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18/11/2017

The American Dream reposto por Deus


Terminada a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos trouxeram para o mundo o que havia sido gestado em cem anos: The American Dream.

As classes médias do mundo todo foram se americanizando e, nesse ímpeto, passaram a importar o modelo do que era lícito sonhar. O ideal era uma família de dois filhos, carro novo na garagem, uma casa sem muros e com luxos bem limitados, as férias garantidas, a escola dos filhos funcionando, a paz e, enfim, um casamento feliz. Essa família urbana, mas com olhares e gostos ainda da simplicidade de um país de farmers, ocidentalizou o mundo e reocidentalizou o Ocidente. Que todos pudessem estar aos fins de semana na Igreja como casais, e que todos tivessem a chance de desfrutar, em algum lugar, os parques da América. De sonho isso virou uma regra para a noção de felicidade do mundo todo que, por um momento, entrou em contato com a Internet da época: o mercado, ou seja, o campo pelo qual começava-se para valer a incrível rapidez de se levar vírus, notícias e modas.

É claro que nessa ocidentalização do mundo, que trouxe para todos não só a Pax Americana mas também a chave da nova felicidade, ou seja, a obrigatoriedade de ser classe média, se fez também pela TV, e isso, de certo modo, já vinha sendo produzido antes da Guerra por meio de Hollywood. Não foi ali, de fato, que se inventou o “happy end”?  Mas nada disso teria ido adiante, como elemento a ser consumido pelo mundo, se antes de tudo o mundo não tivesse já há algum tempo inventado de gostar de consumir.

Quando vieram os anos sessenta, o sonho americano passou a ser francamente criticado. A Guerra do Vietnã punha os filhos não mais indo para a escola, mas para a matança. A queima de sutiãs punha as moças com ouvidos não mais disponíveis para o “querida, cheguei”, que havia imperado nos seriados da TV. Os concursos de beleza deixaram de fazer sucesso, pois o feminismo criou o imperativo de que a felicidade de tipo dos anos cinquenta não iria mais valer. A ideia de família ganhou alternativas. Todavia, essa ideia de tipo americana nunca desapareceu. O sonho americano foi criticado, declarado ideologia, represado, desprezado. Mas, em seu núcleo, o chamado “ideal de família”, não desapareceu, apenas se escondeu. Quando parecia poder surgir, veio Clinton e sua esposa, e então tudo ficou realmente turvo. Ninguém sabia se a atitude de Hilary, aceitando o corneamento calada, iria provocar alguma coisa nova ou apenas reiterar o que parecia ser um destino inexorável: o fim da felicidade por meio da família, o fim da idealizada família americana dos anos cinquenta.

Na noite de ontem, com a despedida de Obam da presidência, tudo ficou bem nítido: nada estava mais vivo que uma parte do sonho americano, aquela da família unificada, sem escândalos, sem luxos, mantendo a ideia viva de que a esposa é a melhor amiga do marido, numa condição pós-feminista. Além disso, uma boa educação americana deve fazer filhas crescerem honradas, sem extravagância, com orgulho dos país e com paixão patriota. Quando Obama falou de Michelle e das filhas, no seu discurso de despedida, o público entrou em delírio. O rosto de todos era bem expressivo. A verdade veio à tona: há muito todos queriam só isso: que um casal na Casa Branca não desse nenhum dissabor moral, que se portassem como membros urbanos herdeiros dos puros farmers., que fossem ao exterior sem gastos excessivos, que não deixassem de ir ao culto da Igreja, que pudessem lutar tenazmente pela “liberdade, igualdade e inclusão”. E isso, até para os conservadores se fez verdade. Pois vários deles, ontem, admitiram estarem felizes ao ver a família Obama unida e feliz. Ironicamente, foi a América Negra que deu isso a todos os americanos. Mas um boa parte dos brancos, inclusive eleitores de Trump, estavam gratos por isso. The American Dream explodiu ontem nos Estados Unidos. Vieram elogios para os Obama de todos os lados.

Definitivamente o mundo ontem sentiu uma incrível nostalgia do presente. Um presente que fez dar certo um passado que, quando era presente, chegou a ser tomado como ideologia. Nem mesmo as vozes que um dia falaram que Obama era só mais um político ousaram dizer isso ontem, tamanha a comoção, tamanha a ideia de que o sonho americano havia sido conseguido durante oito anos na Casa Branca. Quando Obama disse , ao final, “nós podemos, nós fizemos”, completando o slogan de campanha de oito anos atrás, todos ficaram boquiabertos. Foi uma catarse. Os casais se abraçavam como que dizendo: um casal da política nos disse que nossa vida não-política pode dar certo, que o casamento e a vida familiar têm como dar certo. Quem viveu e trabalhou na América, como aconteceu comigo, consegue entender bem esse tipo de réquiem que estava para ocorrer, mas que ninguém podia imaginar que iria ocorrer.  “Sim, nós fizemos”. Os americanos se entreolharam quase que não acreditando que haviam conseguido. Muita gente fora de lá sentiu o mesmo, a vibração do núcleo de ocidentalização.

Os americanos e boa parte do mundo, em especial a classe média, ao menos ontem, não estiveram nem aí para qualquer sociólogo que viesse dizer que também ali, de novo, tudo tinha seu componente ideológico. E se alguém dissesse que tudo aquilo era campanha para Michelle, para daqui quatro anos, ninguém daria a mínima. Pois todos estavam por demais satisfeitos em poder sentir que os casamentos e famílias dão certo, a despeito da política, a despeito da super exposição, a despeito de alguns homens quererem contrariar a lei de Deus.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 11/01/2017

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4 Responses “The American Dream reposto por Deus”

  1. Orquidéia
    17/01/2017 at 08:15

    Amém, prof. …

  2. Gustavo
    12/01/2017 at 11:28

    Mais de 26 mil bombas lançadas só em 2016. Síria, Líbia e Egito estão na conta dele. Não só na dele, mas está. Seu ídolo também foi um derramador de sangue, Ghiraldelli.

    • 12/01/2017 at 13:44

      Gustavo o problema dele é a mira. Errou. Por exemplo, ele poderia ter colocado os drones direcionados só para quem nasceu de 11 meses. Aí teria pego você.

  3. LMC
    12/01/2017 at 11:16

    Esse artigo deveria estar na página
    3 da Folha,PG.Bom demais!

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