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24/10/2017

Todos com a boca escancarada cheia de dentes


“Quem não quiser falar de vampirismo, deve calar-se também sobre a filosofia”. E o filósofo alemão continua: se uma frase assim se confirmasse, então “seria o tempo da segunda oportunidade de Marx”. Dessa forma ele termina seu capítulo sobre Marx em Temperamentos filosóficos – um breviário de Platão a Foucault (Lisboa, Edições 70, 2012). Trata-se de um conjunto de mini ensaios que reúne suas introduções aos autores clássicos, elaboradas para uma publicação alemã quase no estilo da nossa Os Pensadores, da Abril.

Sloterdijk gasta a maior parte do texto explicando as mazelas do marxismo nas mãos dos intérpretes políticos, os que foram antes chefes de gangs acadêmicas e partidárias que qualquer outra coisa minimamente descente. Vai do máximo elogio a Marx até a mais irritante – para os ainda fanáticos adeptos – observação, a de que a obra do revolucionário não iria além de uma nota de rodapé no capítulo sobre Idealismo Alemão, em uma boa história da filosofia. Ao final, no entanto, diz o que imagina que poderia vir a ser a ainda quase atualidade de Marx, ou talvez sua utilidade futura.

Por tratar do dinheiro como elemento que abocanha tudo que temos e fazemos, isto é, “trabalho, comunicação arte e amor”, Marx teria sua segunda chance exatamente por estar nele, ainda, a conversa sobre o vampirismo. “Da subjetividade humana de nosso tempo antolha-nos sempre a alma do dinheiro, desvelada: uma sociedade de compradores comprados e de prostituição prostituída introduz-se nas relações globalizadas do mercado” (pp. 85-6). Nessa sociedade os serviços de um drácula se impõe, uma vez que “o clássico laissez-faire liberal explicita-se no sugar pós-moderno e no deixar-se sugar. É cada vez mais difícil distinguir a telecomunicação do tele-vampirismo”. Assim, temos de admitir: “tele-ver e tele-sugar vão haurir a um mundo liquefeito que já mal sabe o que seria uma vida capaz de resistência, ou seja, uma vida própria” (p. 86).

É fácil ver aí o eco de Heidegger criticando a vida comum e de Adorno falando da “sociedade administrada” na modernidade tardia. Em outras palavras: se Sloterdijk, para falar da atualidade futura de Marx, soa como filósofos do século XX que foram leitores de Marx, então eis aí que, ao lado dos intérpretes gangsters também haveria aqueles que teriam sido, classicamente, os bons leitores. Aliás, também essa questão, a de busca dos que foram bons leitores, é algo que está no seu ensaio.

Estamos então, para o Marx que restou (e que não é pouco uma vez que trata do que impregna toda a nossa subjetividade) como quem se parece com aquela figura da música de Raul: “sentado com a boca escancarada esperando a morte chegar”. Diante de nós, o que efetivamente existe é o mundo do tele-ver, vendendo e comprando. Todos os canais ligados no único canal não hipócrita: Shoptime! Ora, mas exatamente aqui e agora, nesse momento que preparo este texto para meus leitores online, não estaria eu salvo dessa situação, uma vez que me transformo naquele que quer dizer o que pensa, o que reflete, e que se põe não como passivo, como ativo em um meio que é o da interatividade par excellence? Eu, Paulo, não me salvo?

Talvez aqui tenhamos de ceder a Zizek, em uma boa sacada a respeito do mundo “www” da interatividade. Para o filósofo sloveno a interatividade que festejamos não é outra coisa senão a época do “sujeito interpassivo” (Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010). Tudo que fazemos não é interagir como quem efetivamente atua, mas como quem vê outro atuar em nosso lugar, de preferência o que é morto, a máquina ou coisa parecida.

Em um mundo em que tenho de ficar com a “boca escancarada esperando a morte chegar”, enquanto o aparato de telecompra e televenda vêm pegar meu sangue, meu próprio gozo é o gozo do outro, de preferência o suposto gozo da máquina. Assim, confessa Zizek, ele mesmo grava inúmeros filmes para “ver depois”, e nunca vê, pois não tem tempo, mas fica satisfeito de tê-los ali gravados, “vistos” pela máquina, dando-lhe a sensação que mais cedo ou mais tarde poderá gozar vendo os filmes também. Todavia, não irá vê-los, e o único gozo possível será ter sabido que a máquina os tem, a máquina os vê, a máquina os guarda.

Zizek interpreta assim também o êxito dos “reality shows” do momento. Vejo os que estão lá usufruindo de mulheres, homens, músicas e sucesso. Mas eles não estão usufruindo de nada, apenas estão lançados em um frenesi do jogo cuja ludicidade foi sugada. E eu, aqui em casa, também não estou fazendo outra coisa senão me manter com a “boca escancarada”, me deixando sugar pelo shoptime imiscuído no que se chama “reality” já por ironia máxima, exatamente por ser, efetivamente, a minha reality!

Na maioria das vezes, nem mesmo fico com a “boca escancarada” ali diante do programa. Passo temporadas e temporadas sem vê-lo, e, no entanto, sei de tudo que ocorreu ali, e continuo tendo um gozo fictício pelo falso gozo do outro. Ao fim e ao cabo, quem disse que não irei ver a pelada do momento na Playboy? Você não quer ver? Verá! Mesmo sendo mulher e não lésbica, ainda assim, verá!

Não sei o quanto Sloterdijk concordaria com esses exemplos alheios, nos quais o vampirismo se expressa. Mas não tenho nenhuma dúvida que é também disso que ele está falando: da atividade frenética de interatividade que não passa de uma ativa e frenética interpassividade, ou seja, o fazer louco e veloz e diário do que não faz nenhum sentido.

Todos nós temos que interagir o tempo todo. Mas não estamos prontos para resistir ao vampirismo, ao fazer o que não determinamos, ao fazer o que está sob uma semântica de pernas curtas e uma sintaxe tipicamente redneck. Nessa incapacidade de fechar a “boca escancarada”, vemos então aquela senhora rica embevecida com uma palestra de Pondé (a mãe dela via as de Renato Janine) sobre Tocqueville, acreditando piamente que ele fala a mesma coisa que a palestra do dia anterior, com Frei Beto, sobre o paraíso em Cuba. São palestras caras, mas bem mais baratas que aquela de Bill Clinton para empresários, em um hotel badalado, onde todos os executivos e pretensos falsos executivos terão a sensação de ouvir novidades que já viram nos livros de autoajuda que os deliciam de tédio em aeroportos, principalmente quando não podem levar aquela acompanhante, que é a filha universitária de um seu colega também executivo.

É difícil não ver nessas plateias as pessoas fitadas por Raul.

Termino aqui meu texto, olho no espelho. Tudo me diz que estou com a boca mais escancarada ainda.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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3 Responses “Todos com a boca escancarada cheia de dentes”

  1. Alexandre
    14/12/2013 at 01:00

    Não sei se o problema está no meu computador ou no seu site, mas o seu texto mais recente não está abrindo.

  2. 10/12/2013 at 15:58

    Texto genial, Paulo. Parabéns e saudações de Brasília e da sociologia da UnB que você tanto despreza 😉

    • 10/12/2013 at 18:00

      Eu desprezo sociologia, e da UnB? Ué! Que estranho! Eu acho que a sociologia está em crise, que fala ainda uma linguagem velha, só isso. Mas assim, tão específico, “da UnB”, fica estranho. Mas obrigado por ler aqui minhas coisas.

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