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19/08/2017

A tolerância religiosa do Deus único – o argumento de Thomas Morus


O Deus católico tem mais poder do que a gente imagina. Quando ele se enfraquece, em geral é por conta de seus intérpretes mais radicais, aqueles que querem até substituí-lo. Trata-se de um Deus que é forte até mesmo na sua fraqueza. Eu explico.

O colunista e filósofo Hélio Schwartsman, meu amigo, escreveu certa vez um texto simpático ao politeísmo antigo, quase que dizendo algo mais ou menos assim: os monoteísmos são a desgraça da intolerância. Essa tese dele não é estranha a muitos dos filósofos laicos, principalmente aqueles que, como eu e ele, temos uma passagem da época de formação na filosofia da USP. Todos sabem do laicismo afrancesado da “escola de filosofia da USP”.

Outras escolas também participam de um certo pé atrás em relação aos monoteísmos modernos. Um filósofo que acompanho bem, em relação a qual até já escrevi um livro, Peter Sloterdijk, tem um belo texto sobre o assunto, publicado no Brasil com o título O zelo de Deus (Editora da Unesp). Nele, Sloterdijk não está falando do cuidado de Deus, ou zelo, em relação aos homens, mas o inverso, o quanto Deus, nos três monoteísmos atuais, arrumou muitos zelotes que às vezes praticamente privatizam o divino.

Creio que essa forma de tomar Deus, como sendo um construtor de Muros no estilo Trump, não é a melhor. Seja para ficar com os partidos de Deus ou os partidos contrários, talvez tenhamos de desviar o caminho do meu amigo Schwartsman ou do pensador alemão Peter Sloterdijk. Uma maneira curiosa, sem deixar de ser inteligente, é a que enxerga o que o Deus católico pode fazer no contexto de uma situação que pede a “tolerância religiosa” (Locke), e esta é, sem dúvida, a anunciada na Utopia de Thomas Morus.

Morus mostra sua Utopia como um lugar em que há plena tolerância religiosa, ainda que a maioria seja cristã e ainda que ele, como quem relata o lugar, mostre que se trata de uma ilha que um dia adotará a visão cristã, e católica, como sendo a de todos. Mas isso, ele deixa claro, nas terras dos utopianos nunca virá pela violência, e sim pelo que ele chama de “doçura e razão”. Por quê? Por uma razão simples: se eu creio em um Deus como o Deus católico, acredito na sua sabedoria maior, na sua bondade máxima, na sua perfeição de desígnios, então, não tenho que eu mesmo criar problemas para aqueles que não acreditam em Deus, mas acreditam em deuses ou são “materialistas” ou, então, possuem uma concepção de Deus diferente da católica. Se creio no Deus católico, como ele é definido, então creio que os que não que creem naquilo que creio estão passando por situações traçadas por Deus. Há uma razão de ser deles, que não está fora do plano de Deus. E eles cumprirão suas funções, até mesmo se forem funções de contraponto, e as coisas se encaminharão para a posição de bom senso no futuro. Não tenho que cometer violência sobre eles, como se eu fosse a mão de Deus.

Esse tipo de tolerância religiosa posta na Utopia elimina as vanguardas. Ninguém se vê como sendo mensageiro de Deus, soldado de Deus, capaz de trazer outros, pela violência, para a fé cristã. Não! Os que estão fora da fé cristã foram lá colocados por razões que só Deus conhece e encaminha algum destino. Esse tipo de tolerância antes religiosa que laica, é bastante interessante. Claro, Morus a colocou não em um lugar qualquer, mas na ilha chamada Utopia – o lugar nenhum. Mas ele nunca disse que a Utopia seria uma Ucronia, ou seja, um tempo nenhum.

Muitas vezes pensamos no estado laico como a saída para que todos os deuses, inclusive Deus, sobreviva na sociedade. Mas Morus mostra que o cristianismo tem embutido nele mesmo, pela sua concepção de Deus, não uma espécie de tolerância religiosa como a criada por não religiosos e religiosos por meio da instituição do estado laico, aquele que, por ser neutro, permite e garante a vigência da diversidade religiosa na sociedade

Paulo Ghiraldelli Jr, 59, filósofo. São Paulo, 23/03/2017

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3 Responses “A tolerância religiosa do Deus único – o argumento de Thomas Morus”

  1. Eduardo Rocha
    26/03/2017 at 17:25

    Paulo, por que os monoteísmos parecem ter uma “vantagem” em relação a outras religiões ou ao politeísmo? Parece que um Deus único faz com que questões psicopolíticas despertem em um grau mais elevado. O elo parece ser mais forte e mais fácil entre o monoteísmo e seus zeladores. Um “o que eu posso fazer por Deus” do que “O que Deus pode fazer por mim”. No próprio bolhas se inicia com a questão da operação cardíaca ou do excesso eucarístico.

    • 26/03/2017 at 19:08

      É uma questão de história da metafísica, mas com um pouco de sociologia. É preciso ver como que foi essa transição

  2. Orquidéia
    25/03/2017 at 07:55

    Mas tem gente que queria um pouco de retrocesso nessa parte,em nome da paixão da fé, ou da “seriedade” com a qual elas acham que as coisas relativas a Deus devem ser encaradas.

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