Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/07/2017

Toda opinião é intolerante


Reclamamos demais a respeito da intolerância. Mas não sabemos direito do que se trata. Em geral, fala-se “fulano de tal é intolerante no Facebook” ou “ele só dá opinião intolerante”, mas quando lá vamos verificar, nem sempre encontramos algo que chamaríamos de intolerante, trata-se apenas de uma afirmação dita taxativamente. Todavia, aí onde não achamos intolerância, há intolerância. Não notamos que seja lá qual for a opinião taxativa, ela por si só é intolerante, ela está ali para reinar e, na sua objetividade de opinião, não se põe para dar espaço para outra. Sua função é ocupar espaço, preencher lugar. Opinião não é uma expressão de convite para qualquer afirmação, ela é, não raro, expressão de uma convicção. Expressões de convicções não solicitadas são por si só intolerantes. Não há como não ser.

Foi pensando nisso que Platão qualificou o discurso de opinião, a doxa, como o que era feito pelo rapsodo ou por outros que exprimiam convicções, e que eram, portanto, completamente diferente daquilo que ele apontou como a narrativa da filosofia. Esta, então, contra a opinião, expressaria a fala da razão, o pensar refletidamente, o trabalho da investigação. Platão tomou Sócrates como o mestre dessa atitude. Só ele é que realmente rompeu com o fazer frases, o dar opiniões.

Hoje acusado como criador da narrativa quase intolerante, a dos que põe verdades, Platão foi aquele que fez exatamente o oposto disso. Ele começou expondo os diálogos de Sócrates, talvez o Sócrates histórico, e o fez mostrando como que Sócrates sim não era intolerante, e isso pelo fato de não ficar em opiniões. Sócrates fazia uma autêntica investigação racional.

Sócrates fazia o elenkhós, o métodos da refutação. Ele pedia opinião séria, convicta, e começava trabalhando sobre tal convicção, do interlocutor ou dele próprio, ou de ambos. Certificava-se a respeito da sinceridade da convicção, da opinião, de sua intolerância, ou seja, de sua capacidade de não admitir outra que pudesse apagá-la. Feito isso, chamava outras duas convicções e, então, mostrava ao interlocutor, e a si mesmo, as incompatibilidades em aceitar conjuntamente a três convicções, as três opiniões. Criava-se então um impasse, uma aporia. Por isso mesmo esses diálogos se chamaram aporético, os diálogos do que teria sido o Sócrates histórico. Sócrates não era intolerante exatamente por isso, porque usava das opiniões para a investigação, e para descartar umas ao ter de ficar com outras e assim por diante. Sócrates não era intolerante por não ficar na opinião dada.

Uma opinião “O homem é bom, mas a sociedade o corrompe” é tão intolerante quanto a opinião “A história do homem é  história da luta de classes” ou a opinião “a escravidão é um crime” e a opinião “intolerância é o que há de pior”. Essas convicções são opiniões, e são intolerantes, eles não são perguntas, não são convites para outras, elas se põe de modo a se mostrar auto-suficientes. Nesse sentido são intolerantes. Elas se põe com uma força de objetividade que é efetivamente própria daquilo que não convida outro para aderir ou negar ou questionar. Outros podem até fazer isso, mas, por ela mesma, tal convicção é uma opinião dada sem requisição de outra. Sua auto-suficiência retórica é sua intolerância. Estamos longe, aí, da convicção posta ou requisitada por Sócrates para ser checada com outra e negada, pois isso não é por opinião, mas fazer investigação conjunta.

Quando entendemos isso, que toda opinião é intolerante, começamos a falar em uma conversação investigativa, e deixamos de lado o papo de intolerância. A investigação é exatamente a prática da tolerância. E a opinião não tem que ser adjetivada pela palavra “intolerante”, pois de fato é. Por isso só, sendo opinião, há aí algo intolerante.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 29/11/2016

Tags: , ,

5 Responses “Toda opinião é intolerante”

  1. denis
    30/11/2016 at 19:21

    O ego chegou a tal ponto, que a pessoa que ouve ou le a opinião de outra pessoa , nem sequer se da ao trabalho de refletir o que ela(e) disse, ele(a) quer apenas que concorde com o que disse, Se voçe ousar a discordar vc é taxado de intolerante. Um país sem graça e chato!

    • 30/11/2016 at 20:49

      Denis, não é ego, é falta dele

    • denis
      01/12/2016 at 20:52

      Entendi

  2. Bradamante
    30/11/2016 at 00:31

    Ou melhor em cus intolerantes: só eles querem abocanhar o microfone.

  3. Bradamante
    30/11/2016 at 00:29

    Concordo com sua conversação investigativa. Neste caso, a participação dos convidados do jornal da cultura se resume em cus peidando intolerância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *