tendo picos e vales, acensão e queda. Trata-se de uma concepção catastrófica da história. É uma concepção chinfrim: todas as grandes civilizações ou nações possuem um apogeu e, depois, necessariamente, perecem por uma catástrofe guerreira. Em seu velho livro Sloterdijk lembra de como Hitler namorou com tal concepção, e de como a cúpula nazista promovia o seu cinismo ao prometer para si mesmos e para o povo uma grande Alemanha, ao mesmo tempo que tinham claro que iriam conduzir a nação para a catástrofe.

O cinismo moderno que Sloterdijk desenha de inúmeras formas, tem essa propriedade psicopolítica, revelada no nazismo de modo peculiar. Funciona assim: quero o bem da nação, quero sua grandeza, mas sei que seu apogeu é como parte de um projeto imperial, guerreiro, e que nos seus momentos de auge já estará armado tudo que é necessário para a sua fantástica e espetacular derrocada. Por isso, Hitler se colocou em várias frentes de ataque ao mesmo tempo, numa guerra de tudo ou nada, e por isso mesmo, quando começou perder, tratou de assassinar os militares ao seu lado que falaram em paz e negociação com o inimigo. Hitler entendia cinicamente que sua vida e a vida da Alemanha iriam seguir o mesmo pico e decadência. Esse amor cínico pelo catastrofismo o fez planejar um último ato, que seria o de incêndio total de Berlim. Os aliados deveriam colher só mortos e chamas. O plano falhou, mas a catástrofe que se realizou na Alemanha já estava de bom tamanho.

Esse amor pela catástrofe é o lado negro da concepção de vida que namora com o tragicismo. O trágico é elemento do teatro, não deve ser levado para a filosofia quando esta está para se aliar com doutrinas. Quando alguém diz “sou um trágico”, compartilho da “filosofia trágica”, tome cuidado. O cinismo moderno logo aparecerá. Com ele, a ideia de que tudo está bem, mas que há de tudo acabar mal. Quando se quer as coisas assim, para fazer da vida um teatro, o cinismo se apresenta por uma razão simples: há risco sim de se conseguir o que quer, e arrastar outros que não queriam tal coisa junto com quem adota o catastrofismo. Essa é a perversidade do cinismo moderno, que é o anti-kynicism de Diógenes de Sinope, e que estava em cada gesto de Hitler.

Pessoas como Hitler dizem assim a quatro paredes: eu gostaria de fracassar em determinado momento, mas de modo espetacular, espetaculoso. O desejo do fracasso se faz aí como um desejo de que ninguém mais possa usar aquele palco, uma vez que a peça trágica deverá ser tão trágica que até o palco será consumido num grande fogo. O cinismo está em admitir isso para si, querer isso, quase dizer isso, e ao mesmo tempo estar ali a postos dizendo coisas – como Hitler bem dizia – que soa como discurso libertador. Ora, os nazistas viam também a morte como libertadora. Miutos alemães se tornaram também cínicos mesmo não se entregando ao partido nazista, à medida que começaram a andar pelas cidades sabendo da catástrofe que viria, sem desejar outra coisa.

Todas as vezes que vejo um trágico, sei que ele pode ser um cínico moderno, e é só cavocarmos mais um pouco e o acharemos abraçando o catastrofismo que ele diz ser uma forma de não ser ingênuo. Tudo se passa assim na sua cabeça: o mundo tem que se despedaçar; todos nascem, crescem, e morrem, as nações fazem o mesmo. Todos que desejam um mundo melhor são burros ou ingênuos. O trágico é o único inteligente porque ele fala da possibilidade da catástrofe. O cinismo do trágico está em que ele, de fato, ama a catástrofe. Hitler jamais perdeu a guerra, quanto ao que preparou segundo sua concepção de história. Principalmente em Hiroshima, ou nos milhões na Alemanha que se mataram, ou de fome ou com o medo do estupro, após o final da Guerra, o que ocorreu durante mais de um ano inteiro num circo de horror rasgante.

Quando vejo no Brasil gente apoiando Trump, abertamente ou de modo meio envergonhado, fico esperando vir logo da boca de tal pessoa um frase pessimista, trágica, catastrófica. E vem. Podem reparar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 29/07/2016

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4 Responses “O intelectual trágico e seu namoro com a catástrofe”

  1. 14/08/2016 at 19:12

    Show.

  2. 06/08/2016 at 18:15

    Paulo, tem algum tema que seu amigo Pondé saiba tratar com maestria e filosoficamente? Existe?

    • 06/08/2016 at 19:59

      Enoque, Pondé não é mais meu amigo. As declarações dele contra Paulo Freire sem ter lido Paulo Freire o fazem o desonesto intelectual. Eu não vejo nada de útil ou correto nele. Acho que ele agora está certo, caçando Pokemon. Descobriu a vocação.

  3. Orquideia
    30/07/2016 at 06:46

    Ser trágico é mais fácil do que ser valente, o “trágico” não precisa pensar em responsabilidades,nem se preocupar com legados ou heranças.
    Por causa disso tem muitos “apocalípticos” por aí.

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