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21/11/2018

A “tormenta de merda” das redes sociais apavora!


Artigo para o público em geral

Quem tem hoje até 20 anos não sabe de nada. Não sabe de nada sobre a Internet. Todos ridicularizavam a Internet, era algo “só de brincadeira”. E meus colegas filósofos tentavam me fustigar dizendo que eu perdia tempo tendo o meu site (desde o início da Internet). Isso mudou. Mas, há certos nichos da Internet que substituíram o todo no sentido de ganhar os mesmo adjetivos do passado, ao menos por um tempo. Foi o caso das redes sociais, que eram só “brincadeira”. Mas agora, o Facebook não é brincadeira mais. Todos os machões e machonas que até publicavam se dizendo corajosos, agora resolveram mostrar que temem as redes sociais. Estão todos apavorados com o que chamam de “disseminação de ódio” e de “linchamento virtual”.

Há um nome para isso que temem. O filósofo germano coreano, em uma publicação de 2013 na Alemanha, com o título de Im Schwarm, lembrou o termo shitstorm (tempestade de merda, literalmente). Todos estão temerosos porque imaginam que aquilo que chamavam de o “mundo da brincadeira” (negócio virtual era tido como não sério nos anos noventa!) comporta alguém capaz de colocar fezes numa meia furada e girá-la acima da cabeça no meio da sala. A toda hora alguém está tomando merda na cara por esse mecanismo, muito usado no Facebook, e que oscila em ser apoiado ou rechaçado conforme as conveniências de “like” de cada um. Há um episódio da série Black Mirror que mostra um mundo assim, onde só ha vida, ao menos de um grupo social, segundo o “like”.  Alguns colunistas mais desesperados, na Folha, chegam a falar que isso é o “gosto de sangue”, que é “ódio”, e outros, quando a coisa não é para o lado deles, falam em “justiça”, “voz do povo” etc. Byung Chul Han também não se conforma com isso e entende que o respeito e a hierarquia, que cabia ao poder como emissário das mensagens, criava uma situação melhor, pois sempre fazia com que houvesse um tempo de reação. É como se ele dissesse que um tempo sempre faz com que surja algo melhor.

De fato, o Facebook é a quebra do respeito, é a democratização das vozes no sentido chulo, é a “opinião de todos contra todos” e, enfim, é também uma situação de narcisismo, pois todos procuram apenas encontrar a si mesmos nos rostos que repetem o que dizem. Uma boa parte das pessoas que frequentam grupos de discussão do Facebook não quer senão que entrem ali seus pares de mesma opinião. Mas, volto a insistir, os que pensam como Byung Chul Han estão errados. O poder não se esvaiu por conta da mídia corporificada na Internet.

A mídia de tipo Facebook é, como o próprio nome diz, uma parte da Internet, ou seja, uma parte da rede. Trata-se de uma comunicação onde o próprio meio ganha um rosto e um corpo – ou vários – que já não são mais o corpo do rádio e da TV ou do jornal impresso ou mesmo do jornal online. É um corpo de empresa sem empresário. A Internet, reduzida ou não às “redes sociais”, é uma grande máquina que funciona como um sujeito sem subjetividade. Trata-se de um agente, mas sem a características centrais do sujeito: interioridade, capacidade de auto-desinibição racional e consciência. Trata-se de um pseudo sujeito reduzido somente à identidade. É um grande Eu, mas sem si-mesmo interior, sem self, com algo que imita uma consciência. O Facebook não tem segundas intenções, nem primeiras, tem apenas o resultado das shifstorms. Mas, sem ele, já não sabemos mais quem somos nós. Ele se tornou o Outro necessário de nossa socialização. Ele se tornou uma parte de nossa ética, de nossa capacidade de termos um ethos. Não temos a coragem de desligá-lo, porque ele veio junto com nossas orações éticas pedindo “transparência”. A transparência veio, mas não só para celebridades, para nós todos. E eis que então o que chamávamos de vida privada e intimidade foi embora junto com a intimidade do Aécio Neves, que tanto queríamos ver acabada.

Entender essa vulgarização do trabalho da mídia não é para qualquer filósofo. Vamos precisar não de filósofos que arrotavam por aí se dizendo corajosos, os panfletários e os de pose blasé, vamos precisar de filósofos mais sutis, mais efetivamente pesquisadores. Não sei o quanto pudemos produzi-los.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo.

 

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One Response “A “tormenta de merda” das redes sociais apavora!”

  1. Fábio Fleck
    19/02/2018 at 22:27

    Sensacional este texto. Leio e releio e sempre que o faço tenho uma nova ideia sobre tecnologia, rede social, mídia, ou internet! Por isso voltei aqui, para reler! Obrigado.

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